‘Um amante francês’ de humor universal

‘Um amante francês’ de humor universal

Rodrigo Fonseca

26 de novembro de 2019 | 13h36

RODRIGO FONSECA
Sinônimo de ingressos esgotados no circuito exibidor francês, responsável por levar 11 milhões de espectadores ao circuito para conferir os três filmes da chanchada “Les Tuche” (2011-2018), o cineasta e ator Olivier Baroux surpreendeu as plateias de sua pátria – e de toda a Europa –, este ano, com uma divertida refilmagem de uma aula hollywoodiana de incorreção política: “How to be a latin lover” (2017). Ele adaptou o roteiro filmado por Ken Marino e estrelado por Eugenio Derbez, traduzido aqui com o título “Como se tornar um conquistador”, e fez dele uma comédia com uma malícia mais adequada à Côte d’Azur: “Um amante francês”. No original, o longa-metragem, que estreia aqui nesta quinta, chama-se “Just a gigolo”. Em seu lançamento no Velho Mundo, o faturamento da produção foi de 133 mil pagantes em três dias. Kad Merad (de “A Riviera não é aqui”) vive Alex, um garoto de programa 50tão que é despejado pela amante (já grisalha) responsável por seu sustento. Se ter para onde ir, ele vai buscar a ajuda de sua irmã (Anne Charrier) e passa a treinar seu sobrinho nas artes da sedução. Na entrevista a seguir, o realizador de “Entre amigos” (2015) e outros êxitos comerciais fala ao Estadão sobre a construção de um padrão de humor alheio ao politicamente correto.

Qual é a relação de Alex, o gigolô de seu filme, com a tradição dos grandes personagens de humor da comédia francesa, de Bovril ao Agente OSS 117, de Jean Dujardin, passando por personagens cômicas mais recentes? Quem é este homem, com cerca de 50 anos, que vive de seu “corpitcho”, apesar da decadência física?
Olivier Baroux:
Kad e eu sempre gostamos de personagens patéticos. No terreno dos anti-heróis do riso, falta humor a personagens sem qualquer falha moral ou conflito psicológico. Alex, nosso protagonista, pertence à tradição tragicômica francesa das figuras que gostamos de odiar no início da história e que amamos no fim, como eram os tipos vividos por Louis de Funès. Alex não tem consciência do que ele realmente se tornou. Ele virou um “flertador” patético, ficou preso nos arquétipos machistas dos anos 1980. Mas, apesar disso, quando se coça um pouco debaixo do couro da sua aparência de macho alfa, lembra que ainda é um ser humano. E é essa percepção o que o torna cativante.
Em que medida o filme com Eugenio Derbez – “Como se tornar um conquistador” – serve de base à construção dos diálogos e do retrato do comportamento sexual da França dos dias de hoje?
Olivier Baroux:
A referência do filme americano foi um presente para nós. Como o filme original já é muito engraçado, o nosso trabalho no roteiro consistiu em adaptar a história para a França e adaptar a trama ao nosso padrão de comédia. A Côte d’Azur me parecia ser o cenário perfeito para as aventuras de Alex. Introduzimos a amizade entre Alex e o Daniel, papel de Pascal Elbé, para reforçar a sua vingança e sua redenção no final da história. Algumas réplicas foram cortadas e a criação do Rei dos Gigolôs, interpretado por Thierry Lhermitte, faz parte das adições e liberdades criativas em relação ao cenário original. Os franceses têm, há muito tempo (embora não em sua maioria), um comportamento libertino.
Como é a sua parceria com Kad Merad na construção do roteiro e construção das cenas nos sets? Como é que esta parceria se expandiu de “On a marché sur Bangkok” (2014) para cá? O que Merad garante de mais criativo a uma filmagem?
Olivier Baroux:
A vantagem de trabalhar com um amigo é que não é necessário ter longas conversas para transmitir uma intenção ou uma ideia de encenação. Esta cumplicidade entre nós, que já dura 30 anos, permite uma criação em dupla marcada pela serenidade. À medida que os anos vão passando, tornamo-nos mais exigentes um com o outro, o que só reforça a nossa vontade de voltar a trabalhar juntos.

Que lições de dramaturgia a franquia “Les Tuche” garantiu ao senhor?
Olivier Baroux:
Fazer grandes sucessos coloca em perspectiva o fato de que você também pode fazer fracassos. Esta experiência é única, porque, em geral, no mercado cinematográfico, as sequências fazem cada vez menos espectadores. Porém, com “Les Tuche” é precisamente o contrário. Essa franquia entrou no coração dos franceses, por isso devemos permanecer vigilantes quanto à qualidade da escrita. Não temos o direito de desapontar.
Que preconceitos a comédia enfrenta atualmente na França, frente às pressões da correção política?
Olivier Baroux:
A França é a Terra das Luzes e, aqui, a liberdade de expressão é sagrada. A censura não existe, a não ser a autocensura que apela ao bom senso e à inteligência. Todos os anos no cinema francês – contabilize aí 250 filmes anuais, em média -, todos os assuntos, mesmo os mais subversivos, são abordados. O público escolhe ir vê-los ou não. Os espectadores são adultos, o governo não tem voto na escolha alheia.

p.s.: Este fim de semana, o circuito exibidor francês recebe o tocante “Próxima”, da francesa Alice Winocour, que saiu do Festival de San Sebastián, na Espanha, em setembro, com o prêmio especial do júri. Nele, Eva Green vive uma astronauta dividida entre seus compromissos com o espaço e seus afazeres como mãe.

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