Um Urso de Ouro de pedigree

Um Urso de Ouro de pedigree

Rodrigo Fonseca

24 de fevereiro de 2018 | 17h28

“Ilha de Cachorros”: stop motion rende a Wes Anderson prêmio de melhor direção na Berlinale 2018

Rodrigo Fonseca
Foi um dia de alegria para a Berlinale ver a inteligente distribuição de prêmios que o júri de Tom Tykwer fez, embora tenha concedido o Urso de Ouro ao filme errado: não há motivos para justificar a vitória de Touch Me Not, da romena Adina Pintilie, fora um interesse do cineasta alemão em sua narrativa modernete. Há um lado bom na conquista desse filme, que, inegavelmente, é provocativo e tem múltiplos méritos formais: ter uma mulher cineasta nas cabeças de um evento do porte do Festival de Berlim é algo de grande relevância política nos tempos atuais. Mas, havia em concurso um time de realizadoras com mais poder de fogo. Adina venceu por nos fazer refletir a neurose virtual que alienou o corpo como lugar de prazer e de identidade.

Fora isso, deu gosto ver a polonesa Malgorzata Szumowska celebrar empoderamento ao ganhar o Grande Prêmio do Júri pó Mug. Sua ironia política, com sopros de fábula, ataca o fundamentalismo religioso e a hipocrisia dos sistemas de saúde. Bonito também foi ver o Paraguai ganhar destaque no planisfério cinéfilo com Las Herederas, laureado com o Alfred Bauer e a estatueta de Melhor Atriz, para Ana Brun. De quebra, o Brasil ganha junto com ele, pois a carioca Julia Murat foi sua coprodutora. E deu ainda menção honrosa para o belo Ex-Pajé, de Luiz Bolognesi.

Mas a minha maior alegria foi ver a estética autoralíssima de Wes Anderson ser laureada no âmbito da animação: Ilha de Cachorros faz avançar, e muito, seu estilo visual. E ao ser coroado como Melhor Diretor, ele demarca seu prestígio como um dos mais inventivos contadores de histórias do nosso tempo. Por fim, Museo tem, mesmo, a melhor dramaturgia de roteiro de todo o festival, coroando o empenho do México em repensar seu passado. E Anthony Bajon, eleito melhor ator pelo caudaloso La Prière, faz a gente repensar o qual saudável anda o cinema francês de médio porte.

 

Lista de vencedores

Urso de Ouro: Touch Me Not, de Adina Pintilie (Romênia)

Grande Prêmio do Júri: Mug, de Malgorzata Szumowska (Polônia)

Documentário: The Waldheim Waltz, de Ruth Beckermann (Áustria); com menção honrosa para Ex-Pajé, de Luiz Bolognesi (Brasil)

Direção: Wes Anderson (Ilha de Cachorros)

Atriz: Ana Brun (Las Herederas)

Ator: Anthony Bajon (La Prière)

Roteiro: Manuel Alcalá e Alonso Ruizpalacios, por Museo (México)

Contribuição Artística: Elena Okopnaya, pela direção de arte e o figurino de Dovlatov (Rússia)

Troféu Alfred Bauer (dado a pesquisas de linguagem): Las Herederas, de Marcelo Martinessi (Paraguai)

Filme de Estreia: Touch Me Not, de Adina Pintilie (com menção honrosa para An Elephant Sitting Still, de Hu Bo, da China)

Curta-metragem: The Men Behind The Walls, de Ines Moldavsky (Israel)

Prêmio da Crítica: Las Herederas, de Marcelo Martinessi (Paraguai)

Júri Ecumênico: In The Aisles, de Thomas Stuber (com menção para U-July 22)

 

 

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