Tribeca vem aí, com Jamie Bell à flor da pele em ‘Skin’

Tribeca vem aí, com Jamie Bell à flor da pele em ‘Skin’

Rodrigo Fonseca

27 de março de 2019 | 14h29

O diretor Guy Nativ dá instruções a Jamie Bell nas filmagens de “Skin”

Rodrigo Fonseca
De 24 de abril a 5 de maio, Nova York emprestará um pedaço de seu território e de sua vida cultural para uma das mais prestigiadas vitrines do cinema independente em todo o mundo: o Festival de Tribeca, evento criado em 2002 por Robert De Niro em resposta ao vazio deixado pelo 11 de Setembro. Este ano tem a estreia do austríaco Christoph Waltz como cineasta (“Georgetown”), tem terror com Haley Bennett (“Swallow”, sobre uma grávida que engole objetos estranhos) e tem Margot Robbie atacando de ladra de bancos (“Dreamland”). Mas um dos títulos que mais prometem criar barulho a partir das telas nova-iorquinos tem o inglês Jamie Bell numa voltagem dramática que seus saltos, em “Billy Elliot” (2000), não eram capazes de alcançar. Revelado como o aspirante a bailarino confrontado pelo preconceito de um Reino Unido homofóbico, Bell vai levar Tribeca por uma jornada de purgação existencial e moral em “Skin”. Embora não seja uma descoberta de NY, pois foi exibido na Berlinale e no Festival de Toronto, este drama baseado em fatos reais, dirigido pelo israelense Guy Nattiv (de “Mabul”), é um dos títulos de desenho formal mais possante, em critérios estéticos e éticos, do evento americano. Seu protagonista é um supremacista branco, tatuado dos pés à cabeça, que cansou do ódio. Vale lembrar que o projeto é derivado do curta homônimo que deu um Oscar a Nativ em fevereiro.

“Durante o processo de composição de personagem, o desafio não era ser assustador e sim construir uma figura sonâmbula, na letargia de uma intolerância que nos deixa sonolentos”, disse Bell ao Estadão P de Pop. “O silêncio é um parceiro nessa construção”.

Seu trabalho foi inspirado por um documentário sobre Bryon Widner, um ex-presidiário, hoje um pesquisador universitário, que ajudou o FBI a acabar com células neonazistas. Na ficção, Nattiv surpreende, à direção, pelo modo no qual sua montagem, avessa a clichês, embaralha tempos narrativos distintos. É nítida, nas várias etapas da trajetória de redenção de Widner (Bell, luminoso), sua aversão aos crimes da família de racistas que o criou. Há um desejo de reintegração latente nele, que se amplia depois de seu encontro (apaixonado) com uma mãe solteira (a excepcional Danielle Macdonald, de “Patty Cake). “Skin” pode ser uma aposta para o Oscar 2019.

Logo na abertura de Tribeca será exibida uma cópia inédita de “Apocalypse Now” (1979) em uma celebração dos 40 anos do cult de Coppola.

p.s.: Diante do luto do cinema nacional pela perda de Domingos Oliveira (1935-2019), o o canal Curta! acaba de disponibilizar no Now, o streaming da NET, o documentário sobre o diretor  dirigido pela atriz Maria Ribeiro. Exibido no Festival É Tudo Verdade, “Domingos” registra o cotidiano do cineasta, com cenas de alguns de seus filmes mais emblemáticos.