Um filme B (de bom): ‘Deuses do Egito’

Um filme B (de bom): ‘Deuses do Egito’

Rodrigo Fonseca

27 de fevereiro de 2016 | 01h39

Deuses e mortais encaram a Esfinge

Deuses e mortais encaram a Esfinge no longa de Alex Proyas

Cafona em seu parentesco visual com a tradição do Peplum, filão derivado do gênero épico caracterizado por gladiadores e seres mitológicos, Deuses do Egito (Gods of Egypt), superprodução de US$ 140 milhões rodada em Sydney, patina nas bordas do precipício por conta de sua estética de carro alegórico, numa carnavalização padrão Beija-Flor de Nilópolis da terra dos faraós. Patina, mas se segura firma na estalactite da surpresa, pois há algo de irresistível – e de transcendente – neste 300 às margens do Rio Nilo, com Gerard Butler no papel de um vilão capaz de gargarejar maldade. Ele está em cartaz desde quinta-feira. E esse seu fator surpresa vem da direção, contagiada de autoralidade. Titular de uma filmografia minúscula em quantidade, mas gigante em qualidade e arrecadação nas bilheterias, construída ao longo de uma trajetória profissional de 36 anos, o australiano de origem egípcia Alex Proyas cerziu uma linha autoral em seus longas-metragens dialogando com a ideia de renascimento, de personagens em rota de reinvenção física e espiritual no trânsito entre mundos. No mundo dos mortos ele buscou matéria-prima para criar um cult, O Corvo (1994). E é para lá que ele volta neste fliperama no pretérito perfeito.

O ladino Bek e sua amada Zaya

O ladino Bek e sua amada Zaya

Veículo para exportar o escandinavo Nikolaj Coster-Waldau da TV – terreno onde ele reina como o Jamie Lannister de Game of Thrones – para a telona, Deuses do Egito é uma micareta de efeitos especiais e cenas de luta gourmetizadas por câmera lenta ou acelerações digitais. Mas a conversa que Proyas trava com a cartilha da animação dá aos planos uma vitalidade inesperada, a partir de um perfume nostálgico capaz de evocar os desenhos animados da Hanna Barbera, em especial O Homem-Pássaro e Galaxy Trio. Essa evocação se fortalece com o desempenho de Coster-Waldau como um herói improvável, imperfeito: o deus alado Hórus.

Nikolaj Coster-Waldau num jogo de tronos ainda mais perigoso do que o da HBO

Nikolaj Coster-Waldau num jogo de tronos ainda mais perigoso do que o da HBO na pele do deus Hórus

Há uma divisão de protagonismo entre ele e o ladino Bek (Brenton Thwaites, ótimo), um mortal que se enfia na aristocracia do Panteão do Egito para roubar mimos para sua namorada, Zaya (Courtney Eaton). Eles são testemunhas da insurreição cometida pelo deus Seth (Butler) no ato da coroação de seu sobrinho, Hórus. Ao usurpar para si o Poder, Seth sobrepuja as demais divindades, roubando os olhos de Hórus. Ele faz de seu país uma ditadura, condenando mortais e perpétuos à escravidão. Mas depois que Zaya é assassinada, Zek rouba um dos olhos de Hórus e saia à cata deste para fazer um pacto: ele vai ajudá-lo a derrotar Seth em troca de uma ajuda para salvar Zaya do Além.

gods-of-egypt-poster-set-gerard-butler Deuses do Egito

Numa narrativa quase ingênua, nos moldes do que fez no fenômeno popular Eu, Robô (2004), Proyas faz tráfego da lírica épica (constitutiva de mundos, em tom de saga) para a aventura, buscando indivíduos de onde só esperar-se-iam arquétipos. Seus deuses são gente, ora gente fina como Hórus, ora gente ruim como Seth, mas todos são falíveis, vaidosos, pecaminosos, infantis. O menino de carne e osso é o que há de mais divino: Bek não se deixa intimidar por sua finitude anunciada: o amor serve a ele como um combustível renovável. E, em sua perseverança inabalável, a plateia vai junto, perdoando o excesso de adereços e purpurina, e embarcando numa montanha-russa que diverte e ainda deixa uma reflexão sobre humildade. Não é um filme da altura de um Cidade das Sombras (1998), alegoria metafísica sobre a nossa perda de identidade gradual na virtualidade. Mas agrada. E provoca.

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