Um balanço do que Berlim viu de melhor até aqui

Um balanço do que Berlim viu de melhor até aqui

Rodrigo Fonseca

18 de fevereiro de 2016 | 10h03

Thomas Vinterberg deu ao Festival de Berlim seu filme mais aplaudido e mais emocionante:

O dinamarquês Thomas Vinterberg deu ao Festival de Berlim seu filme mais aplaudido e + emocionante: “The Commune”

Faltam dois dias para o anúncio dos vencedores do Urso de Ouro e dos demais prêmios concedidos pelo Festival de Berlim, que, com seu cardápio de 434 títulos de curta e de longa e até longuíssima-metragem (se contarmos os 482 minutos de A Lullaby to the Sorrowful Mystery, do filipino Lav Diaz), fez algumas apostas temáticas e narrativas de alta voltagem política em fios desencapados de propósito. Como o resultado sai neste sábado e só faltam dois concorrentes da seleção principal – o iraniano A Dragon Arrives!, de Mani Haghighi, e o polonês United States of Love, de Tomas Wasilewski – do evento, já é possível arriscar uma análise parcial de uma Berlinale concentrada em reflexões sobre conciliações possíveis, partindo, em primeiro plano, de uma discussão sobre as mazelas dos refugiados, da Líbia, da Síria e de onde mais for. Não por acaso, “o” favorito à láurea máxima do certame é um documentário sobre uma ilha da Itália que serve de porto para expatriados da África: o poema.doc Fuocoammare, rodado por Gianfranco Rosi no Mediterrâneo. Sua vitória se justifica não apenas por abordar um tema urgente, mas pela tônica poética de sua contextualização, com base nos mínimos gestos do povo de Lampedusa, em especial de um menino que enxerga um turbilhão geopolítico ao lado de sua casa, mas não entende o que se passa.

“Fuocoammare”, da Itália, segue sendo o favorito

Mas Rosi (laureado com o Leão de Ouro de Veneza em 2013 por Sacro GRA) é apenas um dos cineastas a transformar em pauta a proscrição. Em muitos filmes, ela alcançou parâmetros desesperançosos como se viu o amargo Death in Sarajevo, no qual o Danis Tanovic de Terra de Ninguém (2001) apresentou ao cinema uma estrutura de roteiro com fragrância de novidade, indo do passado ao presente da Bósnia, num salto de cem anos, sem jamais sair de um hotel decadente. Fez marxismo, fez estruturalismo, bebeu dos frankfurtianos e de teóricos catastrofistas como Jean Baudrillard para desvelar a transparência do Mal por sobre as ruínas morais e financeiras de uma nação que foi marco zero da I Guerra Mundial. Sua montagem febril aferra qualquer um à poltrona.

Michael Shannon e Kirsten Dunst em

Michael Shannon e Kirsten Dunst em “Middnight Special”

Igualmente descrente no levante da redenção é Soy Nero, o único concorrente da América Latina – e, ainda assim, filmado por diretor de DNA iraniano: Rafi Pitts – na peleja pelo Urso. Decepção se comparada aos longas anteriores do cineasta, em especial Separados pelo Inverno (2006), a produção de CEP mexicano tangencia a infantilidade em sua mirada caricata sobre a realidade dos Estados Unidos, ao expor os esforços de um jovem hispânico para virar militar em favor do Tio Sam. Ainda na linha “EUA: cansei”, houve alarmismo feito de maneira formalmente displicente por parte de Zero Days, falatório autoproclamado documentário do superestimado Alex Gibney, de olho em um vírus digital. Alarme por alarme, os USA fizeram melhor de dentro do ventre da indústria ao repensar sua falência atual em forma de fantasia com o vigoroso Midnight Special, de Jeff Nichols, um dos poucos filmes da competição com o poder (e a generosidade) de falar com todas os nichos de público, em sua roupagem sci-fi.

Foi bonito ver um festival da sisudez da Berlinale acolher com ardor um thriller de ficção científica, com ação padrão Stallone, tendo astros de prestígio como Michael Shannon e Kirsten Dunst às voltas com paranormalidade e atividades dignas de ficha no Arquivo X. Conhecido por O Abrigo (2011) e Amor Bandido (2012), Nichols lança Midnight Special neste fim de semana na Europa e nos EUA, consolidando-se como um dos mais promissores realizadores em operação nas franjas de Hollywood, capaz de conjugar na desinência da autoralidade todos os verbos da Zona Franca de Los Angeles, travando ainda diálogo com a tradição cinemanovista de Spielberg (via Contatos Imediatos do Terceiro Grau) e John Carpenter (via Starman). Seu filme mostra o quanto a cinefilia pode gerar inspiração para dramaturgias atuais.

