‘Tungstênio’: aquisição preciosa pro ‘Supercine’

‘Tungstênio’: aquisição preciosa pro ‘Supercine’

Rodrigo Fonseca

22 de novembro de 2019 | 19h35

José Dumont tem uma atuação deslumbrante (como lhe é peculiar) na adaptação da HQ de Marcello Quintanilha

Rodrigo Fonseca
Sintonizado com a polêmica (mas essencial) onda atual de filmes decalcados de histórias em quadrinhos, “Tungstênio”, um dos mais exuberantes diálogos do cinema nacional com a Nona Arte, vai, enfim, ganhar os holofotes na TV aberta. Escalado para concorrer ao troféu Redentor da Première Brasil do Festival do Rio de 2019 (de 9 a 19 de dezembro) com o esperado “Anna”, Heitor Dhalia é o realizador do (vibrante) longa-metragem que serve de prato principal no menu do “Supercine”, na madrugada de sábado (23/11) pra domingo, na TV Globo, à 1h.

Mesmo não havendo uma linha autoral (temática ou formal) visível na obra de Dhalia, diretor pernambucano radicado em SP e respeitado (internacionalmente) pelo cult “O cheiro do ralo” (2006), seus filmes carregam uma inquietação afetiva – sobretudo na questão da lealdade. É uma inquietação que poucos cineastas brasileiros revelados na Retomada (1995-2010) hoje apresentam – e com tamanha maestria. Por isso, os afetos fervem em azeite de dendê em seu “Tungstênio”, lançado em 2018. Com toques de expressionismo alemão na fotografia de Adolpho Veloso, arredia ao contingente neorrealista ao seu redor, o filme é uma crônica poliédrica (são quatro núcleos de personagem, vistos numa perspectiva cubista, fragmentada) sobre aquilo que se espera da lealdade. Com base na HQ de Marcello Quintanilha, premiada mundialmente, o roteiro de Marçal Aquino e Fernando Bonassi se apega ao cotidiano e aos solavancos da banalidade. A partir da adaptação deles, Dhalia cria uma Bahia bem parecida com a de “Barravento” (1961), de Glauber Rocha. Nela, um sargento aposentado (vivido pelo exu José Dumont, devastador em cena), leal a um ideal de Moral e Cívica superado, deflagra uma confusão em prol de um ideal de ordem às margens de um forte. Leal a um conceito de justiça torto, uma espécie de Dirty Harry à baiana, o policial Richard (vivido por um luminoso Fabrício Boliveira, com ecos de Milton Gonçalves), embrenha-se nesse cumburucu que Dhalia narra em um tom de thriller moral, tenso e vívido. A poética narração de Milhem Cortaz (alter ego de Quintanilha) aproxima o longa da linguagem dos gibis.

Acerca do autor de “Tungstênio”… em sua encarnação editorial:
Choveu elogio dos maiores especialistas europeus em Banda Desenhada – termo lusitano para definir história em quadrinhos – no lançamento, no Velho Mundo, de “Luzes de Niterói”: o álbum, já lançado por aqui, é uma experiência narrativa digna do cinema neorrealista, mas em forma de desenhos e balões. Um experimento que vem ampliando o prestígio de Quintanilha para além das fronteiras brasileiras. Lá fora, o gibi saiu pela editora Polvo, e aqui, foi editado pela Veneta. É um mergulho em águas pardacentas de saudade dos anos 1950, com base em memórias do quadrinista (responsável por joias como “Talco de vidro”, de 2015). São recordações (e reinvenções) acerca de seu pai, acerca do futebol jogado por operários de fábricas e acerca de um Brasil idílico, de Bossa Nova, de Oscarito… Temos dois pescadores em busca de sustento, com um vocabulário bem regional, numa aventura que escorre para a saga de um craque da bola (ou quase). Definido no exterior como “uma espécie de Dino Risi do quadrinho”, em comparação ao mítico diretor das “comédias tristes” da Itália, como o sucesso “Aquele que sabe viver” (1962), o niteroiense de 47 anos, hoje um dos mais aclamados artistas gráficos das HQs, colhe os louros da boa recepção a seu mais recente trabalho. “É um impressionante afresco social, mais próximo de Balzac que da crônica esportiva”, elogiou a revista “Télerama”, da França – onde sua fama internacional começou.

Ao lançar a HQ, Quintanilha deu uma entrevista ao P de Pop na qual explicou: “O realismo é a substância primordial do meu trabalho, da qual me aproprio para operar uma conversão em chave ficcional, frequentemente subvertendo algumas de suas premissas em favor de um resultado expressionista. Como parte indissolúvel desta substância, a memória deixa de cumprir o papel de arquivo de experiências remotas, para atuar como engrenagem da realidade tangível, uma vez que nunca me senti distanciado do meu passado”.

p.s.: Falando de TV aberta, nesta segunda-feira rola “Mulher-Maravilha” (“Wonder Woman”, 2017), de Petty Jenkins, na “Tela Quente”, com Gal Gadot dublada por Flávia Saddy.
p.s.2: Em cartaz nos cinemas, e já, já na Netflix, em uma pequena participação em “O irlandês” (“The Irishman”), Harvey Keitel vai dar uma masterclass sobre atuação – e sobre seu histórico com Martin Scorsese – no 18º Festival de Marrakech, que começa no dia 29 de novembro, tendo “A febre”, da carioca Maya Da-Rin, entre seus concorrentes.

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