Um ‘Sweeney Todd’ à luz de ‘Nosferatu’

Um ‘Sweeney Todd’ à luz de ‘Nosferatu’

Rodrigo Fonseca

02 de maio de 2022 | 12h24

Andrezza Massei e Rodrigo Lombardi são protagonistas de ‘Sweeney Todd’ Foto: Taba Benedicto/Estadão

RODRIGO FONSECA
É visceral o diálogo que a iluminação de “Sweeney Todd – O Cruel Barbeiro da Rua Fleet”, num design de luz assinado por Fran Barros, trava com o legado do Expressionismo (sobretudo sua vertente cinematográfica alemã) em nosso olhar. Difícil não pensar em F.W. Murnau (1888–1931), sobretudo nos filmes “O Castelo Vogelöd” (1921) e “A Última Gargalhada” (1926), ao ver o que as sombras e o enrubescer de uma lâmpada vermelha geram entre as mesas que se espalham pelo 033 Rooftop do Teatro Santander. É lá que a encenação de Zé Henrique de Paula, sob direção musical de Fernanda Maia, revisita o tratado sobre a crueldade humana (na perversidade do Poder e no revanchismo do rancor) esboçado na Braodway do fim dos anos 1970 por Stephen Sondheim (1930-2021). E essa revisita arranca de Rodrigo Lombardi não só uma quilometragem vocal impressionante para quem se notabilizou fora do canto como uma composição de personagem que desafia arquétipos. A potência de seu vozeirão já havia sido testada numa outra área, a dublagem, quando encarnou a versão brasileira Bem Bemelhor em “Os Croods 2: Uma Nova Era” (2021) e de Nick Wilde, no oscarizado “Zootopia” (2016). Mas o que mais chama atenção no espetáculo – além do exuberante figurino de João Pimenta – é o modo como o astro de folhetins como “Verdades Secretas” (2014) injeta brasilidade no modo de encarnar uma figura síntese do naturalismo, fincado de modo medular à caracterização de uma Londres pós-Revolução Industrial. Seu Sweeney é uma mistura do “Nosferatu” (1922) de Murnau com a malemolência corporal de Ankito (1924-2009) e a rudeza masculina dos tipos imortalizados por Jece Valadão (1930–2006). É, portanto, um Sweeney mais dúctil, maleável à fúria de suas fragilidades internas e ao carinho de Dona Lovett, fabricante de tortas sabor chorume que arranca de Andrezza Massei uma apoteose de carisma e de talento.

Dennis Pinheiro é um dos achados do elenco

Lançado em 1979, com Len Cariou e Angela Lansbury nos papéis centrais, o musical finca raiz em libreto de Hugh Wheeler (1912-1987) centrado na transformação do pacato barbeiro Benjamin Barker num ferrabrás de navalha afiada, à força do trauma perpetrado pelo Juiz Turpin, que lhe rouba mulher e filha. Depois de anos de claustro e de isolamento, Barker volta, numa versão carniçal, com o nome de Sweeney Todd. Mas o contato com o jovem marinheiro Anthony (vivido na peça pelo colossal Dennis Pinheiro, de “Fantasma Neon”, melhor curta em Locarno em 2021), leva Todd a descobrir que sua filhota, Johanna (a ave canora Caru Truzzi), está viva, mas confinada nas garras de Turpin. Este é encarnado majestosamente no Brasil por Guilherme Sant’Annaa.
O que se vê no Santander é um mergulho no enredo soturno de Wheeler, musicado por Sondheim, sem as amarras góticas que a versão para as telas dirigidas por Tim Burton, em 2007 deixou. É uma leitura livre – e brasileiríssima – que leva Lombardi a um outro patamar nas investigações de seu vigor criativo como ator.

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