Ugo Giorgetti ilumina o Real à luz de Singer

Ugo Giorgetti ilumina o Real à luz de Singer

Rodrigo Fonseca

12 de abril de 2021 | 15h47

O realizador do feroz “O Príncipe” (2002) faz uma reflexão sobre economia em .doc em cartaz no É Tudo Verdade

Rodrigo Fonseca
Marcado por estudos sobre os estragos da covid-19, “cinensaios” sobre artistas e cartografias do racismo, o 26º É Tudo Verdade, em cartaz na web até dia 18, majoritariamente na plataforma Looke, peneirou uma série de (potentes) desabafos em primeira pessoa sobre as angústias de intelectuais em vivências de risco ou de invenção criativa, como é o caso de “Paul Singer, Uma Utopia Militante”. É Ugo Giorgetti em sua autoralidade mais decantada, combinando uma doída nostalgia com doçura e alarmismo. A vedete mais festejada da obra do realizador de “Festa” (1989) – a cidade de São Paulo – está nas telas desse seu novo longa nas franjas da dialética de Singer, autor de “Ensaios sobre Economia Solidária”. Nascido em 1932, em Viena, na Áustria, e morto em 2018, ele chegou às Américas ainda menino, em 1940, e foi um pilar de resistência teórica na vida intelectual de São Paulo nos últimos setenta anos. A experiência operária e a militância no Partido Socialista Brasileiro (PSB) fez nascer em Singer o interesse pela Economia, cujos estudos se iniciaram em leituras de Marx, Engels e Rosa Luxemburgo. A imersão documental de Giorgetti em seu legado se debruça sobre sua trajetória na liderança de movimentos econômicos e sobre sua luta em prol da educação. Até domingo, o filme pode ser visto na Plataforma Sesc Digital.
“Singer foi o porta-voz de um socialismo civilizado, parecido com o do iluminismo francês. No fim de sua vida, ele percebeu que mais importante do que liquidar o capitalismo era ser útil para quem é pobre. Lembro muito da ternura dele e de sua cortesia”, diz o cineasta, cuja obra-prima é “O Príncipe” (2002), que partia das inquietações de um grupo de intelectuais em fase de ressaca com o país. “A melancolia não pode ser paralisante. Ela precisa ser ativa”.
Giorgetti levantou o longa – cujo roteiro é um primor de apresentação e aprofundamento de personagem – com R$ 125 mil egressos de crowdfunding. “Fizemos o filme como o Singer faria”, diz o diretor, um iluminista afetivo por excelência. “Embora Singer e eu pertençamos a gerações diferentes, eu avalizo as ideias dele”.

Na competição nacional de .docs, a coisa mais linda desse É Tudo Verdade é “Paulo César Pinheiro – Letra e Alma”, um filme de se suspirar. Pontuado por um roteiro preciso, o filmaço de Andrea Prates e Cleisson Vidal, periga ser o filme mais tocante de toda a maratona documental de 2021, pelo que se viu até agora, impondo-se pela poesia que encobre a simplicidade – só “Zimba”, de Joel Pizzini, parece fazer frente a ele, no quesito mel. Que roteiro doce e preciso! Compositor prolífico, PCPinheiro é um dos poetas mais celebrados da música brasileira, autor de “Canto das Três Raças” e “O Poder da Criação”, entre outros clássicos do samba, do samba-enredo e da canção. Parceiro de Baden Powell, Tom Jobim e Edu Lobo, foi gravado por Elis Regina, Clara Nunes e Maria Bethânia. Sentado em seu sofá, sob uma delicada fotografia em P&B, ele reflete sobre a natureza de suas canções, relembra o passado e revê a carpintaria poética canções de protesto contra a ditadura militar.

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