‘Um Inverno em Nova York’ e o Verão de Fellini

‘Um Inverno em Nova York’ e o Verão de Fellini

Rodrigo Fonseca

29 de dezembro de 2020 | 10h29

RODRIGO FONSECA
Numa dica quente da Eloisa Lopez-Gomez via Facebook, o P de Pop descobre que a deliciosa dramédia “The Kindness of Strangers”, da dinamarquesa Lone Scherfig (“Um dia”), chegou às plataformas digitais no Brasil, com o título (muito bem escolhido) “Um Inverno em Nova York”. Exemplar de luxo da linhagem recente de longas-metragens que tremulam a bandeira da caridade e da coligação entre povos, esta produção abriu o Festival de Berlim de 2019, sob elogios para seu elenco estelar e sua equilibrada mistura de melodrama e humor. Eloisa deu o caminho das pedras, o Filmelier.Com, e ali dá para encontrar esta pepita em muitas frentes: Apple TV (iTunes), Now, YouTube, Vivo Play, Sky Play, Google Play. Também via Facebook, este blog foi informado de um livro cinéfilo precioso, “Para Fellini, Com Amor”, sobre o qual a gente fala já, já. O aviso dessa revisão sentimental do legado do realizador de “Amarcord” (1973) chegou aqui ao Estadão como uma prova da tal “kindness” de que fala Lone, em seu filme.
“Celebrar as conexões possíveis me parece uma saída para usar o cinema como uma alternativa ao desamparo dos nossos tempos. Este filme é sobre conexões, mesmo as mais inusitadas, diante da democrática percepção da dor e de vazio que sentimos, muitas vezes”, disse Lone ao Estadão, durante a Berlinale, há um ano.

Embora marcado por um multiprotagonismo, “Um Inverno em Nova York” (“The Kindness of Strangers”) dá um maior destaque para Zoe Kazan, a sensação da minissérie da HBO “The Plot Against America”. É dela o papel de Clara, uma mãe de família às voltas com uma relação abusiva. No início de fevereiro, o longa estreou nos Estados Unidos, atrás de holofotes hollywoodianos. Mas muito tempo se passou desde sua primeira projeção, que voltou a ser comentada por conta das sensações da última Berlinale, que deu o Urso de Ouro ao Irã, ao consagrar “There Is No Evil” (“Não Há Mal Algum”). Em 2019, Lone fez o que esteve a seu alcance para abrilhantar o Berlinale Palast com sua história de tônus romântico sobre o quão é bom ser caridoso em mundo faminto de generosidades. Seu elenco junta jovens como Tahar Rahim (de “O profeta”) a veteranos como Bill Nighy (de “Simplesmente amor”). Fazendo da doçura e da comunhão suas bandeiras, sem resvalar em um discurso de “autoajuda”, o mais recente longa-metragem da diretora de “Italiano para principiantes” (2000) faz jus a uma premissa de esperança.
“São pedaços de afeto, reunidos num emaranhado de vivências distintas. Infelizmente, viver é saber perder, mas também é saber encontrar beleza nos gestos simples, nos sorrisos inesperados. O meu desafio cinematográfico era encontrar harmonia para embalar essa narrativa cheia de reviravoltas na tradição do melodrama sem incorrer em excessos. São muitas perspectivas a serem seguidas. Precisava encontrar um norte a partir da experiência de Clara”, disse Lone a Berlim. “Cada personagem aqui carrega uma dor, só que algumas estão inflamadas. Outras são cicatrizes”.

Pontuado por risos em meio a um rosário de lágrimas, “The Kindness of Strangers” permite que Zoe Kazan brilhe como protagonista. Também roteirista, a atriz americana é neta do mítico cineasta Elia Kazan (1909-2003), realizador de “Sindicato de Ladrões” (1954). “O meu núcleo nesta trama é o da microfísica do poder conjugal, com todos os abusos que podem marcar um casamento, num desequilíbrio de respeito”, disse Zoe na Berlinale. “Lone me preparou bem nos primeiros dias, para responder da melhor forma à movimentação de câmera”.
Na trama, Clara, sua personagem, é uma uma mãe de dois meninos que foge do marido, um policial violento. Em meio ao inverno nova-iorquino, ela encontra amparo no gerente de um fino restaurante russo (papel de Rahim) e no dono do estabelecimento, vivido por Nighy com seu habitual deboche à moda inglesa. Também há de contar com o altruísmo de uma enfermeira cansada do batente (Andrea Riseborough, em afinada atuação). “Maniqueísmos foram evitados aqui. Não quis fazer um tratado político sobre o Bem. A ideia aqui é retratar gestos que, embora pareçam pequenos, fazem muita diferença”, diz Lone. “Somos bombardeados diariamente pela desatenção. Aqui, as pessoas sabem olhar o próximo. Ou tentam”.

Chegou a hora de fellinear:
Merece um Oscar editorial o trabalho de ouriversaria cinéfila feito por Mariza Gualano e Roberta Maya em “Para Fellini, Com Amor”, lançado pela Showtime. Se você ainda tem presentes tardios de Natal pra comprar, eis uma dica boa. Vai lá na URL www.shotimebooks.com para chegar a esse delicadíssimo estudo da obra do sujeito que dizia: “Assim como toda pérola é a autobiografia da ostra, todo filme é a autobiografia de seu realizador”. No livro, Mariza revisita sequências filmadas por Federico Fellini (1920–1993) num périplo de 40 anos pelos sets, de “Mulher e Luzes” (1950) até “A Voz da Lua” (1990). É um resgate afetivo dos momentos mais marcantes de seus longas-metragens, acompanhados pelas ilustrações de Roberta, que combinam cores num jogo sinestésico.

A ilustração de “Toby Dammit”, segmento de “Histórias Extraordinárias” (1968), com Terence Stamp, e a de “A Doce Vida” (Palma de Ouro de 1960) mereciam estar expostas em galerias de arte. Livraço. Roberta ilustrou “Zobrosinha” (Record), para Bruna Beber. Já Mariza é autora do imperdível “Ouvir Estrelas – As Melhores Frases e Diálogos do Cinema” (Garamond).

p.s.: No fim de janeiro, as Casas Casadas, em Laranjeiros, no RJ, onde funciona a Riofilme, será inaugurada a BIBLIOTECA DE CINEMA MARIALVA MONTEIRO, com livros, catálogos e revistas de cinema, totalmente grátis para consulta e empréstimo. Há 50 anos, Marialva batalha pela educação através do cinema com o projeto Cineduc. Quem quiser colaborar e doar livros, poderá deixar na CAVIDEO (de Humaitá e Laranjeiras). Quem for de outro estado, pode enviar os mimos para Rua das Laranjeiras 457 – 605 – Bloco B – CEP: 22240-005. Todos doadores terão seus nomes numa placa de agradecimento a ser instalada no local.

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