‘Tubarões’ de presas abertas no Serrador

‘Tubarões’ de presas abertas no Serrador

Rodrigo Fonseca

11 Janeiro 2018 | 12h40

Ex-amantes, Stella (a impecável Bianca Joy Porte) e Murilo (Alexandre Varella) se abraçam aos olhos do amigo Cícero (Christian Landi) em “Tubarões”: uma peça que arranca pedaço

Rodrigo Fonseca
Um dos maiores achados da temporada teatral de 2017, Tubarões, cerzido por Daniela Pereira de Carvalho, volta aos palcos cariocas nesta quinta, agora no Teatro Serrador. Tem apresentação hoje, dia 11/1, às 19h30m.

Rezam as lendas de Hollywood que, quando William Holden (1918-1981) foi buscar sua primeira oportunidade de trabalho como ator – isso anos antes de viver Joe Gillis em Crepúsculo dos Deuses, 1950 –, um produtor de prestígio na cidade virou para ele e disse: “Rapaz, vá lá embaixo, pare no meio de uma rua em movimento e se deixe atropelar por um carro”. Holden, chocado, indagou: “Por quê?”. E o janotinha: “Você é bonito demais para ser um ator. Precisa de cicatrizes” Holden saiu de lá fazendo o contrário: assumiu sua condição apolínea e aprendeu a desconstruir a figura desejante que imprime, colocando contrastes morais na frente de sua face de galã. Taí um procedimento que me vem à mente sempre que vejo Bianca Joy Porte brilhar, como se dá em Tubarões, talvez a peça mais visceral (em termos de palavras cerzidas pelo barbante do incomodo) hoje em cartaz nos palcos cariocas. A direção é de Michel Blois, que põe Bianca como o diesel de uma fogueira de afetos tortos. Ganhadora do prêmio de melhor atriz do Festival do Rio 2014 por Prometo um Dia Deixar Esta Cidade (ainda inédito), essa figura de Mondigliani, que poderia ser um sol em qualquer cena apenas por sua beleza, optou por iluminar espaços escuros da dramaturgia (seja na cena ou na tela) com outros atributos de sua inteligência sensível, soltando de sua alma, em cada papel, bichos desconhecidos de nossos lugares comuns midiáticos. Um deles é Stella, o fogo vivo que há de acorrentar dois dublês de Prometeu – o empresário Murilo e o cineasta Cícero – em uma ilha com parafinas e canções dos anos 1980. Neste regresso da peça, Bianca alterna o papel, por vezes, com a (igualmente vulcânica) Thiare Maia.

No azeitado elenco temos, além de Bianca, Alonso Zerbinato no papel de um modelo e ex-jogador de futebol; Beatriz Bertu (ótima) como uma jovem que já foi operadora de telemarketing e fez outras múltiplas funções; e o próprio Blois como um biólogo soropositivo. Alexandre Varella e Christian Landi assumem (num misto de sangue exposto e soluço engasgado) os papéis de Murilo e Cícero, respectivamente. Essa trupe, associada a Blois, construiu o texto numa simbiose com uma das maiores referências de boa dramaturgia dos anos 2000: a já citada Daniela Pereira de Carvalho. Nas presas destes Tubarões, há resquícios (talvez não intencionais) de muitos filmes cults – de O Reencontro, de Lawrence Kasdan, ao doído À Deriva, de Heitor Dhalia -, mas todos ali apenas como lantejoulas pop para uma fantasia de tintas autorais vívidas (e proustianas) de passados perdidos.

Na trama, Stella, hoje casada com Bernardo compra a casa de praia onde took a walk on the wild side em sua mocidade ao lado de Cícero e Murilo. Este último foi mais do que seu amigo. Mas lá pelas tantas sabe-se que os três curtiram juntos mais do que abraços de amigo, numa curtição sem fim interrompida no momento em que Murilo negou-se a entrar num barco, com águas infestadas de peixes carnívoros, numa longa noite de loucuras. Não espere saber muito mais sobre o episódio, fora as metáforas que Murilo cita de visões de “tubarão-fantasma”.  Estamos diante de um texto lacunar, um texto especular, no qual os três personagens mais novos – Bernardo; Clarisse, que namora Murilo; e Daniel, que é casado com Cícero e vive com ele no Equador – são representações alquebradas do que seus três cônjuges foram na juventude.

O que mais arrebata no xadrez de guerra que se estabelecem entre eles, tendo como simbologia guia o fantasma do predatismo (daí Tubarões), é o arranjo geométrico que Michel Blois estabelece na cartografia cena ao guiar a distribuição de tempos cênicos e núcleos de personagens no palco. Por vezes, três ações correm em paralelo, como se representassem diferentes locais de uma praia ou mesmo diferentes locais da memória, misturando anos 1980 e presente, imagens em vídeo e representações do instante. Tudo se equilibra numa polifonia de sentidos (e de catarses nem sempre felizes) enquanto velhos amantes se olham no olho e jovens cheios de angústia assume suas feridas gangrenadas. Há uma cena de epifania, na qual Bianca vive seus minutos de William Holden, olhando Murilo e Clarisse se isolaram ao som de Marina, num fone de ouvido, enquanto ela, o personagem de Blois e os demais arriscam uma dança “mais animada”. Seu olhar de perda é um olhar de fome. É a fome do tubarão: a fome insaciável, física, de um pertencimento fraturado.

O incômodo de Stella cresce e os gemidos de seu ventre de tubarão – ventre faminto – galvanizam a força dramática daquele que talvez seja o mais bem urdido de todos os personagens da peça: Bernardo, defendido com encantadora simplicidade por Zerbinato. De todos, ele é o único cujos desarranjos não foram frutos de uma escolha infeliz e sim de um acidente (quebrou o joelho num jogo e teve que se aposentar do futebol). Trocou uma profissão do corpo (craque) por outro ofício dependente de sua ossadura (a arte de modelar). É uma figura impávida, que se lança no amor de Stella sem medos, sem ter o que esconder. E vai ser ferido por essa entrega. Daniel e Clarisse também carregam muita potência em si. Ela se vê diante da imposição da submissão, que aprende a questionar. Daniel se vê diante da companhia da doença e enxerga nela uma bússola para seus dias, como se estivesse nadando com tubarões numa piscina.

Estamos diante de uma história de mágoas, de dissonância, de dissabores, rica em múltiplas camadas de sentido, coroada por uma atriz em estado de graça, que tira Stella da carapaça de musa e revela seus órgãos mais internos – órgãos em coma. É uma história que não parece ter fim, numa Progressão Aritmética de sensações de falência – as deles e as nossas.