TV dá ao METAmelodrama ‘Um Lugar Ao Sol’

TV dá ao METAmelodrama ‘Um Lugar Ao Sol’

Rodrigo Fonseca

14 de novembro de 2021 | 15h05

O sofredor Christian (Cauã Reymond) e Ravi (Juan Paiva) ensaiam uma relação de fraternidade numa trama que nasce da relação entre gêmeos

Rodrigo Fonseca
Bem defendido, na era clássica, por “O Ébrio” (1946), de Gilda de Abreu, o melodrama ganhou uma sobrevida no cinema brasileiro do século XXI a partir de uma série de narrativas que têm a fraternidade como um de seus eixos centrais – por vezes, eixo central. Foi o que se viu em belos exercícios do filão (por cá praticado ainda de maneira sazonal, na telona) como “Filhas do Vento” (2004), “2 Filhos de Francisco” (2005), “Linha de Passe” (2008), “Praia do Futuro” (2014) e “A Vida Invisível” (2019). Todos esses filmes têm em comum a aposta numa ideia de “frátria”, ou seja, a constituição de uma ideia de pertencimento a partir da relação entre irmãs e irmãos. Na virada dos anos 1990 para 2000, toda a América Latina foi sacudida por um sentimento de releitura neo-neorrealista dos códigos do folhetim, o que nos deu “Coração Iluminado”, “Central do Brasil” e “Amores Brutos”. Todos esses filmes se deitavam no edredom melodramático que a indústria cinematográfica – renovada pela chegada das câmeras digitais e das ilhas de edição – estendeu para si, não como zona de conforto, mas, sim, como um espaço de (re)descoberta de suas bases, a partir de “A Flor do Meu Segredo” (1995), o Almodóvar da virada. É o filme que fez o Douglas Sirk de Calzada de Calatrava passar das comédias excêntricas (“Maus Hábitos”, “A Lei do Desejo”) para um território folhetinesco novo – para ele; para a Espanha de Carlos Saura e Berlanga; pro Velho Mundo; e pra o cinema como um todo – que o catapultou à condição de gigante entre o Panteão de cineastas autorais. Esse “novo” foi classificado por teóricos da cultura audiovisual – David Bordwell, João Maria Mendes, Silvia Oróz e José Cavalho – como METAmelodrama.
Qual é a sua diferença do METAmelodrama para o melodrama raiz? Em titãs dessa linhagem – cineastas do calibre de Sirk, Emilio Fernández, Vincente Minnelli, José Carlos Burle, (a também atriz) Kinuyo Tanaka, Roberto Gavaldón, Mikio Naruse e mesmo do moderno Fassbinder – a aspereza que movia narrativas era um espelho da vida, retirada de vivências ou de fatos reais. Naquilo que Caetano Veloso chama de “almodrama”, não: a base da aspereza, expressa na forma de excessos, é o próprio cinema. Os descalabros da sofrência que movem “Tudo Sobre Minha Mãe” (1999) e “Fale Com Ela” (2002) não são pautados por situações cotidianas, mas, sim, sobre a noção de sofrimento que melodramas anteriores mostraram a Almodóvar. O mesmo se passa com o cinema de Wong Kar Wai (“Amor à Flor da Pele”, onde a China é regada a Nat King Cole); com um ou outro filme de Zhang Yimou (“Nenhum A Menos” e “A Árvore do Amor”); com a fase mais recente da japonesa Naomi Kawase (sobretudo “Esplendor” e “Mães de Verdade”) e de seu compatriota Hirokazu Koreeda (“Assunto de Família”); e do franco-senegalês Alain Gomis (de “Hoje” e “Félicité”, rodados entre Dakar e Kinshasa). São todas vozes de uma autoralidade exponenciada pelo conceito do META: um além não só da realidade, mas da própria base simbólica do storytelling. E esse expoente, tão bem consolidado nas telonas, parece ter encontrado um espaço de contágio na TV aberta, na Globo, a julgar pelo excepcional domínio das convenções da angústia, da renúncia e da escolha demonstrado por Lícia Manzo – e sua equipe de colaboradoras – nos primeiros capítulos da atual novela das 21h: “Um Lugar Ao Sol”.
Xará do título brasileiro de “A Place In The Sun” (1951), no qual George Stevens dialogava com a prosa de Theodore Dreiser (no romance “An American Tragedy”), a soap opera de Lícia fez as casas de todo o Brasil transbordarem de exaspero e de lágrimas. Em sua arrancada, ela propôs um projeto de “fátria” (de fraternidades) a um país repleto de mães coragem, que se sente (simbolicamente) órfão de um pai em seu leme. Apoiada num Montogmery Clift bronzeado a brasilidades chamado Cauã Reymond (em fase de contínua evolução desde o filme “Se Nada Mais Der Certo”, vencedor do Festival do Rio de 2008), “Um Lugar Ao Sol” assume como seu motor de arranque o encontro entre dois gêmeos que nuca tiveram oportunidade de conviver. Como boa META, a trama de Lícia bebe do filtro de barro da teledramaturgia do passado e assume um irmão como sendo rico – o bad boy Renato, pinguço, fumante e avesso a normas – e outro como sendo pobre – um Rocky Balboa sem luvas batizado como Christian. A morte da mãe, no parto, já esmerilha um arquétipo folhetinesco para ambos.

