Uma Berlinale que riu do ‘inteligentinho’ e coroou o risco

Uma Berlinale que riu do ‘inteligentinho’ e coroou o risco

Rodrigo Fonseca

29 de fevereiro de 2020 | 17h49

“Effacer L’Historique”

Rodrigo Fonseca
Entre “My Salinger Year” e “Police”, filmes hors-concours respectivamente de abertura e de encerramento da Berlinale 70, o evento que, outrora compunha com Cannes e Veneza a Meca dos festivais de cinema do mundo, voltou a esse posto, do qual havia tomado à mercê de uma administração avessa a badalações e comprometida com picuinhas do Velho Mundo. Picuinhas essas que azedaram a relação da maratona audiovisual germânica com a classe de realizadores de sua pátria. Terra de Wim Wenders, de Margarethe von Trotta, de Werner Herzog, de Volker Schlöndorff, a Alemanha sofreu uma queda de prestígio brutal em sua produção para as telas dos anos 1990 para cá, vivendo de fogachos como Tom Tykwer, Fatih Akin e Maren Ade. Por isso, o afastamento de um festival como a Berlinale de seus novos e veteranos artistas era um agravante dos problemas locais, que pareceram em fase de alta este ano, quando Christian Petzold, o melhor dos cineastas da casa em atividade, atropelou a programação com uma love story babada, suada e assolada por fantasmas: “Undine”. Deram a ela o prêmio da crítica e a láurea de melhor atriz, para Paula Beer, uma das maiores estrelas do país em atividade. Beer vive uma historiadora que, chutada pelo ex, afoga-se no desejo de um escafandrista (Franz Rogowski). É um longa-metragem que repensa a própria arquitetura de Berlim em sua fúria narrativa de mesclar fábula e realismo. Fúria que encantou o time de jurados chefiados pelo ator inglês Jeremy Irons (ganhador do Oscar por “O Reverso da Fortuna”). No júri dele estavam a atriz francesa Bérénice Bejo; a produtora alemã Bettina Brokemper; a diretora palestina Annemarie Jacir; o dramaturgo e cineasta americano Kenneth Lonergan; o ator italiano Luca Marinelli; e o cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho. Todos premiaram com uma precisão cirúrgica, embora tenham ignorado a obra-prima “Sibéria”, de Abel Ferrara, e a experimentação observacional “Days”, de Tsai Ming-liang, que levou o ursinho Teddy, a láurea LGBTQ+ mais respeitada do mundo para casa, em Taiwan.
O júri fez assim:
Urso de Ouro: “The is no evil”, de Mohammad Rasoulof
Grande Prêmio do Júri: “Effacer L’Historique”, de Benoît Delépine e Gustave Kervern
Prêmio do 70º Festival de Berlim:
Direção:
Atriz: Paula Beer, por “Undine”
Ator: Elio Germano, por “Volevo Nascondermi”
Roteiro: Fabio e Damiano D’Innocenzo, por “Favolecce”
Contribuição artística: Jürgen Jürges, pela fotografia de “Dau. Natasha”
Prêmio Glshütte de Melhor Documentário: “Irradiés”, de Rithy Panh (Camboja/ França), com menção honrosa para “Notes From The Underground”, de Tizza Covi e Rainer Frimmel (Alemanha)
Urso de Ouro de Curta-metragem: “T”, de Keisha Rae Witherspoon (EUA)
Prêmio do Júri de Curta-metragem: “Filipiñana”, de Rafael Manuel (Filipinas)
Prêmio Audi de Curtas: “Genius Loci”, de Adrien Mérigeau (França)
Melhor longa-metragem de estreia: “Los Conductos”, de Camilo Restrepo (Colômbia/ Brasil), com menção honrosa pra “Naked animals”, de Melanie Waelde (Alemanha)
Prêmio da Crítica (Fipresci): “Undine”, de Chtistian Petzold
Competição Encounters
Melhor filme: “The Works and Daysn(of Tayoko Shiojiri In The Shiotani Basin”, de C. W. Winter e Anders Edström (EUA/ Suécia/ Japão)
Prêmio do Júri: “The Trouble Of Being Born”, de Sandra Wollner (Áustria)
Direção: Cristi Puiu, por “Malmkrog” (Romênia)
Menção honrosa: “Isabella”, de Matías Piñeiro (Argentina)
Competição Geração: “Meu Nome É Bagdá”, de Caru Alves de Souza

Cada mostra tem um júri para chamar de seu e o da Geração deu à diretor do duro “De Menor” (2013) sua láurea máxima, por unanimidade, para “Meu Nome É Bagdá”, capaz de dissecar o mundo do skate com uma vertigem só vista antes em Stacy Peralta, potencializada pela montagem de Willem Dias. Da mesma forma, os jurados do prêmio de melhor filme de estreia olharam com encanto para uma coprodução Brasil X Colômbia: “Los Conductos”, de Camilo Restrepo. O cineasta Gustavo Beck é produtor no projeto. O Brasil ainda participa como coprodutor do uruguaio “Chico ventana también quisiera tener un submarino”, de Alex Piperno, premiado pelo júri dos leitores do jornal “Tagesspiegel”. Foram, afinal de contas, 21 produções do Brasil (19 filmes e duas séries), num bonde de olhares de diferentes latitudes.
Foi um ano de trocas na gestão do evento, que passou anos a fio numa maré de percalços: saiu seu ex-presidente, Dieter Kosslick, e entraram Mariette Rissenbeek, como diretora executiva, e Carlo Chatrian, no posto de diretor artístico. E ambos potencializaram a arte de mobilizar holofotes, em várias seções. Nunca se viu uma Berlinale Special com filés tão saborosos como “Pinóquio”, de Matteo Garrone, ou “Charlatan”, melhor longa da polonesa Agnieszka Holland. Chatrian não teve medo de apostar em gêneros: “Time To Hunt”, thriller pancadaria da Coreia do Sul, socou os dentes de muito crítico coxinha por aqui. A maior prova disso foi obtida quando uma comédia, o mais repudiado dos filões (não pelo público pagante, mas nas alas consideradas “inteligentinhas”), ganhou o Prêmio do 70º Aniversário: a delícia francesa “Effacer L’Historique”. É um “Relatos Selvagens” gaiato sobre os malefícios do roaming, do sinal azul do Whatsapp, da caixa postal, do streaming. Uma comédia como “RoGoPaG” (1963) ou “Boccaccio 70” (1962), sem medo da leveza, capaz de rir da austeridade dos intelectuais. Esse riso fez desta Berlinale um espaço de trocas simbólicas com vários sentimentos, sobretudo o desejo do risco.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: