Um país sem maravilhas para Alices: peça de Leo Gama fala de intolerância

Um país sem maravilhas para Alices: peça de Leo Gama fala de intolerância

Rodrigo Fonseca

13 Maio 2017 | 15h16

Mitzi Evelyn e Carolina Stofella encarnam as muitas Alices do Brasil em peça dirigida por Leo Gama, com base em um texto de Jarbas Capusso Filho (fotos de Lolla Rosa)

RODRIGO FONSECA
Tem cheiro de Persona, num sopro de Bergman, nos ventos que anunciam a passagem de um dos mais talentosos produtores de elenco do país, Leo Gama, à direção de teatro, numa história sobre mulheres, sobre vazios e sobre a certeza de que há sempre duas solidões que se aguardam. Gerente artístico de pesquisa de criadores na Rede Globo, Gama é o piloto de Alices, um texto de Jarbas Capusso Filho, que estreia no Rio no dia 16 de maio, às 21h, no Teatro Leblon (sala Marília Pêra), com as atrizes Mitzi Evelyn (idealizadora do projeto) e Carolina Stofella. Em cartaz até 28 de junho, sempre às terças e às quartas, a peça faz um inventário de cicatrizes a partir do encontro entre um par de moças com memórias dolorosas sobre intolerância, violência e impunidade. É uma reflexão sobre o “Basta!” que reside em muita garganta.
Com 30 anos de experiência na TV, Gama – que buscou atores para novelas de sucesso como o remake de Anjo Mau e minisséries como Os Maias e A Pedra do Reino – põe em cena uma abordagem de especiarias existenciais sobre brutalidades nossas de todo dia. Com a palavra, o diretor:

O que existe de universal, seja de feminino, seja de masculino, nas tuas Alices? O que elas formam, juntas, no palco?
Gama: Alices conta a história de duas mulheres que poderiam ser uma só. Mulheres assassinadas por seus parceiros, elas se encontram em um não-lugar, em um não-tempo e discutem coisas do tipo “será que alguém nasce assassino?”; “Será que alguém merece morrer ?”; “Por que ninguém ouve os gritos de socorro?”. São questões que estão para além do universo feminino ou masculino, são questões humanas, simplesmente.

Depois de anos produzindo elencos para a TV, trocando com autores e atores, como é dirigir suas “Alices”? O que você leva para a cena de sua experiência de corpo a corpo com atores?
Gama: São 30 anos dedicados à TV. A maior parte dele foi dedicada ao trabalho de apresentar o trabalho dos atores. Um trabalho que sempre fiz com muito prazer. Posso dizer que, para quem não fez formação em artes cênicas, esta foi a minha escola. E, claro, aprendi muito com a observação dos diretores com quem trabalhei. No dia a dia com o atores, eu fui aprendendo a preservar a identidade de cada um, para que fossem apresentados com singularidade e, acima de tudo, verdade na comunicação.

Qual é o lugar da solidão neste texto, entre as duas Alices?
Gama: A solidão é quase uma condição humana, né? É um estado que ninguém quer, mas talvez uma das maiores identificações entre nós. E, talvez, nessa identificação é onde, talvez, possamos concluir que não estamos sós assim. Muitas vezes, nós nos unimos aos outros através de sentimentos extremamente particulares, que pensamos ser só nossos e, de repente, está lá alguém com questões tão próximas. É isso o que acontece com as Alices.