Um Johnny Depp a ser recordado e aplaudido

Um Johnny Depp a ser recordado e aplaudido

Rodrigo Fonseca

12 Janeiro 2017 | 15h12

“Aliança do Crime”: US$ 99 milhões nas bilheterias mundiais

RODRIGO FONSECA
Muita gente que deveria estar indicada aos mais badalados prêmios do cinema, que antecedem o Oscar, sequer foi lembrada, vide Liam Neeson, por Silêncio, ou Dave Johns pelo soberbo Eu, Daniel Blake e mesmo a nossa Sonia Braga, por Aquarius. Mas nesta época do ano a gente sempre se recorda de grandes atuações que mereciam ser contempladas com estatuetas e não foram. Uma delas, que anda agora onipresente na TV a cabo, é a majestosa interpretação de Johnny Depp em Aliança do Crime (Black Mass), que a HBO exibe no próximo dia 17, às 18h25.

Íntimo das narrativas de crime desde os anos 1980, quando integrava Os Anjos da Lei da Polícia, no patrulhamento do submundo televisivo, John Christopher Depp II teve sua estrela de boa sorte roubada em 2007 quando emplacou seu último fenômeno popular: o terceiro tomo da franquia “Piratas do Caribe”. Desde então, sobrou-lhe um mar de fracassos e a perda da reputação como ator-autor que lhe valeu três indicações ao Oscar. Mas o muso de Tim Burton não se acomodou na derrota e buscou novos ventos – os do realismo – revivendo um contraventor lendário em Aliança do Crime, uma produção de US$ 53 milhões que saiu aclamada de sua projeção hors-concours no Festival de Veneza de 2015 e arrecadou cerca de US$ 99 milhões, valendo a seu protagonista os maiores elogios de sua carreira recente.

É antiga a ligação de Depp com a máfia na representação de figuras acossadas pelo crime organizado. Embora pouco lembrado, apesar de ter sido chamado de “‘O Poderoso Chefão’ dos anos 1990” à sua época, Donnie Brasco (1997), de Mike Newell, colocou o eterno Edward Mãos-de-Tesoura nos calcanhares de mafiosos ítalo-americanos, num resgate da estética social policial da década de 1970. Por isso não surpreende a facilidade com que um ator como ele – tão chegado a caracterizações que desfiguram sua imagem com perucas, maquiagens e olhos coloridos – se encaixa na figura do criminoso James Whitey Bulger, ferrabrás de Boston. Há um amálgama de almas entre Depp e Bulger, compondo, na simbiose, um vilão como raras vezes se viu no cinema. Não se trata de uma reconstituição sociológica de um contraventor do mundo real e sim o usou de memórias reais da literatura jornalística policialesca para, a partir delas, o astro construir, em parceria com o diretor Scott Cooper, um ensaio sobre a Maldade e seus pactos com o Poder institucional.

Mais do que uma apoteose para o talento de Depp, Aliança do Crime é um filme de máfia que cumpre a cartilha do gênero indo além dela, desapegado dos cacoetes audiovisuais de montagem da referência padrão: Os Bons Companheiros (1990). Essa é uma libertação seminal, sabendo-se que o cult estrelado por Ray Liotta, De Niro e Joe Pesci foi copiado à exaustão nos últimos 25 anos, tendo servido de matriz para filmes de igual valor como o brasileiríssimo Cidade de Deus (2002). Cooper não quer filmar (e sobretudo não quer montar) à moda deste seminal Scorsese. Ele quer ir mais fundo no baú do cinema, dialogando com filmes de maior rusticidade, sobretudo Horas de Desespero (1955), de William Wyler, e fazer um tratado sobre o Mal e sua implacabilidade. A ambição de filosofar é fortificada por uma montagem que valoriza diálogos e ações sem saídas bruscas, sem pressa. Ele quer fazer pensar e quer fazer a dor se fazer sentida, doída. Resultado: um dos melhores filmes de 2015.

Celebrizado nos anos 1990 como sendo um ator avesso às armadilhas inerentes a galãs, afeito a parcerias com diretores autorais como Jim Jarmusch (Dead Man), Emir Kusturica (Arizona Dream) e sua alma gêmea Tim Burton (Ed Wood), Depp mudou de estratégia nos anos 2000 e flertou com o fascínio dos milhões. Virou Jack Sparrow, o bucaneiro de trejeitos afeminados da série “Piratas do Caribe” e se acomodou ali. Pouco transgrediu. Pouco ousou, fora cantar – e muito bem – como o barbeiro da Rua Fleet em Sweeney Todd (2007). Mas o tempo foi passando, a idade chegando e o dinheiro sumindo (e os fãs também). Era hora de reinvenção. Bulger representou isso. E Depp agarrou o papel com uma fome de quem não se alimenta (de aplauso) há anos. E seu empenho anima Scott Cooper a se tornar um cineasta de maior arrojo e maior risco, indo além da convencionalidade de seu Coração Louco (2009) e comunicando melhor do que o devastador Tudo por Justiça  (2014).