Tribeca à espera de Don Cheadle

Tribeca à espera de Don Cheadle

Rodrigo Fonseca

10 de junho de 2021 | 12h13

Dirigido pelo ator, “Miles Ahead”, de 2016, nunca estreou por estas bandas

RODRIGO FONSECA
Tribeca está contando os minutos para ver o conferir “Nem Um Passo Em Falso” (“No Sudden Move”), com a grife do diretor Steven Soderbergh (Palma de Ouro 1989 por “sexo, mentiras e videotape”), somando o talento de Benicio Del Toro com o de Don Cheadle, no elenco. Na trama, um grupo de criminosos precisa unir forças para encobrir uma falcatrua. Há quem diga que se trata do trabalho mais luminoso de Cheadle, que ganhou um status pop, nos últimos onze anos ao viver o herói Máquina de Guerra, da Marvel. Essa visibilidade recente pode trazer de volta um dos filmes mais ousados de sua carreira, no qual ele esteve no posto de diretor e no de protagonista: “Miles Ahead”. Exibido no Festival de Berlim de 2016, a produção acabou nunca estreando aqui.
Mais contido de todos os atores de grande porte na ativa hoje nos EUA, capaz de racionalizar gestos simples, como um coçar de nuca ou um abrir portas, Cheadle se liberta de seu ferramental cartesiano na condição de diretor, fazendo de “Miles Ahead” algo anticerebral, numa experimentação de tempos e de planos de realidade.
A decisão de reconstituir a vida do trumpetista Miles Davis (1926-1991), um mito do jazz, não se dá a partir de uma estrutura de reminiscência totalizante, no qual toda a sua vida é passada em revista, nos moldes de uma cinebiografia padrão. Opta-se aqui por um recorte metonímico – e idealizado – no qual fatos são meros detalhes. Não se trata de um filme sobre Miles e sim de um filme com Miles, a partir do qual o diretor (também na condição de protagonista) presta não apenas um tributo ao jazzista, mas á tradição da blaxploitation como uma amplificação de gêneros, com base na representação das populações negras.

Cheadle constrói a trama com base num dos períodos mais controversos da carreira do instrumentista: uma fase da década de 1970 na qual ele se exilou dos palcos, compondo sem gravar, sob os efeitos de montanhas de cocaína. A chegada de um suposto jornalista (Ewan McGregor) mexe com sua inércia, engatando-o em um torvelinho de perseguições típico de thrillers de gângsters da Nova Hollywood, suado, sujo e sensual.
Embalado por música do começo ao fim, com direito a uma participação do pianista Herbie Hancock tocando com o próprio Cheadle ao trumpete, “Miles Ahead” usa suas melodias como uma espécie de tapeçaria do Tempo. A partir dela entendemos as fases do jazz e quanto elas espelham uma transformação social da música com base nas transformações trazidas pelas lutas raciais. A rítimca do sorpo cria uma tensão crescente, bem alinhada ao filão policial. Há uma intriga de predestinação para o “herói torto” conforme o longa-metragem se abre para os perigos em que o jazzista se envolve depois que uma fita com algumas gravações inéditas é surrupiada de seu apartamento. A confusão começa quando ele recebe a visita do (quase) repórter da revista Rolling Stones Dave Brill (Ewan McGregor) pedindo uma entrevista. Na conversa com ele e na luta para reaver seus originais, ele acaba se lembrando de sua relação com a dançarina Frances Taylor com quem foi casado de 1958 a 68. O papel ficou com a atriz Emayatzy Corinealdi, elogiada na Berlinale por seu desempenho. Nessas idas e vindas no tempo, o ator retrata Miles com uma caracterização mais polida e uma postura mais elegante.

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