Tsai Ming-liang em retrospectiva

Tsai Ming-liang em retrospectiva

Rodrigo Fonseca

31 de agosto de 2020 | 13h04

Rodrigo Fonseca
Depois de inundar a tela do Berlinale Palast, em fevereiro, com o silêncio de uma Ásia minimalista com “Days” (“Rizi”), cuja aposta na contemplação desafia hábitos contemporâneos de recepção de obras de arte, o taiwanês Tsai Ming-Liang marcha pra Espanha, ainda que virtualmente, para uma retrospectiva (seguida de masterclass) de sua obra. É a Filmoteca Española quem vai receber e rever uma filmografia iniciada em 1989, com “All The Corners Of The World”. Na mostra serão revisitados cults dele como “Vive l’Amour” (ganhador do Leão de Ouro de 1994, empatado com “Antes da Chuva”) e “O Sabor da Melancia” (laureado com o Urso de Prata por seu roteiro, em Berlim, em 2005). Agraciado com o troféu Teddy (a láurea LGBTQ+ da capital alemã), “Days” também estará na programação e sai de lá diretamente pro 68º Festival de San Sebastián (18 a 26 de setembro). É necessária uma calma monástica pra se desbravar o oceano de signos do diretor de “O Buraco” (1998), mas o esforço é compensado com uma belíssima reflexão sobre o sucateamento dos corpos e do desejo. Lee Kang-Sheng, ator fetiche do cineasta vive um cinquentão abalado por problemas de saúde que alivia sua angústia no toque de um garoto de programa (Anong Houngheuangsy). Até os corpos deles se cruzarem, Tsai distende o tempo ao máximo, numa observação quase documental de ritos do dia a dia: banhos tomados, abobrinhas raladas, massagens besuntadas de óleo. É um olhar sobre a rotina, entre seus encantos e suas pústulas inflamadas, em especial o calombo da velhice e a ferida da solidão, que não cessa de inflamar. Não por acaso, a mostra hispânica é batizada de Fluxos de Solidão. “Construí ‘Days’ assumindo os ruídos do dia a da cidade como uma trilha sonora para o que se passa em um ambiente doméstico”, disse Tsai ao P de Pop, em Berlim. “Essa é apenas a história sobre dois homens, situados em instâncias distintas da prática da linguagem, que não falam no mesmo compasso, mas se encontram, ainda que na dimensão física”.

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