Truffaut eterno no MUBI e em telas da França

Truffaut eterno no MUBI e em telas da França

Rodrigo Fonseca

29 de dezembro de 2019 | 10h21

RODRIGO FONSECA
PARIS – Na reta final das comemorações dos 60 anos de “Os Incompreendidos”, o MUBI, streaming com foco no cinema autoral mais radical, tem um pacote de filmes de François Truffaut (1932-1984) em seu menu. Em paralelo, os cinemas da França vão celebrar, em 2020, os 40 anos de um de seus mais cultuados longas-metragens, “O Último Metrô” (1980). Não por acaso, uma das reflexões mais vívidas do diretor vem sendo estudada, à exaustão, aqui em terras parisienses: “Eu me sinto parte desse grupo de cineastas para quem o cinema é um prolongamento da juventude, como se fôssemos crianças a quem mandaram brincar num canto, que reconstruíram o mundo com os brinquedos e, na idade adulta, continuam brincando com os filmes. É o que chamo de cinema do quarto dos fundos, com uma recusa da vida tal qual ela é, o mundo em seu estado real e, em reação, com uma necessidade de recriar alguma coisa que se aproxime um pouco do conto de fadas, um pouco do cinema que nos fez sonhar quando éramos jovens.”

As palavras, as coisas e os filmes de Truffaut: essa é a melhor forma de se entender o amor romântico nas últimas seis décadas, a partir da estreia de “Os incompreendidos”, em 4 de maio de 1959, no Festival de Cannes. O longa saiu da Croisette com o prêmio de melhor direção dado a um jovem crítico de cinema e realizador cuja bandeira era revolucionar o cinema a partir da inclusão das sequelas sociais, morais e afetivas do tempo de contracultura que se desenhava à sua frente. Em sua estreia na Literatura, com o livro “As cartas roubadas”, o ator francês Gérard Depardieu, grande fã do cineasta, escreveu uma epístola que dizia: “François, depois que você morreu, acabaram as histórias de amor”.

Laureado com 31 prêmios numa carreira que vai de 1955 a 1983, coroada com três indicações ao Oscar e muitos sucessos de bilheteria, Truffaut mudou a forma de se fazer e de se ver filmes a partir de um projeto estético de hemodiálise da imagem a partir de um engajamento das narrativas audiovisuais com as fraturas éticas e emotivas do mundo a seu redor, modificando os dispositivos de construção do discurso cinematográfico de modo a fugir do engessamento, do classicismo. Assumiu a infância (“O garoto selvagem”), o feminino (“A mulher do lado”) e o próprio ofício de cineasta (“A noite americana”) como seus temas mais essenciais, passeando por gêneros diferentes, em prol da renovação da cinefilia. Repensou o papel do espectador e os deveres do contador de histórias. E, mais do que tudo, repensou o amor. Binômio vivo de arte + desejo, seu cinema nos deixou como legado a necessidade de se discutir o querer como um verbo de ação e não como de ligação com as tradições burguesas.

Diretor, produtor, roteirista, critico e ator, Truffaut sempre entendeu o filme “como algo íntimo, como uma carta” — como disse certa vez, em entrevista. Se em vários de seus trabalhos ele deixou isso bastante claro, em “A noite americana” (1973), sua grande obra de exaltação ao cinema, ele mostrou que o filme pode ser mais, pode ser uma carta de amor. Gravitou, ao longo de 28 anos de carreira por vários grandes temas. A realidade infantil, como visto em “A idade da inocência”; o romantismo, com “Um só pecado”, “Duas inglesas e o amor” e “A história de Adele H.”, e a Morte, com “La chambre verte”. A esses filmes devem ser acrescentadas várias adaptações literárias como “Farenheit 451”, o suspense “A noiva estava de preto”, “A sereia do Mississipi” e sua última obra, “De repente num domingo”, lançada no Festival de Locarno, em 1983. Ao longo de sua carreira, Truffaut pintou com traços ao mesmo tempo delicados e vigorosos, o cotidiano francês. Era meticuloso ao extremo e, pela fama de seu perfeccionismo, era confrontado com perguntas sobre suas predileções cinéfilas múltiplas vezes. Certa vez, indagado sobre que cinema do mundo preferia, respondeu:
“Para mim, o cinema não tem nacionalidade. O importante são as pessoas que fazem um bom trabalho”.

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