Uma atuação assombrosa

Uma atuação assombrosa

Rodrigo Fonseca

13 de novembro de 2015 | 08h34

Francisco Gaspar é o palhaço Cangaço no terror obrigatório

Francisco Gaspar brilha no papel do palhaço Cangaço no terror obrigatório “Condado Macabro”: elogios mundo afora

Ainda inábil no domínio do esperanto dos filmes de gênero, o cinema brasileiro ganha, a partir deste fim de semana, com a estreia de Condado Macabro, um personagem com fôlego de marcar história no terreno do terror: Cangaço, um palhaço maquiado de sangue fresco, imortalizado nas telas pelo talento do ator Francisco Gaspar. Dotado de uma força cênica singular, ele escava camadas profundas de vida (e de medo) no thriller slasher de André de Campos Mello e Marcos DeBritto sobre a jornada de agonias de um grupo de jovens em uma casa no interior cercada de maníacos. Com um domínio maduro das cartilhas do horror, o filme vem correndo o planeta, via Holanda, Espanha, México, Colômbia e outros cantos, tendo o rosto de Gaspar como estandarte. Laureado com uma menção honrosa no Festival do Rio de 2013 por A Estrada 47, o paraense de 48 anos é hoje um dos mais criativos intérpretes de sua geração, reinando no cinema B.O. brasileiro, ao largo da linha holofótica da TV, construindo personagens às voltas com uma (suposta) fragilidade inerente. Os elogios mundiais recebidos pelo longa de Mello e DeBritto confirmam essa condição: seu Cangaço é árido por fora, mas umedecido de coágulos derramados por dentro, conduzindo a plateia a um carrossel de tensão e susto raro para o padrão nacional.

Vinícius de Oliveira, ao centro, com Sara Antunes e Ariclenes Barroso em

Vinícius de Oliveira, ao centro, com Sara Antunes e Ariclenes Barroso em “Se Deus Vier, Que Venha Armado: hamletiano”

Ainda na fase de descobertas brasileiras: olho atento para o desempenho de Vinícius de Oliveira, o guri de Central do Brasil (1998), à frente de Se Deus Vier, Que Venha Armado, de Luis Dantas, cineasta com anos de estrada como fotojornalista. Num ensaio sobre as mazelas da exclusão na periferia paulistana, o diretor constrói uma espécie de Hamlet “sub-urbano” a partir da cruzada de vingança do ex-presidiário Damião (Oliveira, em atuação irretocável) contra um grupo de policiais que espalhou morte em seu lar. Sara Antunes e Ariclenes Barroso (o ator do momento, ganhador do Festival do Rio por Aspirantes) ajudam a desenhar essa tragédia com veias abertas.