‘Três verões’: ensaio sobre um Brasil de náufragos

‘Três verões’: ensaio sobre um Brasil de náufragos

Rodrigo Fonseca

09 de setembro de 2020 | 17h56

Situados em pontos distantes da pirâmide de consumo da economia brasileira, Seu Lira (Rogério Fróes) e a Madá (Regina Casé) vão se cruzar na linha da ressaca moral em “Três Verões”: dia 16 no Telecine Open Air e na streaminguesfera

Rodrigo Fonseca
Apesar de todos os problemas que encara este ano, o cinema brasileiro tem que bater no peito, em sinal de orgulho, por ter conseguido, nestes seis meses de pandemia (e de circuito exibidor fechado), lançar, em distintas mídias, joias como “Fim de Festa”, “Dentro da Minha Pele”, “Breve Miragem de Sol”, “Narciso em Férias” e, agora, o fino “Três Verões”. Sandra Kogut volta ao ar com seu possante ensaio sobre os náufragos do maremoto moral (e econômico) brasileiro, via streaminguesfera, a partir do dia 16 de setembro, no Telecine, Now, Vivo Play e Oi Play. Há uma semana, o longa-metragem, que deu a uma luminosa Regina Casé o troféu Redentor de Melhor Atriz no último Festival do Rio, mobiliza uma rede drive-in. No próprio dia 16, este estudo endêmico sobre a corrupção – feito a partir da decadência de uma família aristocrática, vista pelo prisma da governanta – vai ganhar a telona tamanho GGG (325m²) do Telecine Open Air, no RJ, na Marina da Glória. O regresso de Sandra à telinha, cinco anos depois de “Campo Grande” (2015), abre as alas do sucesso para a maior tela ao ar livre do planeta (do tamanho de uma quadra de tênis), de volta agora em versão drive-in. A capacidade é para 72 carros. Quem estiver neles vai ser brindado com uma narrativa com toques de Éric Rohmer (“O Joelho de Claire”), que papou prêmios nos festivais de Atalya, na Tuquia; de Málaga, na Espanha; e de Havana; em Cuba Fotografada com o realismo seco habitual de Ivo Lopes Araújo (de “Tatuagem”), a produção chega com prestígio após a acolhida boa que teve em Toronto (TIFF), há um ano. Na trama, escrita por Sandra e Iana Cossoy Paro, estamos na estação do sol, do calor: a cada verão, entre Natal e Ano Novo, o casal Marta (Gisele Fróes) e Edgar (Otávio Müller, arrebatador) recebe amigos e família na sua mansão espetacular à beira-mar, apoiados no empenho de uma fiel empregada, a governanta Madá (Regina, em estado de graça). Em 2015, tudo parece ir bem por lá, mas, em 2016, a mesma festa é cancelada. Há ecos de corrupção no ar. O patriarca, vivido pelo veterano Rogério Fróes, está cada vez mais debilitado, mas sofre com a situação do filho, que parece encalacrado com a Justiça. Mas o que é que, de fato, acontece com aqueles que gravitam em torno dos ricos anfitriões? Essa é a questão que move o filme e a vida de Madá. É sobre esse dilema que Sandra fala, aqui, ao P de Pop.

O que a Madá representa dos novos caminhos sociais do Brasil, do desenho ou redesenho das classes?
Sandra Kogut:
Quantas Madás não existem no Brasil, né? Tantas. A gente acha que conhece essas mulheres, mas se surpreende quando ouve as histórias de vida que elas têm pra contar. Madá é uma guerreira, inteligente, criativa. Está sempre pensando lá na frente, mas nasceu num endereço que não deu a ela acesso a nada, ou quase nada. Nesse Brasil neoliberal que o filme retrata, do “cada um por si”, do “salve-se quem puder”, ela é uma personagem entre dois mundos. Ela é, ao mesmo tempo, a empregada dos patrões e a chefe dos empregados. Nesse projeto de país onde todo mundo só fala de dinheiro (seja por desespero, seja por ganância), Madá está tentando ser patroa ela também, porque é o único caminho da sobrevivência. Esse é o Brasil que levou ao Poder o que estamos vendo hoje.

