‘Um Homem Só’: fina dramaturgia sci-fi

‘Um Homem Só’: fina dramaturgia sci-fi

Rodrigo Fonseca

24 de março de 2020 | 11h10

Rodrigo Fonseca
Roteirista de tarimba, com filmes como o brilhante “O Gorila” (2012) no currículo e passagem por séries como “A Diarista” e “A Grande Família”, Cláudia Jouvin estreou na direção de longas no Festival de Gramado de 2015, com uma mistura única (ao menos no cinema brasileiro) de romance, sci-fi e reflexão existencialista, com ecos de “O Feitiço do Tempo” (1993) e pérolas similares do cinemão fantástico. Seu “Um Homem Só” é um ensaio sobre as desatenções que a gente comete ora por notar de menos, ora por notar a gente mesmo em demasia, sem levar o peito alheio a sério. Essa combinação vai ganhar a grade do Canal Brasil nesta quarta-feira, dia 25, às 22h30. À época de Gramado, a produção surpreendeu a Serra Gaúcha por sua plasticidade visual, num diálogo (indireto) com a tradição do pop (HQs, animação), e pela atuação inflamável de Mariana Ximenes. É uma atuação que coroa uma trajetória na qual desfilam gemas como “O Invasor” (2001) e “Quincas Berro D’Água” (2010). Com os cabelos ruivos, sem sobrancelhas, Ximenes botou o evento do Rio Grande do Sul no bolso ao compor uma figura romântica entre a esquisitice e a carência, com um pé em “(500) Dias Com Ela” (2009) e outro em “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” (2004). Não por acaso, saiu dele com o merecidíssimo Kikito de Melhor Atriz. Teve ainda troféu para a fotografia de Adrian Teijido e para o brilho de Otávio Müller como coadjuvante.

Responsável pelo curta de animação “Velha História” (2004), La Jouvin narra aqui a história de um sujeito fracassado no trabalho e na vida, Arnaldo (Vladimir Brichta, com uma melancolia saborosa em seu olhar). Seu casamento com Aline (Ingrid Guimarães) vive num ponto morto sem esperança de ressurreição. Sem qualquer perspectiva de alegria em seu cotidiano afogado em cerveja, ócio e frustração afetiva, Arnaldo descobre uma empresa que cria duplos das pessoas e aceita ser clonado, a fim de levar uma rotina mais suave. Mas, no momento em que sua cópia “fica pronta”, candidatando-se a ajeitar seu dia a dia, ele se apaixona descabeladamente por Josie, uma jovem funcionária de um cemitério de animais, vivida por Ximenes numa agilidade digna das atrizes do cinema dos anos 1920. É Louise Brooks na veia, abrindo a Caixa de Pandora de um ferramental cênico vasto. Na direção de arte de Joana Mureb e Claudio Amaral Peixoto, o filme aposta uma profusão cores (e num detalhismo milimétrico) criando uma atmosfera de excessos que alimenta o clima nonsense da narrativa, com um roteiro calculadamente rocambolesco.

No papel de um abilolado amigo e colega de trabalho de Arnaldo, Müller evoca Dom DeLuise (em seus dias de Mel Brooks) em cena. Ele ajuda “Um Homem Só” a alcançar uma vitória preciosa. Qual? Bom, neste momento no qual o cinema brasileiro tenta apostar em outros gêneros, em especial daqueles nas raias da fantasia, Claudia Jouvin aproximou nosso audiovisual da tradição da ficção científica. E é uma aproximação pela base da inteligência e do necessário debate da solidão e suas sequelas.

Vai ter repeteco de “Um Homem Só” neste sábado, 28/03, às 21h40; no domingo, 29/03, às 20h; e na próxima terça, 31/03, às 11h30.

Vendo Brichta em cena, sob a direção de CJouvin, dividindo-se em duas figuras de temperamento distinto, é uma obrigação reconhecer o momento de apogeu profissional por que ele passa, com destaque para “Bingo: O Rei das Manhãs” (2017) e a novela “Rock Story” (2016). Mas pra quem teve a chance de ver o ator vivendo (brilhantemente) Augusto Matraga no teatro não se surpreende com sua curva evolutiva. Agora só falta ele assumir seu devir Paul Newman e levar “O Veredicto” (1982), a partir do texto de Barry Reed, aos palcos.

p.s.: Tem Jackass na Globo esta madrugada: à 1h15, a emissora carioca exibe “Vovô Sem Vergonha” (2013), com Johnny Knoxville no papel de um idoso doidão que leva seu neto para uma série de aventuras desmioladas.

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