Trine Dyrholm, a atriz de Vinterberg

Trine Dyrholm, a atriz de Vinterberg

Mais emocionante – talvez o mais emocionante de todo o evento até aqui – só há um título: The Commune, do dinamarquês Thomas Vinterberg, um dos pais do Dogma 95, redivivo desde A Caça (2012) e aqui adocicado por memórias de infância. Seu longa, o mais aplaudido de todos (merecidamente), condensa todos os valores de uma segunda linhagem da Berlinale 66: os filmes que confiam no amor como alternativa. E, no dele, a saída foi pela mais inquebrantável das formas de amar: a amizade, na reconstituição de uma moda dos anos 1970 na qual colegas de trabalho e de vida moravam juntos em casas coletivas. A sequência regada a Elton John, na qual todas as tristezas deste nosso insensato mundo parecem um videoclipe fora de época, exponenciou a qualidade do festival à enésima potência da beleza, na plasticidade e na dramaturgia. É cinema de bom diálogo, calçado por enquadramentos que se esforçam para sair do classicismo.

“Cartas de Guerra”: a melhor fotografia

Devastadoras também são as palavras trocadas por um casal separado pela distância e pela brutalidade em Cartas da Guerra, de Ivo M. Ferreira, concorrente de Portugal que flerta com a literatura de António Lobo Antunes. Fotografia alguma foi mais bonitas do que a sua ao registrar a Angola de 1971 num preto e branco que traduz a perspectiva monocromática dos combates armados – no caso, os conflitos coloniais lusos. Há, por aqui, quem prefira a fotografia do balão de gás chinês chamado Crosscurrent, de Yang Chao: uma súmula dos cacoetes esnobes de uma ala dita “inteligentinha” do cinema, que despreza música, goza com montagens descontínuas e assassina linearidade em prol de vaidades. A beleza do português ninguém bate e merece ser seu o prêmio de melhor contribuição artística. Detalhe: Cartas… nos mostra o quão talentoso é o ator Ricardo Pereira (conhecido de nossas telenovelas), num solo de arrebentar miocárdios.

Heroísmo possível:

Heroísmo possível:  Emma e Gleeson em”Alone in Berlin”

Na onda do amor, merece respeito um filme perfumado a naftalina chamado Alone in Berlim, dirigido pelo ator suíço Vincent Perez, ator de A Rainha Margot (1994). Num cenário de devastação ética – é assim que os europeus andam se representando –, um longa sobre dois heróis improváveis (para melhorar, eles são marido e mulher, ambos já cinquentões) trouxe alento para o festival. Em atuações imunes à ferrugem, Emma Thompson e Brendan Gleeson dão vida a história real de um casal de alemães que espalhou cartas pela Berlim da II Guerra difamando Hitler. Eles estão entre os favoritos para o prêmio de melhor interpretação. Brendan até agora não tem rival, embora haja uma torcida por Majd Mastoura, protagonista da insossa quase comédia romântica tunisiana Heidi. Não se pode descartar também a atuação do sempre brilhante Colin Firth, no papel do lendário editor de livros Max Perkins em Genius, no qual Jude Law tem uma atuação igualmente boa na pele do escritor Thomas Wolfe.

Julia Jentsch é a favorita da hora por

Leandra Leal da Alemanha, Julia Jentsch estrela “24 Weeks”

Já Emma tem pela frente Trina Dyrholm, estrela de The Commune, e o quindim de coco berlinense Julia Jentsch, a Leandra Leal da Alemanha, sublime à frente de 24 Semanas, de Anne Zohra Berrached. Este filme merecia mais prêmios, por seu olhar (sóbrio) sobre o aborto, com base no drama de uma comediante grávida de um bebê já fadado a nascer com doenças. Há, numa certa contramão, uma torcida da ala francófona por Isabelle Huppert, uma atriz magistral, mas que só faz mais de si mesmo no drama L’Avenir, de Mia Hansen-Love, sobre uma filósofa em crise.

