Truffaut e a poesia do olhar na tela do MAM

Truffaut e a poesia do olhar na tela do MAM

Rodrigo Fonseca

11 de outubro de 2019 | 16h04


Rodrigo Fonseca
Em meio à estreia mundial de “A noite americana”, no Festival de Cannes de 1973, meses antes de o longa-metragem conquistar o Oscar de filme estrangeiro, François Truffaut (1932-1984) foi instado, em uma entrevista, a passar em revista o conceito de ideologia no cinema francês e resolveu rebater queixas à sua poética. Meio assim: “Não me considero desengajado, mas pessimista em relação à política. Se eu tivesse vocação para mudar a vida dos meus contemporâneos, eu faria diretamente por meio da política. Há pessoas que amam a fantasia e há as que a detestam. Alguns dos que detestam a fantasia fingem gostar de cinema… Agora, as pessoas avançam na arte sem direção e sem bússola, mas com boa fé”, disse o cineasta.
Fé na força redentora do cinema – o elemento que norteou a produção do realizador parisiense entre 1955 e 1983 – vai ser a tônica (com afeto) da mostra Truffaut em 35mm – Uma semana de cinefilia, que vai de 21 a 29 de outubro, na Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ). Uma projeção do filme “De repente, num domingo” (1983) abre a retrospectiva idealizada pelo site Vertentes do Cinema (em comemoração de seus dez anos de existência), sob a curadoria de Luiz Baez e Fabricio Duque. O evento – uma realização da Cinemateca, com produção da BLG Entretenimento; Cavídeo Produções; e do Rosebud Club – celebra ainda os 60 anos de “Os incompreendidos” (1959), o primeiro longa com a assinatura Truffaut, laureado com o prêmio de melhor direção em Cannes.

Qual é a maior contribuição do cinema de Truffaut para o cinema francês do presente?
Fabricio Duque:
A maior e altamente explícita contribuição foi a própria linguagem, que inovou ao estreitar os limites entre ficção e realidade, trazendo uma editada intimidade cotidiana. Há uma proximidade da câmera, passeando em ambientes coloquiais, retratando pessoas comuns, não-atores, que participavam da cena sem saber de sua filmagem, como a tomada no meio dos carros de “Beijos Proibidos”. A Nouvelle Vague possibilitou a realização do cinema com simplicidade não simplista, que, ao baratear seus custos, alimentou o conceito da cinefilia. Era uma tendência sem volta. O filósofo alemão Arthur Schopenhauer acreditava que o mundo se traduzia por um pêndulo temporal em extremos andantes. Se o início das imagens em movimento aconteceu pelo registro documental de meros mortais, e não de celebridades, saindo de uma fábrica, o cinema Truffaut resgatava essa sensação de prazer nos olhos, mitigando assim a fábula fantasiosa da família feliz e polemizando com a engrenagem livre e orgânica das relações humanas, quase de improviso cênico.
Em que diretores a estética dele se faz mais presente e mais visível?
Fabricio Duque:
Truffaut, com sua singeleza artística em criar suas obras, sempre respirou e transpirou cinema. Na verdade, o mais americano dos cineastas franceses é o próprio cinema em sua essência mais pura. Mas primitiva. Mais sensorial. Mais passional. Mais adolescente. É inevitável então não perceber suas referências, visto que são a base de todo e qualquer filme. Truffaut embebedou-se de Alfred Hitchcock, Ingmar Bergman, Jean Renoir, entre infinitos outros, e, dessa forma, influenciou inúmeros diretores como Steven Spielberg, Quentin Tarantino, Brian De Palma e Martin Scorsese. Não podemos esquecer de Louis Garrel em “O Homem Fiel”; Bernardo Bertolucci (principalmente por sua homenagem “Os Sonhadores”); o brasileiro Cavi Borges (e seu “Um Filme Francês); Christophe Honoré (em todos, em especial “Chambre 212”); o canadense Xavier Dolan; o sul-coreano Hong Sang-soo. Sim, a lista é extensa e dificilmente acabará.
De que maneira a combatividade da fase de formação dos anos 1960 se transmuta no Truffaut dos anos 1970?
Luiz Baez:
Entendo a Nouvelle Vague como um acontecimento. E, para que algo de novo tenha lugar, é preciso romper com a situação anterior. Falo da chamada “tradição de qualidade”, combatida tanto nos textos quanto nos filmes de Truffaut. Foi o mesmo caso no Novo Cinema Alemão, quando o Manifesto de Oberhausen decretou a morte do Papas Kino (cinema de papai). É o mesmo caso em tantos outros cinemas novos. Sob a direção de Truffaut e nas mãos do fotógrafo Raoul Coutard, a câmera deixava o tripé e passava a acompanhar atrizes e atores pelas ruas francesas. Isso por si só já estabelece uma ruptura. Penso, por exemplo, na cena da corrida em Jules e Jim. No texto que escrevi para o catálogo, sob o sugestivo título “Cinema não é literatura”, trabalho, por um lado, essa construção de linguagem, e, por outro, a preparação de um terreno político para maio de 1968. Se os anos posteriores são menos combativos, tenho duas hipóteses: ou Truffaut já havia consolidado uma assinatura própria e dispensava novos deslocamentos, ou foi infiel ao acontecimento transformador da Nouvelle Vague. Eu, particularmente, prefiro acreditar na primeira.
Qual é o lugar simbólico de ver a Cinemateca do MAM ocupada por Truffaut?
Luiz Baez:
Pensar Truffaut é pensar a cinefilia. O próprio subtítulo de nossa mostra chama a atenção para isso. E pensar a cinefilia é pensar o papel das cinematecas. Frequentavam a Cinemateca Francesa de Henri Langlois jovens apaixonados pela Sétima Arte, no duplo exercício de ver e discutir filmes. Pela primeira vez, grandes cineastas eram colocados no mesmo patamar dos cânones da literatura francesa. Tal exercício crítico já era, para esses jovens, o próprio fazer cinematográfico; aprender a ver já era criar. Não sem motivo, nomes como Truffaut, Godard e tantos outros se aventuraram em suas próprias obras. Se pensarmos no cenário carioca, a Cinemateca do MAM é nosso locus de cinefilia, onde a película resiste à generalização do digital, e o debate resiste ao isolamento. É também o lugar onde Fabrício e eu nos conhecemos. Em março de 2018, eu exibia meu segundo curta-metragem, e ele mediava o debate. Ele não gostou do meu filme, mas isso pouco importa. A abertura do espaço para a discussão é o grande papel das cinematecas. E hoje aqui voltamos graças ao generoso olhar do Conservador-Chefe, Hernani Heffner, que prontamente acolheu nosso projeto. Se o crítico Truffaut redescobriu clássicos como Hitchcock, nós, enquanto críticos, queremos dar ao público a oportunidade de descobrir e redescobrir Truffaut. São 35 anos de uma ausência que se presentifica a cada rolo de 35 milímetros.

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