Um Oscar para Stallone é um Oscar para a condição masculina

Um Oscar para Stallone é um Oscar para a condição masculina

Rodrigo Fonseca

28 de fevereiro de 2016 | 12h24

Creed Stallone Difficult Men

Neste domingo de Oscar, quando o nome de Sylvester Gardenzio Stallone for citado entre os cinco concorrentes ao Oscar de melhor ator coadjuvante, por seu comovente desempenho em Creed – Nascido para Lutar, o que estará em jogo não é apenas uma carreira das mais rentáveis que Hollywood já viu brilhar e tampouco apenas a tradição do cinema de ação. O que está em jogo, diante do fato de a figura de Rocky Balboa poder garantir uma estatueta a um intérprete celebrizado nas trilhas da violência, é a própria representação do Masculino, do homem heterossexual educado sob a lógica (hoje repudiada) da afirmação do ethos da hombridade. Vivemos a era dos difficult men, conceito nascido na televisão, com A Família Soprano, Mad Men e Breaking Bad, numa percepção divinatória do crepúsculo dos machos, no descrédito da figura do pai provedor, do gladiador, do caubói. Se Stallone ganhar hoje, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas estará cometendo uma transgressão, ao sair na contramão da tendência atual de celebrar o emasculamento, de esvaziar a imagem do “macho ocidental”, de trucidar a ideia de que “um homem tem que fazer o que um homem tem que fazer”, ou seja, a retidão inerente à masculinidade. É sobre ela que fala o livro The Ultimate Stallone Reader – Sylvester Stallone as Star, Icon, Auteur, organizado pelo professor Chris Holmlund, da Universidade do Tennessee, com o apoio de um corpo docente de teóricos das maiores faculdades dos EUA.

13 Sly The Ultimate Stallone Reader

Obrigatório como reflexão sobre a evolução comportamental dos gêneros, a partir do audiovisual, o livro, publicado pela Wallflower Press, começa com um mapeamento dos bilhões que Stallone rendeu para os estúdios americanos, seja em fenômenos como a franquia Rocky quanto em produções de menor rentabilidade (mas marcadas pela adoração popular) como Falcão, o Campeão dos Campeões. Orçado em US$ 35 milhões, Creed arrecadou US$ 172 milhões na venda de ingressos. Na comparação com os demais astros de ação, Holmlund mostra que, diferentemente de Schwarzenegger ou Bruce Willis, que apenas atuam, Sly sobressaiu-se em outros terrenos, produzindo, escrevendo e dirigindo. Os professores apontam o fato de que foram raríssimos os atores, em toda a História do Cinema, que conseguiram emplacar DOIS personagens icônicos e míticos, como Stallone conseguiu com Balboa e Rambo.

Coogler Creed Treze

Mas, das estatísticas, eles passam para um ensaio mais filosófico sobre o fato de Sly ser uma espécie de guardião de uma cultura hoje fossilizada: a cultura dos heróis que se imolavam em autossacrifício em prol do Outro. Stallone é o fóssil de uma era em que os homens não eram medidos pela sua impotência e sim pela vontade de potência e pela força de arriscar. Mesmo envelhecido e abalado por uma doença em Creed, Rocky ainda percebe que a única maneira de preservar para si um lugar no mundo é pela perseverança, pela tentativa, pelo sangue. A História mudou a condição do Homem. Mas o gongo ainda não soou.

Boa sorte hoje, Stallone, você a quem eu devo tanto, que, em 1987, durante uma reprise de Rocky II – A Revanche na TV, fez com que eu amasse os filmes. Torcendo para poder te aplaudir ainda mais esta noite.

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