Exigir oito horas de atenção não dilui a beleza de

Exigir oito horas de atenção não dilui a beleza de “A Lullaby to the Sorrowful Mystery”, do filipino Lav Diaz

Já o Prêmio Alfred Bauer, láurea voltada para experimentações narrativas que levem à narrativa cinematográfica a algum futuro possível deve (e merece) ir para A Lullaby to the Sorrowful Mystery, que virou piada por ter oito horas de duração. Ninguém acha estranho gastar dez horas vendo uma maratona de House of Cards no NetFlix. Mas ficar no cinema por mais de duas horas, por um mesmo filme, soa como se fosse o fim do mundo? Peraí… Tudo bem que este exercício metafísico sobre as lutas coloniais dos filipinos contra o jugo espanhol é teatral demais e fetichiza o uso da câmera parada e os planos longos em seu visual preto e branco. Mas, daqui para frente, quem quiser ter um lampejo de como a alma das Filipinas é precisa passar por este Lusíadas à oriental sobre busca por senso de pátria.

Takeshi Kitano estrela While women are sleeping

Takeshi Kitano estrela “While Women Are Sleeping”

Há de se lamentar que diante de bobagens como Boris sans Béatrice, do canadense Denis Côté (o pior filme do festival) e o geriátrico Quand On a 17 Ans, de André Téchiné, a curadoria da competição tenha jogado para mostras paralelas pepitas como While Women Are Sleeping, do sino-americano Wayne Wang, que põe o diretor japonês Takeshi Kitano para atuar num thriller erótico sobre um sexagenário de caso com uma lolita. Pena também não ter sobrado vaga na disputa pelo Urso para o thriller jurídico sul-africano Shepherds and Butchers, de Oliver Schmitz, que poderia fácil dar um prêmio de melhor ator a Steve Coogan (de Philomena) sobre um advogado em defesa de um carcereiro. Igual pena deva ser estendida à ausência em concurso do chileno Aqui No Pasado Nada, de Alejandro Fernández Almendras (de Matar a Um Hombre) no qual um pai revê sua relação com o filho playboy depois que este se envolve em um acidente que deixa mortos: e as vítimas, como se espera, são pobres.

Don Cheadle estrela e dirige

Don Cheadle estrela e dirige “Miles Ahead”

E como explicar deixar Miles Ahead, cinebiografia do jazzista Miles Davis, fora de concurso vendo a transformação radical que ela marca na carreira do (grande) ator Don Cheadle, em seu trânsito pela direção. É um futuro candidato a Oscars nato.

Naomi Nero é a revelação de

Naomi Nero é a revelação de “Mãe Só Há Uma”, o novo longa da diretora Anna Muylaert: mais radical na comparação com o sucesso “Que Horas Ela Volta?”

Do Brasil, a Berlinale ganhou de presente o nascimento de uma nova estrela: o ator Naomi Nero (sobrinho do protagonista da novela A Regra do Jogo) que entra no transe de gênero e de hormônios do fim da adolescência no trem-bala Mãe Só Há Uma, de Anna Muylaert. A diretora deu um passo à frente de Que Horas Ela Volta? em termos de enquadramento, tendo um Matheus Nachtergaele possuído pelos antigos espíritos do Mal da classe média a seu dispor. E, de quebra, nosso cinema mostrou a selva de Manaus de um ponto de vista novo (e necessário) com Antes o Tempo Não Acabava, de Fábio Baldo e Sérgio Andrade. E, no campo dos documentários, Curumim, de Marcos Prado, explorou a estética do trágico num cinema de investigação em queda de braço contra a pena de morte.

Michael Moore brilha de novo em

Michael Moore brilha de novo em “Where to Invade Next”, o filme mais divertido de 2016 até aqui

Na seara documental, vale ainda dizer que ela trouxe para a Berlinale o filme mais engraçado do ano até agora: Where to Invade Next, de Michael Moore. Agora, ele correr o planeta tentando “roubar” o melhor de países como a Finlândia, a Noruega e a Alemanha em termos de educação, sistema carcerário e política bancária, a fim de melhorar a vida nos EUA. Sua desilusão com sua pátria é enorme. Mas esta rende cenas antológicas que fazem a Berlinale repensar várias coisas, desde a queda do Império estadunidense até a dimensão plástica pop do real nas telas. Pensamentos como esse provam o quanto este festival pode ser útil para redefinir bases de ação com relação ao audiovisual e para dar novas tintas a um cinema que precisa da autoralidade para respirar.

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