Um thriller febril à moda Murilo Salles, uma comédia boa e um gato metido a historiador

Um thriller febril à moda Murilo Salles, uma comédia boa e um gato metido a historiador

Rodrigo Fonseca

30 de novembro de 2015 | 20h58

Cíntia Rosa e Pedro Brício têm atuações feéricas no longa

Cíntia Rosa e Pedro Brício têm atuações feéricas no longa “O Fim e os Meios”: um suspense sobre o degredo de nossa ética

Ao longo dos últimos onze meses, o cinema brasileiro desfilou pelas nossas telas uma safra pontuada por longas-metragens recheados de inquietação, com destaque para Que Horas Ela Volta?, Chato – O Rei do Brasil, Casa Grande, Ausência, Se Deus Vier… Que Venha Armado e Cássia Eller, que garantiram um ano de vigor narrativo frente à concorrência estética estrangeira. Mas 2015 ainda não acabou, assim como ainda não chegou ao fim o estoque de surpresas da produção local, como comprovará, a partir desta quinta-feira (dia 3), o desconjuntante O Fim e os Meios, de Murilo Salles. É raro a gente ver sair das fornalhas dos realizadores nativos um thriller político, filão lapidado pelos italianos Francesco Rosi e Elio Petri e por um franco-grego, o deus Costa-Gavras (de Z), entre os anos 1960 e 70 para fazer da denúncia uma forma de poética. Murilo o faz sem incorrer em desesperanças ou desesperos, preocupado – como é peculiar à obra deste que foi um dos maiores diretores de fotografia do país, convertido em cineasta a partir de Nunca Fomos Tão Felizes, em 1984 – com a potência da imagem.

Embora seja – antes de tudo – um suspense eletrizante em sua caracterização para a conspiração envolvendo um marketeiro, um aspone do Senado e uma jornalista, esta produção se ocupa de expressar contradições morais e engasgos existenciais fazendo, à frente do texto, uma investigação imagética do espaço e do tempo. Há um Rio de Janeiro que só se vê nas nossas desatenções e uma Brasília invisível aos jornais, vista da mesa de jantar, de lençóis perfumados de sexo e de varandas onde se observa o nada. Uma caixa d’água na Zona Sul carioca ou uma floresta nos soam como um jardim de signos que se bifurcam frente à câmera indócil de Murilo.

Uma personagem-guia, Cris, vivida por Cíntia Rosa, abre o filme grávida de um publicitário, Paulo Henrique (Pedro Bício, de uma precisão cirúrgica). Paulo acaba de ser chamado para dirigir a publicidade de um senador (Emiliano Queiroz). Sua adesão ao convite de trabalho se dá pelo assédio do dinheiro e pela chance de começar uma vida com Cris e a filha que ambos geraram. Mas uma vez em no coração da República, o casal vai se perdendo numa ciranda que, a princípio, é girada pelas eleições e, depois, passa a ser movida pelo instinto carnal. Cris sabe porque vai para Brasília: quer casar e ter uma vida segura com seu bebê, oferecendo a ela um bom pai. Mas, filme adentro, essa certeza vai se transsubstanciando à sombra de Hugo, assessor do senador interpretado com uma maestria inquestionável por Marco Ricca.

Arrebatador no Chatô de Guilherme Fontes, Ricca domina a telona mais uma vez ao afastar O Fim e os Meios da moral e cívica, conduzindo-o a instâncias pantanosas dos porões do Planalto. Seu Hugo é a atualização pós-moderna de uma modalidade do coronelismo inerente à nossa Sociologia. Ele é o capataz cordial dos coronéis do Nordeste, que assopra antes de bater, que seduz antes de devorar. É o predador do Brasil que se desenha Cerrado adentro. Cris e ele vão estabelecer uma relação que extrapola diferenças de classe e fetiches: é a sedução da força política. E a partir dela, Murilo promove uma resenha sobre o degredo da nossa ética, expressa com nervos à flor da pele.

https://www.youtube.com/watch?v=cyBx0QfawdQ

Laureado com o prêmio de melhor roteiro no Festival do Rio de 2014, O Fim e os Meios tem um charme a mais na direção de arte de Pedro Paulo de Souza, que, com discrição, traça o desenho da opulência dos ricos e da indiferença blasé da classe média. Para Cíntia Rosa, é um filme de virada, capaz de fazer dela a nova Zezé Motta.

p.s.: Na mesma quinta, entra em cartaz uma comédia almodovariana que tempera cada sorriso roubado com molho de inteligência: Bem Casados, de Aluízio Abranches. Fazia muito tempo que um produto nacional da grife neochanchada não trazia tanta qualidade de shape – arrisco que não se via algo tão caprichado desde Os Penetras (2012). Mas com sua latinidade à flor da pele, a saga do apaixonamento improvável entre um diretor de vídeos de casamentos (um Alexandre Borges luminoso) e uma mulher à caça de vingança (Camila Morgado) rende, na telona, deixa para uma crônica de costumes sobre o discurso amoroso dos anos 2010. Com sal, pimenta e um Alexandre à la Mel Gibson em Do Que as Mulheres Gostam. Escrevo mais sobre já já…

https://www.youtube.com/watch?v=0w8B0k-C_Sw

Alexandre Borges esbanja carisma numa comédia com neurônios

Alexandre Borges esbanja carisma numa comédia com neurônios e elegância formal: “Bem Casados” estreia quinta

p.s.2: Tendo filhos (ou, no caso aqui, um sobrinho de dois anos serelepe, tricolor pró Fluzão e fã de Hot Wheels), não deixe de adicionar às suas compras de Natal o livr(aç)o infanto-juvenil O Gato Que Conheceu a História, do animador e cartunista niteroiense André Barroso, lançado há umas semaninhas pela Kimera. O papo é reto e simples: uma menina pede ao pai, de presente, um bichano para chamar de seu, só seu. Só que o danado deste gato do Barroso manja tudo de História Universal e ajuda a guria a saber mais sobre o mundo (e sobre si mesma). Trata-se de um Atlas em forma de conto de fadas, ilustrado com o traço de um mestre do desenho.

O gato que conheceu a História

p.s.3: Eleito um dos dez melhores filmes de 2015 pela Associação de Críticos do Rio de Janeiro (ACC-RJ), Birdman (ou A Inesperada Virtude da Ignorância), de Alejandro González Iñárritu, caiu na grade do Telecine Premium para nos lembrar o quão bom ator Michael Keaton é. E ele é um dos potenciais oscarizáveis, de novo, por Spotlight, drama em tom de thriller sobre uma força-tarefa de jornalistas que flagrou uma onda de crimes sexuais da Igreja. Em Birdman, a sequência em que uma crítica teatral e o astro em decadência vivido por Keaton debatem sobre o valor da arte popular é de arrancar lágrimas – e de expor hipocrisias.