Tribeca: Paxton Winters e o Yojimbo do morro

Tribeca: Paxton Winters e o Yojimbo do morro

Rodrigo Fonseca

23 de abril de 2020 | 17h11

Jaca (Bukassa Kabengele) bate um rango com Tati (Cassia Gil) e a sábia Dona Preta (Léa Garcia) em cena de “Pacificado”: Concha de Ouro em San Sebastián, na Espanha

Rodrigo Fonseca – #FiqueEmCasa
Tribeca hoje se pergunta quem é o cineasta americano, formado como artista após anos de dramaturgia e de registro do real (como cinegrafista e documentarista) em Istambul, que dirigiu o avassalador “Pacificado”, filme que deu ao Brasil a Concha de Ouro em San Sebastián, na Espanha, no fim de setembro. O realizador em questão é Paxton Winters, que rodou “Crude”, na Turquia, em 2003, e, há anos, vive no Rio de Janeiro. Seu nome, agora, é sensação entre os internautas que se deliciam com as atrações da maratona cinéfila nova-iorquina. Por conta da 40ena, Tribeca adiou a realização “física” de suas exibições. Mas o evento, agora postergado, será inaugurado futuramente pelo novo longa-metragem de Judd Apatow: “The King of Staten Island”. Mas parte de sua programação (inédita) já pode ser acessada online. Até domingo, dia 26 de abril, uma amostra saborosa do festival de NY estará no site: https://tribecafilm.com/festival. É lá que (já) está “Pacified”, a imersão de Paxton nas favelas cariocas mediada por um olhar egresso da seara indie da indústria audiovisual dos EUA: Darren Aronofsky. O realizador nova-iorquino, ganhador do Leão de Ouro em 2008 por “The Wrestler”, badalado internacionalmente por “Cisne Negro” (2010), assina como produtor o thriller social concebido com a ajuda dos moradores do Morro dos Prazeres, onde Paxton viveu. Os produtores brasileiros que foram seus parceiros nessa empreitada foram Paula Linhares e Marcos Tellechea. E essa empreitada tem uma senhora montagem. A edição é primorosa, sendo assinada por Aylin Tinel (e segundo o IMDB, também pelo bamba Affonso Gonçalves, hoje um dos maiores montadores do planisfério cinematográfico).

A premiada fotografia de Laura Merians faz uma acurada seleção do colorido real da periferia carioca

Laureado pelo júri popular da Mostra de São Paulo, “Pacificado” saiu de San Sebastián ainda com as láureas de melhor ator (Bukassa Kagengele, em atuação monumental) e fotografia (assinada por Laura Merians Gonçalves, com uma precisão cirúrgica no uso da cor). Trata-se de uma espécie de filme de samurai sobre o bushidô (código de honra) de um ronin egresso do tráfico, o Toshiro Mifune Jaca , papel de Bukassa. Jaca é um ex-traficante que regressa à favela da qual foi líder no passado, após 14 anos de cárcere, disposto a se reinventar. Na volta, precisa aprender a ser pai de uma filha que nunca conheceu, a adolescente Tati (Cassia Gil), e testemunha a queda de sua ex-mulher, Andrea (Débora Nascimento), nas garras do vício. Na entrevista a seguir, Paxton fala de sua experiência pessoal no RJ e explica como ela pesou na construção do longa.

Qual foi o Rio de Janeiro que você descobriu nas filmagens de “Pacificado”? Que universo social você, que já viveu no Rio, descobriu nesse projeto?
PAXTON WINTERS: Em primeiro lugar, gostaria de esclarecer que a maioria das descobertas que fiz sobre este universo social alternativo aconteceram antes mesmo de sonhar em fazer um filme como ‘Pacificado’. As pessoas muitas vezes pensam que eu me mudei para a favela para fazer este filme. De jeito nenhum. Não foi até que eu morei na favela por alguns anos, que decidimos escrever “Pacificado”. Foi algo que nasceu das amizades que fiz enquanto vivia lá.

Que universo social você, que vive no Rio, descobriu nesse projeto?
PAXTON WINTERS: A primeira coisa que me impressionou depois que comecei a passar um tempo no Morro dos Prazeres foi como todos se conheciam. Na verdade, era mais profundo do que isso, era como se todos tivessem “uma história” com todos. Percebi que o Morro dos Prazeres era, acima de tudo, um grande tecido de relações complexas. Foi isso que me excitou tanto em fazer um filme como “Pacificado”. A maioria dos filmes de favela foca apenas na violência. Mas essas comunidades vibrantes e lotadas são repletas de tantas outras histórias. Quero dizer, você tem todas essas pessoas vivendo, morrendo, lutando, amando – todos fazendo isso em relação direta uns com os outros e com sua comunidade em geral. Este era o lado que queríamos explorar quando nos propusemos a mostrar a “pacificação” porque, no final das contas, uma história humana universal de expansão da vida é muito mais interessante do que a natureza destrutiva da violência. E sem dúvida, a lição mais importante que aprendi, ao viver lá, foi que, não importa o quão difícil a vida fica, sempre há essa sensação de que tudo vai dar certo. Para mim, “Pacificado” é, em última análise, um filme sobre esta grande resiliência que tal comunidade oferece em face da adversidade. E essa experiência real de comunidade faz sentido, já que a maioria das pessoas que vivem lá de alguma forma se sente marginalizada, de uma forma ou de outra. Eu notei que quando eu estava no asfalto com bons amigos do Morro, eles muitas vezes não diziam de onde realmente eram.

