‘Tungstênio’, minério de jazida autoral

‘Tungstênio’, minério de jazida autoral

Rodrigo Fonseca

18 de janeiro de 2021 | 12h10

Um memorável thriller à moda baiana tem sessão nesta madrugada na TV, no aniversário de Heitor Dhalia

Rodrigo Fonseca
Trópico de ecletismo no cinema brasileiro, a obra do pernambucano radicado em SP Heitor Dhalia, que comemora 51 anos neste 18 de janeiro, nunca foi reconhecida em toda a sua potência narrativa, apesar do culto em volta de seu “O cheiro do ralo” (2006), hoje menos lembrado do que merecia. Sucesso no streaming, com “Arcanjo Renegado”, do Globoplay, ele tem dois filmes inéditos para o circuito: o brilhante “Anna”, exibido e premiado no Festival do Rio de 2019, e um longa zero KM que o IMDB chama de “Ballad of a Hustler”, feito nos EUA. Os filmes de Dhalia carregam uma inquietação afetiva – sobretudo na questão da lealdade – que poucos diretores brasileiros revelados na Retomada (1995-2010) apresentam, sobretudo com tamanha maestria. Por isso, os afetos fervem em azeite de dendê em seu “Tungstênio”, um thriller policial de 2018, que a Globo projeta esta madrugada, às 2h40, no “Corujão”. Com toques de expressionismo alemão na fotografia de Adolpho Veloso, arredia ao contingente neorrealista ao seu redor, essa possante trama policialesca é uma crônica poliédrica (são quatro núcleos de personagem, vistos numa perspectiva cubista, fragmentada) sobre aquilo que se espera da lealdade. Com base na HQ de Marcello Quintanilha, premiada mundialmente, o roteiro de Marçal Aquino e Fernando Bonassi se apega ao cotidiano e aos solavancos da banalidade baiana. A partir da adaptação deles, Dhalia cria uma Bahia bem parecida com a de “Barravento” (1961), de Glauber Rocha. Nela, um sargento aposentado (vivido pelo exu José Dumont, devastador em cena), leal a um ideal de Moral e Cívica superado, deflagra uma confusão em prol de um ideal de ordem às margens de um forte. Leal a um conceito de justiça torto, uma espécie de Dirty Harry à baiana, o policial Richard (vivido por um luminoso Fabrício Boliveira, com ecos de Milton Gonçalves), embrenha-se nesse cumburucu que Dhalia narra em um diálogo primoroso com a linhagem dos thrillers hollywoodianos dos anos 1950 e 60 (em especial “A Morte Num Beijo”). Um diálogo moral, tenso e vívido. A poética narração de Milhem Cortaz (alter ego de Quintanilha) aproxima o longa-metragem da linguagem dos gibis. A sessão do longa na TV aberta é uma comemoração do aniversário de um diretor que sempre imprimiu inquietude nas telas, desde sua estreia em longas, em 2004, com “Nina”.

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