O primeiro deles, Renato, cometeu um crime no passado (atropelou um ciclista na Europa) e fugiu dele, sendo assolado por pesadelos. Seu maior desafio é domar a besta que reside em seu peito para poder estabelecer uma relação de amor com Bárbara (uma Alinne Moraes que faz jus ao nome de sua personagem, numa atuação aguda). Já o segundo, Christian, é o foco de todas as desmesuras que uma ficção melodramática pode criar. Saca só: o fulano é pobre de dar pena a marré deci; é achincalhado pelo pai bêbado; adota como irmão um rapaz que careca de medicamentos para se equilibrar, Ravi (Juan Paiva, em impecável atuação); fracassa no Vestibular; é humilhado em seu trabalho como manobrista; e é roubado quando aceita participar de um negócio criminoso pra arrumar R$ 2,5 mil. Sua namorada, Lara (Andréia Horta, cirúrgica na composição da dor, como já fizera em “Elis”), é seu único alento. Mas ela também lida com uma doença em sua família, ajudando a avó (Marieta Severo) a equilibrar problemas digestivos e metabólicos.
Numa noite de franca ruína, Christian esbarra com Renato e ensaia com ele o que poderia ser o momento de maior felicidade de sua vida: um esboço de pertença. Mas algo vai sair errado, obviamente. Um erro que vai transformar o plebeu no príncipe, aproximando o lumpesinato da aristocracia, fazendo colidir diferentes Brasis. Como provou em “Sete Vidas” (2015), Lícia é craque nisso, tendo do seu lado do gramado uma seleção de artilheiras como Carla Madeira, Cecília Gianetti, Dora Castellar e Marta Goes. Vitaminada por elas, a autora parece galvanizar sua potência ao terreno do META, com um vigor que mantém espectadores fincados na telinha e na streaminguefera, via Globoplay.

Um universo de asperezas

Da mesma maneira como Almodóvar, a partir de “A Flor do Meu Segredo” refinou o folhetim plasticamente, trazendo fotógrafos como Affonso Beato e José Luis Alcaine para embelezarem seus longas, a tocante experiência de Lícia com as cores fortes do melodrama faz a TV depurar sua representação de país, na forma. Sob a direção artística do cineasta Maurício Farias (“Verônica”) e a direção geral de André Câmara, isso vem com: a) a escalação dos talentos Inti Briones, Chico Rufino e Alexandre Fructuoso para a direção de fotografia; b) a convocação de Branco Mello, Márcio Lomiranda e Mú Carvalho pra trilha sonora; c) a sintomática imersão na letra de “Sulamericano”, da banda BaianSystem na abertura. E há que se destacar com caneta Pilot a inteligência de Montgomery Reymond: em dose dupla, Cauã vai ao avesso do avesso e nos expõe feridas de um Brasil de incongruências. Seu trabalho em “Dois Irmãos” (2017), outro movimento de “frátria” de nossa teledramaturgia, mediado por Maria Camargo e Luiz Fernando Carvalho, também fez ferver esse caldo do META que, desde semana passada, vem nos deliciando de segunda a sábado na TV.
Um destaque especial; no primeiro capítulo, Tonico Pereira entra em cena como o Professor. Sua lição para Christian, citando o machadiano “Memórias Póstumas de Brás Cubas”: “Se seu sonho estiver nas nuvens, ele está no lugar certo. O perigo não é sonhar alto, grande, e não conseguir. O perigo é sonhar curto, medíocre, e chegar lá”.

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