Sérgio Mekler é teu montador assinatura e foi premiado pelo filme, junto com Luisa Marques, em Havana. O que ele agrega a essa narrativa e de que maneira ele vem desenhando a tua visão do mundo ao longo do tempo?
Sandra Kogut:
Serginho é um amigo e parceiro da vida toda. Nós nos conhecemos quando estávamos todos começando, e descobrimos muita coisa desse mundo audiovisual juntos. Eu já fui conversando com ele desde as primeiras versões do roteiro, como gosto de fazer com todo mundo. Considero que alguns parceiros (o Ivo Lopes Araújo, fotografo; o Marquinho Pedroso e o Thales Junqueira, da direção de arte; a Lara Carmo, assistente de direção, para nomear alguns) são parceiros do filme, e não só do setor onde vão atuar. Gosto de falar de tudo com todos. O grande desafio de um filme é esse: formar um todo, onde nada exista sem o resto. Desta vez, o Serginho entrou mais pra frente na edição, por questões diversas. Mas é sempre uma alegria trabalhar com ele. Eu também edito, o que é bom e ruim. É bom porque sei o valor desse trabalho. É ruim porque participo de tudo, inclusive vou lá na ilha sozinha e faço um monte de coisa. Mas o Serginho tem muita paciência comigo. O que mais aprecio nele é um olhar muito afiado para o lado humano, os personagens, a emoção. Serginho é maravilhoso nisso. Ele nunca esquece dos personagens. A Luísa eu conheci através dele, e ela é talentosíssima. É a primeira vez em que trabalhei com ela. Tem um perfil mais ligado às artes plásticas, de uma sensibilidade estética muito apurada.

A fotografia do drama de Madá é assinada por Ivo Lopes Araújo

“Campo Grande” é quase um road movie pela Zona Oeste. Mas é também uma reflexão sobre um mundo de classe média alta que está ruindo. O mote de “Três Verões” é o mesmo, de alguma medida. O que a decadência representa nessas duas investigações afetivas? O quanto “Campo Grande” te leva aos “Três Verões”?
Sandra Kogut:
Os dois filmes têm muitas conexões, apesar de serem bem diferentes. Ambos fazem uma espécie de cartografia das relações sociais e das relações de poder no Rio, o que também é emblemático do Brasil, claro. No “Campo Grande”, você tem as questões de raça, gênero, classe social totalmente atravessadas pelas questões existenciais. A uma certa altura, dois personagens que vivem em mundo diferentes – uma mulher de meia idade da classe média alta e um menino da periferia –entendem que estão no mesmo lugar na vida: entre dois mundos. Já não são mais o que eram, e ainda não viraram outra coisa. No “Três Verões” também existe um encontro assim, entre o personagem do velho pai, o Lira (Rogério Fróes), e a Madá (Regina Casé). Ambos são como náufragos encalhados naquela casa. E aquela casa é o Brasil.

Seus filmes partem sempre de microcosmos: o mundinho de “Mutum”, aquele apartamento assombrado por uma separação na Zona Sul de “Campo Grande”; o balneário em mutação de “Três Verões”. É uma marca autoral. O que o espaço modula na sua obra? Qual é o lugar do espaço como escultor do seu tempo narrativo?
Sandra Kogut:
Os espaços nos meus filmes são, ao mesmo tempo, muito concretos e reais – lugares que existem, que determinam muita coisa na vida nos personagens – e imagens mentais. Eles estão traduzindo o mundo interior desses personagens, como eles veem a vida. No “Três Verões”, o espaço da casa também materializa as relações de poder, de classe (aliás, no “Campo Grande” também). À medida que os empregados vão ocupando mais espaço, eles vão se transformando, mudando de lugar. Os patrões saem da sala, e tudo se reorganiza. Mas mesmo quando as coisas parecem melhorar para Madá e seu grupo, eles nunca deixam de ser figurantes. Assistem a festa de uma janelinha, no fundo. Seguem sendo marginais.

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