Tudo acaba em cinema brasileiro, rindo à Veras

Tudo acaba em cinema brasileiro, rindo à Veras

Rodrigo Fonseca

27 de junho de 2021 | 09h11

Marcos Veras precisa cumprir as normas do RH em “Tudo Acaba Em Festa”, hoje no Globoplay

Rodrigo Fonseca
Numa triagem de bons longas-metragens para preencher as horas nuas do fim de semana, o Globoplay nos surpreende com uma bada chamada Filmes Nacionais, que vai de “Bacurau” (Prêmio do Júri em Cannes, em 2019) a diamantes cinemanovistas do quilate de “O Padre e a Moça” (1965) e “Macunaíma” (1969), de Joaquim Pedro de Andrade; “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964) e “Terra em Transe” (1967), de Glauber Rocha; e “São Bernardo” (1973), de Leon Hirszman. De leon tem ainda “Eles Não Usam Black-Tie”, ao lado do seminal “Bye Bye Brasil” (1979), de Cacá Diegues. Mas tem coisa mais recente, inclusive da seara do humor. É o caso de “Tudo Acaba Em Festa” (2018), que traz um inspiradíssimo Marcos Veras em cena.
Tempos de crise econômica costumam, historicamente, provocar uma baixa na comédia, como filão de mercado, dando mais vazão a gêneros sombrios como o terror e o noir, como se viu no crack da Bolsa de 1929 (Frank Capra e Ernest Lubitsch salvaram a pátria ali) e como se vê nos dias de hoje, frente aos desacertos financeiros mundiais. Faz tempo que não se tem um “Se Beber, Não Case!” (2009), vindo de Hollywood. E a tristeza generalizada, imposta pela morte recente de Paulo Gustavo acentuou ainda mais o nosso desatino com o riso. Desde “Ted” (2012), um veículo para o riso, vindo lá de fora, não se firma como fenômeno por aqui, onde descascamos bem o abacaxi do azedume moral com a franquia “Minha Mãe É Uma Peça” (2013-2019). Há tempos, no filão do sorriso, o Brasil vem gozando do aditivado combustível da neochanchada. Isso vem desde 2005, quando “Se eu fosse você” (2005) inaugurou essa frente, sem se preocupar com o esgotamento dos recursos naturais do humor nacional. Mas, com a pandemia, a venda de ingressos deu uma engasgada, começando a retomar agora.
Frente à entressafra de espaços exibidores, boas comédias brasileiras, como “Tudo Bem No Natal Que Vem” e “No Gogó Do Paulinho”, foram para o streaming. Migrou para lá também um trabalho recente de um diretor numa linha evolutiva estética ascendente, André Pellenz (“Minha mãe é uma peça”), o responsável por “Tudo acaba em festa”.
Seu enredo se resume a uma peripécia: um funcionário de RH de uma empresa de cosméticos, o fracassado Vlad (Marcos Veras), precisa fazer uma festança de fim de ano pra agradar seus colegas e elevar o prestígio de seu chefe (o sempre impecável Nelson Freitas). Usando um esquema de “171zação”, Vlad puxa, estica, solta e enrola na firma a fim de botar sua micareta na rua. Apoiado na montagem sempre arejada do editor Marcelo Moraes (de “Meu nome não é Johnny”), Pellenz faz da preparação um desfile de confusões, buscando uma estrutura narrativa à moda hollywoodiana: lembra “A última festa de solteiro”, com Veras pagando de Tom Hanks. O acerto maior é o time de coadjuvantes, como a cantora vivida por Priscila Assum e os figurantes fissurados em teoria dramática encarnados por Pablo Sanábio e Elisa Pinheiro (cantando o axé “Poeira” de maneira memorável). É bonito ver como Veras brinca de Adam Sandler, mantendo a histeria de uma narrativa cheia de tensão (cômica) em pressão constante.

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