Um ‘Redemoinho’ chamado George Moura

Um ‘Redemoinho’ chamado George Moura

Rodrigo Fonseca

10 de abril de 2021 | 15h23

George Moura (de óculos) conversa com o diretor José Luiz Villamarim nas filmagens de “Redemoinho”, que estra neste domingo para a grade da www.mubi.com

RODRIGO FONSECA
Rodrigueando na televisão, num projeto pra Globo inspirado na obra do autor de “Bonitinha, Mas Ordinária”, o pernambucano George Moura, um dos roteiristas mais disputados do país, já tem data para lançar “Onde Está Meu Coração” – original Globoplay sobre uma médica (Letícia Colin) acossada pela dependência química – depois de uma elogiosa passagem da trama pela Berlinale Series, na Alemanha: maio é a estreia. Neste domingo, outra narrativa assinada por ele vai entrar na streaminguesfera: o longa-metragem “Redemoinho”, ganhador do Prêmio Especial do Júri no Festival do Rio em 2016. Baseado no universo literário de Luiz Ruffato (“Eles Eram Muito Cavalos”), de prosa com a saga “Inferno Provisório”, o drama pilotado pelo cineasta estreante José Luiz Villamarim (jovem nas telonas, mas cascudo na telinha, onde dirigiu sucessos como “Amores Roubados” e “Avenida Brasil”) conquistou os prêmios de Melhor Filme e Melhor Direção na seara dos títulos de ficção do FESTin 2018: Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa. Berço de Humberto Mauro (1897-1983), o pioneiro da brasilidade nas telas do cinema verde e amarelo, a cidade mineira de Cataguases, arena poética de invenção de uma identidade nacional, torna-se palco para a transcendência e para a busca de novos rumos narrativos para o cinema com esse mergulho em Ruffato, sob a direção de Villamarim, com roteiro de George e fotografia de Walter Carvalho. Teve sessão dele ainda na mostra Ópera Prima do Festival de Havana, em Cuba. Na trama, dois amigos de infância, Luzimar (Irandhir Santos) e Gildo (Júlio Andrade, melhor ator na Première Brasil 2016) tomaram rumos opostos, mas se reencontram na véspera do Natal para um papo regado a cerveja, salaminho picado, fel da memória e chorume do rancor. Em paralelo, uma série de mulheres que cruzam a vida de ambas (vividas por Dira Paes, Cássia Kis, Cyria Coentro e Camila Amado) têm suas rotinas observadas pelas lentes de Villamarim, nesta produção de Vânia Catani. Na conversa a seguir, Moura fala essa imersão em MG e na dobradinha com Villamarim.

Dona Marta (Cássia Kiss) testemunha o abraço entre Gildo (Júlio Andrade) e Luzimar (Irandhir Santos)

Que Brasil reside nas Gerais de Ruffato e o quanto ele revela sobre a natureza da cordialidade, das paixões e das brutalidades do povo brasileiro?
George Moura:
O Brasil nas Gerais do Ruffato é um espaço vivo e rico onde a cordialidade, as paixões e as brutalidades são menos dissimuladas. No filme “Redemoinho”, há um retrato da classe operária, um acerto de contas com o passado e um embate sobre as nossas escolhas. Luzimar e Gildo são tão reais quantos os nossos amigos de infância, eles trafegam nas contradições de um lado do país, que é pouco visitado pela dramaturgia e ainda bem menos pelo audiovisual. Não que a cidade de Cataguases, interior de Minas Gerais, onde foi rodado o filme, tenha alguma particularidade inexistente em outras latitudes do país. Mas é o jeito como Ruffato descreve a história e seus personagens que nos leva a uma dimensão mais profunda das, aparentes, vidas comuns.
Como funciona a sua construção de diálogo numa narrativa que se debruça explicitamente sobre um universo geográfico específico, distinto do RJ, onde vive, e distinto do Recife? Como essa escrita se processa quando envolve parceiros como Dira Paes, Julio Andrade e Irandhir Santos?
George Moura:
A prosódia, sem a caricatura do regional, é um desafio, mas é também o aspecto menos difícil da construção do diálogo. Fazer diálogo, no cinema, é uma ciência exata repleta de subjetividade. É necessário ser preciso e salpicar as conversas com uma prosódia que não seja apenas a cópia do real e nem tenha os excessos formais de certa literatura. Para mim, o mais desafiante é encontrar a lógica de cada um dos personagens e como eles devem agir dentro daquela história. Ter Dira, Júlio, Irandhir, Cássia Kiss é um luxo. Parece que tudo o que você escreve se torna mais crível quando dito por eles na justa emoção.

Quais são os planos para “A Casa Assassinada”, que deve reunir você e Villamarim de novo?
George Moura:
Eu e Villamarim estamos com a parceria em suspenso… Ele está exercendo um cargo executivo na Rede Globo, o que o impossibilita de dirigir. Já tenho uma versão bem madura do roteiro de “A Casa Assassinada”, que foi a adaptação mais difícil que fiz até aqui. Quando será feito? A resposta está com o tempo…
Como segue “Onde Está Meu Coração” no cronograma de TV e Globoplay? Como você avalia esse projeto nas suas reflexões sobre Brasil?
George Moura:
“Onde Está Meu Coração” estreia no início de maio na TV aberta e no GloboPlay. Na Globo, será exibido o primeiro capítulo na “Tela Quente”, na segunda-feira, dia 3 de maio. No GloboPlay, ele estará no dia seguinte, disponível em dez capítulos. Num Brasil doente como o nosso neste momento, a série traz uma reflexão sobre a família e um tema tabu, que é a dependência química. Letícia Colin, Fábio Assunção, Mariana Lima, Daniel Oliveira, Camila Mardila, e grande elenco, fazem um mergulho emocionante e delicado numa história que… esperamos… toque o coração das pessoas e, sobretudo, traga esperanças neste momento tão difícil. “Onde Está Meu Coração” é um drama familiar e não uma série sobre drogas. E ela experimenta uma abordagem que mostra a dependência química como uma questão de saúde e não de polícia.

p.s.: Falando em MUBI, ela lançou um dos melhores filmes de Wim Wenders nos últimos 20 anos: “Imagens de Palermo” (“Palermo Shooting”, 2008), com Dennis Hopper no papel da Morte, em uma trama concebida pelo diretor alemão em homenagem a Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni, ambos mortos em 2007. Na trama, um fotógrafo conceituado (o cantor Campino), assolado por visões fantasmagóricas, encontra um amor (Giovanna Mezzogiorno) em uma visita à Itália, a trabalho. Franz Lustig assina a direção de fotografia, responsável por uma luz estonteante.

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