O que falavam?
PAXTON WINTERS:
Eles diziam Santa Teresa ou Rio Comprido em vez de Morro dos Prazeres. Eu sabia, em primeira mão, que eles possuíam um profundo amor por seu bairro. Então eu gozava com eles, “Porque tens vergonha de dizer que és dos Prazeres?”. Eles, naturalmente, empurravam a reposta para trás, insistindo que eles não estavam envergonhados, mas que era mais um modo de evitar ser tratado de forma diferente depois de dizer onde viviam. Eu pensei que era besteira, no início. Até que eu comecei a viver em uma favela e encontrei pessoas até começaram a me tratar de forma diferente. E eu pareço um “Gringo da Gema”. Claro, Eu não estou dizendo isso de forma a buscar qualquer simpatia. Eu me mudei para lá quando eu tinha quase 40 e tinha uma escolha. Mas imagine a experiência de crescer com este tipo de julgamento constante desde a infância. Difícil não ser afetado por isso.
Às vezes, eu vi o preconceito imediato quando eu disse onde eu vivi. “Você não está receoso viver com aquele povo?”. Mas, ali, eu conheci algumas das melhores, mais éticas, pessoas reais naquela colina. E uma vez que você é aceito em uma comunidade como essa, o acolhimento é indescritível. Você rapidamente entende por que as pessoas deixam seus filhos soltos lá em cima. Viver e trabalhar lá me ensinou muito sobre o que é a verdadeira comunidade. Há um orgulho em fazer parte de tal comunidade. Há códigos de conduta e comportamento não falados que são muito diferentes de viver em qualquer outro lugar. E eu estava constantemente aberto e ouvindo para tentar entender e ter certeza de que eu não fiz besteira forma. Mas, na maioria das vezes, a questão é apenas aceitar.
A questão é… você pode ser quem você é e estará, de alguma forma, aceito. Há também a expectativa de cuidar de sua comunidade. Há frustrações em fazer parte de uma comunidade como esta? Claro, como em qualquer outra. Mas é também uma das experiências mais afirmativas da vida que eu pessoalmente já tive. Admito, o primeiro ano ou dois não foi muito fácil, para mim. Primeiro eu era “aquele gringo maluco”, depois apenas “o gringo”. Eventualmente eu me tornou “nosso gringo”. Mas a primeira vez que ouvi falar de “nosso gringo maluco”, senti que tinha chegado. O Prazeres parece o lugar mais seguro do mundo em um minuto e o mais aterrorizante em outro. Mas é real. É vibrante, é divertido, é confuso, e é lindo. Mas, o mais importante, é vivo. É impossível não sentir algo.

Você construiu Jaca como se ele fosse um samurai urbano, um Toshiro Mifune das favelas. O que é esse herói social que Bukassa Kabengele interpreta no filme?
PAXTON WINTERS: Para mim, Jaca é um personagem interessante porque ele opera em uma complicada sociedade multicamadas, onde cada nível é crivado de injustiça, mas ele ainda insiste em viver de acordo com seu próprio forte senso pessoal de justiça. É quase como se fosse a religião dele. Claro, isso não torna as coisas mais fáceis e cria uma série de problemas, pois ele deve encontrar soluções criativas para um fluxo interminável de dilemas complicados. E mais do que a sua resistência inegável, ele tem uma presença silenciosa, forte e inteligente que o define. Mais interessante do que como ele pode empunhar uma arma, é como ele emprega estratégia ou seu conhecimento das pessoas para navegar e sobreviver ao verdadeiro campo minado que é o seu mundo. Por esta razão, nós definitivamente olhamos para os grandes mestres cinematográficos, como Akira Kurosawa, esperando que pudéssemos embebê-lo com traços semelhantes ao seu grande personagem, Yojimbo – homem estoico de poucas palavras, que pensa antes de agir, mas, quando o faz, é decisivo e inabalável.

Tati tenta sobreviver no Rio das “pacificações”

Ainda sobre Tribeca… que filmaço é “Welcome do a Bright White Limbo”, de Cara Holmes. Este .doc/dança é mais do que um registro da performance “Hope Hunt”, da coreógrafa Oona Doherty, de Belfast: trata-se de um ensaio poético sobre o corpo como espaço de manifesto. Outro êxito do festival é “Asia”, belíssima reflexão da diretora Ruthy Pribar (Israel) sobre sororidade no âmbito do amor materno, na observação do dia a dia de uma imigrante russa às voltas com as descobertas sexuais e afetiva de sua filha cadeirante.

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