‘Três verões’ para aquecer festivais: Havana e RJ

‘Três verões’ para aquecer festivais: Havana e RJ

Rodrigo Fonseca

10 de dezembro de 2019 | 11h30

RODRIGO FONSECA
Começa nesta terça a seleção competitiva de ficções da Première Brasil do Festival do Rio 2019, com “Macabro”, de Marcos Prado, abrindo a peleja pelo troféu Redentor, que tem, entre seus concorrentes, um dos principais sucessos da maratona cinéfila de Cuba deste ano: o delicioso “Três Verões”, de Sandra Kogut. Ontem, o novo longa-metragem diretora de “Mutum” (2007) foi exibido no Festival de Havana, em concurso, vitaminado pelo carisma de Regina Casé. A atriz, que vem arrebatando lágrimas na novela das 21h, “Amor de mãe”, caiu como um sol nas telonas cubanas, a julgar por reações locais. Lá pelas bandas de Fidel, Sandra compete com “Bacurau”, de Kleber Mendonça e Juliano Dornelles; com “A Vida Invisível”, de Karim Aïnouz; e com “Divino Amor”, de Gabriel Mascaro.
Na Première, a exibição de “Três Verões” vai ser neste sábado, às 21h40, no Estação Net Gávea, cuja telona vai ganhar um colorido esmaecido, de um realismo seco, na fotografia de Ivo Lopes Araújo. Na trama, estamos na estação do sol, do calor: a cada verão, entre Natal e Ano Novo, o casal Marta (Gisele Fróes) e Edgar (Otávio Müller, arrebatador) recebe amigos e família na sua mansão espetacular à beira-mar, apoiados no empenho de uma fiel empregada, Madá (Regina, em estado de graça). Em 2015, tudo parece ir bem por lá, mas, em 2016, a mesma festa é cancelada. O que acontece com aqueles que gravitam em torno dos ricos anfitriões? Essa é a questão que move o filme e a vida de Madá. Segundo Sandra contou a P de Pop, ela “nasceu num endereço que a destinou à falta de oportunidades, mas, como ela é superinteligente, talentosa e despachada, ela se vira”, diz a diretora, que trouxe ainda sua parceira de “Campo Grande” (2015), a sempre genial atriz Carla Ribas, para o elenco.
Lançado durante o Festival de Toronto (TIFF), no Canadá, “Três Verões” sugere, acima de tudo, uma sensação nietzschiana de eterno retorno: cada ciclo de Natal e Ano Novo parece revelar um palmo a mais na cova moral da classe média (alta) do Brasil, porém reforça a sensação de que o abismo sempre esteve ali. Mas o quanto esse debate é histórico, o quão antigo (e perene) ele é e o quanto ele reflete o presente, Sandra?

“O debate é histórico, presente e futuro, né. É gigante. E ao mesmo tempo fazemos parte dele. Então, certas coisas só enxergamos melhor com a passagem do tempo”, diz a cineasta. “Eu achava que o filme falava do Brasil contemporâneo, que se desenrolava em frente aos nossos olhos enquanto filmávamos. Nós filmamos antes das eleições de 2018. Na montagem, percebi que o filme é, na verdade, um retrato do ‘momento antes’. O momento imediatamente antes de uma grande ruptura, que foi o que as eleições de 2018 trouxeram: a chegada da extrema direita ao poder. Quando a gente vê o filme a gente percebe que os sinais do que vem pela frente estão todos lá, mas os personagens não percebem, assim como nós também não víamos. E que sinais são esses? Os de uma sociedade onde os laços coletivos estão desaparecendo, onde todo mundo só fala de dinheiro, ricos e pobres, onde é cada um por si e todo mundo sonha em ser patrão. É o neoliberalismo em plena potência”.

Confira, a seguir, a lista completa de longas concorrentes no Festival do Rio 2019:
Ficção
Acqua Movie (Acqua Movie), de Lírio Ferreira, 105 min – PE
A Febre (The Fever), de Maya Da-Rin, 98 min – RJ
Anna (Anna), de Heitor Dhalia, 106 min – SP
Breve Miragem de Sol (Burning Night), de Eryk Rocha, 98 min – SP
Fim de Festa (Party Over), de Hilton Lacerda, 94 min – PE
M8 – Quando a Morte Socorre a Vida (M8), de Jeferson De, 88 min – RJ
Macabro (Macabre), de Marcos Prado, 103 min – RJ
Pureza (Pureza – The Movie), de Renato Barbieri, 102 min – DF
Três Verões (Three Summers), de Sandra Kogut, 94 min – RJ

Documentário
Amazônia sociedade anônima (Amazon Uncovered), de Estevão Ciavatta, 80 min – RJ
Favela É Moda (Favela Is Fashion), de Emílio Domingos, 75 min – RJ
Fé e Fúria (Faith and fury), de Marcos Pimentel, 103 min – MG
Flores do Cárcere (Prison Flowers ), de Paulo Caldas e Barbara Cunha, 70 min – SP
Mangueira em 2 Tempos (Mangueira in 2 Beats), de Ana Maria Magalhães, 90 min – RJ
Minha Fortaleza, os Filhos de Fulano (My Fortress), de Tatiana Lohmann, 84 min – SP
Ressaca (Vertigo of Fall), de Vincent Rimbaux e Patrizia Landi, 86 min – RJ
Sem Descanso (Restless), de Bernard Attal, 78min – BA

Novos Rumos
30 Anos Blues (30 Years Blues), de Andradina Azevedo e Dida Andrade, 91 min – SP
A rosa azul de Novalis (The Blue Flower of Novalis), de Gustavo Vinagre e Rodrigo Carneiro, 70 min – SP
Casa (Home), de Letícia Simões, 93 min – PE
Chão (Landless), Camila Freitas, 110 min – DF
A Torre (The Tower), de Sergio Borges, 72 min – MG
Sem Seu Sangue (Sick, Sick, Sick),de Alice Furtado, 100 min – RJ
Sete Anos em Maio (Seven Years in May), de Affonso Uchôa, 42 min – MG
Terminal Praia Grande (Terminal Station), de Mavi Simão, 74 min – MA

p.s.: Entre as pedidas estrangeiras do dia do Festival do Rio, vale atenção redobrada o drama com CEP macedônio “Deus existe e seu nome é Petúnia”, da diretora Teona Strugar Mitevska. Ganhador do Prêmio do Júri Ecumênico da Berlinale, o longa é um estandarte da afirmação do feminino. Na trama, uma jovem que se apodera de uma relíquia vetada a mulheres vira um alvo para o ódio de seus conterrâneos. Sua heroína é uma historiadora desempregada, Petrunya, ou Petúnia (Zorica Nusheva), cheia de problemas com a mãe, resgata das águas de um rio gelado uma cruz cristã que foi jogada lá por um padre em um ritual de fé só para homens. Seu gesto incendeia uma onda conservadora de repúdio e ela acaba na delegacia, para depor sobre sua “transgressão”. A projeção acontece às 14h, no Cine São Luiz. Tem mais sessão dele nesta quarta, às 21h, no Estação Ipanema.

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