Udo, o Drácula de ‘Bacurau’

Udo, o Drácula de ‘Bacurau’

Rodrigo Fonseca

14 de setembro de 2019 | 22h46


RODRIGO FONSECA
“E que tal é ‘Bacurau’? É genial mesmo?” é a primeira pergunta de um colega aqui de Vilnius ao receber o P de Pop aqui na Lituânia, terra de Sharunas Bartas, o artesão por trás de “Paz para nós em nossos sonhos” (2015), que o Estadão viu no dia em que esbarrou Kleber Mendonça Filho em Cannes, em dias de finalização dos preparativos para “Aquarius”. Por aqui, o filme n. 1 do Brasil neste momento tem como chamariz a figura magnética do ator alemão Uso Kier, um fetiche dos cinéfilos destas bandas.

Ganhador do Prêmio do Júri em Cannes, em maio, “Bacurau”, um fenômeno de popularidade em nosso circuito, traz Udo na estratégica figura da barbárie que chega de fora. É dele um papel que sintetiza as invasões bárbaras do capital estrangeiro.

Vilão é um adjetivo determinista, um tanto maniqueísta até, que não casa bem com a estética de Kleber Mendonça e de seu parceiro, e conterrâneo de Pernambuco, Juliano Dornelles. Mas é impossível negar a vilania traduzida nos gestos mais simples de Udo Kier em “Bacurau”: no papel de Michael, líder de um bando de americanos armados para matar habitantes de uma cidade do Sertão, o cultuado ator alemão, de 74 anos, esbanja perversão. É um quinhão de pura brasilidade em seu currículo de cerca de 260 filmes. Parte do êxito do longa brasileiro, indicado à Palma de Ouro no 72º Festival de Cannes, deve-se ao desempenho memorável (e inusitado) do homem que foi muso queer de Paul Morrissey – esse diretor fez dele o Conde Drácula e o Frankenstein. Udo foi ainda um parceiro habitual de Rainer Werner Fassbinder, Gus Van Sant e Lars von Trier.

“No início dos anos 1970, depois do Frankesntein, estava tomando um vinho perto de um local onde Fellini estava filmando e pensei: ‘Se o Andy Warhol, que produziu Morrissey, estiver certo, estes são os meus 15 minutos de fama, e eles acabam agora’. Mas aí eu recebi um convite para viver Drácula, com a obrigatoriedade de perder nove quilos em uma semana. Fechei a boca, vivi à base de água e alface, e mal consegui me levantar da cadeira. Mas fiz. O que eu mais gosto no ofício do ator é poder estar em vários lugares e descobrir realidades diferentes”, disse Udo, que filmou no Nordeste sem ter conhecido o Brasil.

Em sua juventude, a imagem que os europeus tinha da realidade brasileira era mais tipificada do que a de hoje. “Quando se falava em Brasil, a gente pensava em rapazes e moças seminus pulando carnaval. Aí, Kleber me conheceu num festival nos EUA, em Palm Spings, onde vivo há 25 anos, e me deu o roteiro de ‘Bacurau’. Aceitei fazer, ele me botou num avião e, depois do voo, fui levado de carro, por horas, Sertão adentro, onde conheci uma realidade viva, cheia de humanidade. Era gente jogando cartas na ruas, vendinhas pra todo lado, cachorros correndo atrás de osso. Foram três semanas de trabalho. Três semanas no Paraíso”, diz o ator, cuja carreira vai de “Blade, o caçador de vampiros” (1998) a “Melancolia” (2011), sem medo da diversidade nem do rótulo pop. “Filmar me dá tesão”.

Há algo de que ele Udo se orgulha em seu modo de trabalho: “Jamais me virei para um diretor de admiro dizendo ‘Gostaria de trabalhar com você’. Imagina se eu viro para o David Lynch, digo isso e ele me responde: ‘Udo, quem não gostaria’. Amo Almodóvar, mas jamais pediria para trabalhar com ele. Se eu levasse um fora, não saberia onde esconder minha cara”.

Na coletiva da imprensa de “Bacurau”, que foi salpicada de tons políticos, Udo divertiu os jornalistas ao dizer: “Fiz muitos filmes, mas há pelo menos uns 50 de que você pode gostar sem precisar de álcool para isso”. Na mesa, Dornelles e Kleber estavam ao lado da produtora Emilie Lesclaux e de parte do elenco nacional – Karine Telles, Silvero Pereira, Bárbara Colen e Thomas Aquino, além do astro germânico. Já no início do papo com os jornalistas, que viriam a aplaudir sua vitória na Croisette, veio um recado em prol da diversidade.

“Faço filmes com todos os tipos de pessoas”, disse Kleber, que em 2016, quando concorreu com “Aquarius”, subiu as escadas do Palais des Festivals com um cartaz denunciando golpe de estado no Brasil de Dilma. “Fico a cada dia mais orgulhoso do protesto que fizemos aqui. É importante, na democracia, o direito de expressar descontentamento”, falou o diretor a Croisette, onde seu poderoso estudo sobre as desinências de “nordestern” do verbo “resistir” nasceu para o mundo. Nasceu para o sucesso.

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