‘Tremores’ de tela em San Sebastián e ‘Febre’ em Locarno

‘Tremores’ de tela em San Sebastián e ‘Febre’ em Locarno

Rodrigo Fonseca

07 de agosto de 2019 | 08h15

Jayro Bustamante (de fones sobre os ombros) nos sets de “Temblores”

Rodrigo Fonseca
Teremos dose dupla de Jayro Bustamante, diretor guatemalteco que surpreendeu o planisfério cinéfilo em 2015 com “Ixcanul”, no 67º Festival de San Sebastián (20 a 28 de setembro): ele entra na mostra Horizontes Latinos, do evento espanhol, com o ainda inédito “La Llorona”, sobre um genocídio em seu país, e com o genial “Temblores”. Festejado em Berlim, este drama de tons sociais aborda o explosivo tema da “cura gay” e, a reboque dele, debate homofobia. O par de filmes entra na seleção de 15 atrações do setor de latinidades da maratona cinéfila dos espanhóis, a ser aberta por “La cordillera de los sueños”, do chileno Patricio Guzmán, que deu ao veterano realizador o troféu L’Oeil d’Or, a Palma dos documentários, em Cannes, em maio. Gael García Bernal, Paula Hernández, Romina Paula, Federico Veiroj e Andrés Wood estão na briga por prêmios deste Latin Horizons, incluindo o longa colombiano “Monos”, de Alejandro Landes, que nasceu no Brasil, em 1980.

Pouco se sabe sobre “La Llorona”, que há de encerrar os Horizontes Latinos, fora de concurso, mas há uma forte torcida, na competição, pelo longa de Bustamante sobre a nociva conexão entre fundamentalismo e preconceito. Centrado no processo de “reeducação sexual pela fé” de um consultor financeiro que se sentiu mais feliz nos braços de seu namorado do que em seu casamento heteronormativo, o drama “Temblores” (ou, literalmente, “Tremores”) frequentou listas dos melhores filmes do 69º Festival de Berlim sempre em posições de destaque. É uma vitória para o ainda incipiente cinema da Guatemala (onde, anualmente, só um longa-metragem de ficção consegue espaço internacional) e uma conquista ainda maior para o mais premiado realizador daquelas terras: Jayro Bustamante.

Aos 42 anos, ele ganhou notoriedade em 2015, quando seu longa de estreia na direção, “Ixcanul” – sobre as descobertas afetivas e sexuais de uma jovem indígena, à beira de um vulcão – virou sensação na Berlinale. Foram 22 prêmios, já em sua arrancada. Agora, ao fazer tremer a homofobia guatemalteca, a partir da história de Pablo (Juan Pablo Olyslager) em meio à cura gay (uma das polêmicas mundiais do momento), Bustamante faz um balanço do quão intolerante a América Latina é.

 

O quanto as religiões, na Guatemala, condenam a homoafetividade?
Jayro Bustamante: 
Como em qualquer país latino, onde o machismo impera, você ser gay, índio e comunista te torna um excluído. Na Guatemala, não existe uma proibição oficial a se viver uma relação homoafetiva, mas o cerco moral é violento, até porque, lá, em muitos cultos de credos evangélicos, os gays e as lésbicas são odiados. A Igreja Evangélica tem muito poder nas classes menos abastadas, entre as quais dissemina a ideia de que curar um gay é amar um gay.

Como você imagina que a carreira do seu “Temblores” pode vir a ser no Brasil, nesta atual fase conservadora do país?
Jayro Bustamante: 
Na Guatemala, a maioria dos currículos enviados a empresas, por candidatos a vagas de empresa, trazem a religião da pessoa discriminada. Por aí você já tira a conclusão de como o meu país é. Lá, a pessoa que resolve “sair do armário”, assumir-se, precisa passar por um psicólogo pra ter certeza de que não está confusa. Não sabia desse caso do Brasil e não sei como vamos ficar. Berlim quis a gente, pelo menos.

O quanto essa passagem pela Berlinale oxigena a indústria cinematográfica guatemalteca?
Jayro Bustamante: 
Antes de “Ixcanul”, nenhum longa de ficção nosso havia tido visibilidade em um festival europeu da tamanha importância. Venho de um país de população maia, de gente ameríndia. Mas lá, quando eu estava começando aquele projeto, muita gente dizia que eu não iria adiante, pois a classe média não pagaria ingresso para ver índios nas telas, uma vez que pode vê-los, de graça, nas ruas. Depois que o filme deu certo, minhas atrizes tornaram-se celebridades. Como a indústria lá é muito pequena e recente, existe a curiosidade pelo que aparece. Não sei de “Temblores” passa ou não. Mas há expectativa.

Qual é a noção de felicidade que cabe num mundo como o de “Temblores”?
Jayro Bustamante: 
Liberdade. Ser feliz é ser livre pra ser o que se deseja.

Cena de “A febre”, de Maya Da-Rin, que briga pelo Leopardo de Ouro de Locarno

Nesta quarta-feira, “Magari”, drama italiano de Ginevra Elkann, vai abrir o 72º Festival de Locarno, na Suíça. Na quinta, o longa brasileiro “A Febre”, da diretora Maya Da-Rin, inaugura a disputa pelo Leopardo de Ouro. A diretora fez barulho no exterior, em 2010, com “Terras”. Agora, de volta à direção, ela retrata a realidade de Manaus, ao seguir a rotina de Justino, um indígena viúvo de Manaus que ganha a vida como vigia de um porto de cargas.

Na trama de Maya, Justino entra em um estado febril no momento em que o bairro onde mora é assolado pela presença de um animal selvagem. O filme de Maya vai concorrer com diretores de prestígio como a dupla búlgara diretoras Mina Mileva e Vesela Kazakova (em concurso com “Cat in the wall”); os portugueses Pedro Costa (um popstar autoral, no páreo com “Vitalina Varela”) e João Nicolau (com “Technoboss”); e o japonês Kôji Fukada, que foi indicado ao evento com “Yokogao”.

Vai ter uma dupla dose de Brasil na seleção de curtas-metragens Pardi di Domani, do festival mais importante da Suíça, com a animação “Carne”, de Camila Kater (que traz a baiana Helena Ignez em seu elenco) e com “Chão de rua”, de Tomás von der Osten. Vai ter ainda um exercício narrativo com duração de 23 minutos da dupla Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, chamado “Swinguerra”, na seção Moving Ahead. E, numa seara de retrospectivas, a seleção de 47 produções ligadas à representação das populações negras, chamada Shades of Black, dá espaço para marcos da integração racial como “Abolição”, de Zózimo Bulbul (1988), e para “Amor maldito”, de Adélia Sampaio (1984).

Locarno segue buscando holofotes com uma exibição da comédia “Cecil Bem Demente” (2000), com Melanie Griffith, em honra ao conjunto da obra do cineasta John Waters. Dona de dois Oscars, a atriz americana Hilary Swank vai ser homenageada pelo conjunto de sua carreira nas telas. As crianças também terão vez no festival, com a exibição da animação infantil “A famosa invasão dos ursos à Sicília”. Quem dirige esta fábula é um dos maiores autores de HQ da Europa, o italiano Lorenzo Mattotti: com € 11 milhões nas mãos, ele transformou um texto do escritor Dino Buzzati em fantasia filmada. Na trama, o Rei Urso invade uma cidade atrás de seu filhote, que conta com a ajuda de um mágico e de uma jovem para voltar à sua vida na natureza.

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