Tributo a Claire Denis no Visions du Réel

Tributo a Claire Denis no Visions du Réel

Rodrigo Fonseca

07 de janeiro de 2020 | 09h44

Rodrigo Fonseca
Preparando sua volta aos cinemas a partir de uma imersão na Nicarágua dos anos 1980, com o drama “The Stars at Noon”, a diretora francesa Claire Denis (do cult “Bom Trabalho”) vai ser homenageada no Visions du Réel International Film Festival (24 de abril – 2 de maio), em Nyon. O evento, uma das maiores vitrines mundiais para narrativas documentais, onde vai conceder a ela o Prix Raiffeisen Maître du Réel pelo conjunto de sua obra. No dia 28 de abril, a realizadora de 73 anos vai ministrar uma masterclass sobre suas reflexões estéticas ao lado de representantes da ECAL – Lausanne University of Art and Design: afinal, o espaço é uma das obsessões da cineasta. Seu último filme foi “High Life” (2018), sci-fi existencialista debatida no Rendez-Vous Avec Cinéma Français, da Unifrance, em janeiro do ano passado – o fórum deste ano vai começar no próximo dia 16.
“Tenho uma constante curiosidade por saber como as pessoas se comportam num ambiente de silêncio absoluto, de solidão. O que muda em nós em tempos de isolamento e o que muda nas relações a dois… ou em grupo?”, questionou Claire em uma conversa com o P de Pop, em 2019, no Rendez-vous de Paris, lembrando que investiu no documentário em “Vers Mathilde” (2005) e “Jacques Rivette – Le veilleur” (1994). “Meus filmes buscam desafiar o cinismo”.

https://www.youtube.com/watch?v=Cye5EHQL2Xg

Assistente de direção de mestres como Wim Wenders (em “Paris, Texas”), Costa-Gavras (em “Hanna K.”) e Jim Jasmusch (“Daunbailó”), no início de sua carreira, a cineasta parisiense desfruta hoje de um prestígio à altura daquela alcançada pelos realizadores com quem trabalhou. Em bíblias cinéfilas, como a revista “Cahiers du Cinéma”, a artista responsável pela direção das pérolas “35 doses de rum” (2008) e “Nenette e Boni” (Leopardo de Ouro no Festival de Locarno, em 1996) merece reverência não apenas pela contribuição que deu às atuais discussões sobre empoderamento feminino – em sua forma libertária de representar as mulheres na tela – mas pelos debates sociais e raciais que abriu, em cults como “Minha terra, África” (2009).
“Hoje, fala-se mais da participação de cineastas de matriz africana negra, mulheres e homens, na construção de uma filmografia que aborda sua realidade. É maravilhoso esse aumento de artistas negras e negros. Eles sempre estiveram do meu lado, nos meus filmes pois eu sempre enveredei por esse universo, abordando, sobretudo, o racismo, da maneira que posso”, disse a diretora. “Tenho raízes ancestrais no Brasil, em Belém do Pará. A questão que me preocupa é o ódio associado à diferença de tons de pele… o ódio que está associado à pobreza ao multiculturalismo”.
Em 26 de março, o Visions du Réel divulga sua programação.

p.s.: Nesta terça, às 18h30, o Espaço Itaú do Rio de Janeiro, em Botafogo, em parceria com a Cinemateca do MAM-RJ, sob a curadoria de Ricardo Cota, promove uma projeção de “Rio 40 Graus” (1955), de Nelson Pereira dos Santos, com apresentação de Cacá Diegues. O produtor e fotógrafo Luiz Carlos Barreto e o poeta Geraldo Carneiro comentam o cult que pavimentou a estrada dos tijolos amarelos por onde o Cinema Novo sonhou uma nova representação de Brasil. José Quental, do MAM, assume a mediação.

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