‘Tre Piani’: novo Moretti estreia aqui dia 27

‘Tre Piani’: novo Moretti estreia aqui dia 27

Rodrigo Fonseca

07 de janeiro de 2022 | 11h25

O cartaz brasileiro do novo longa do realizador de “O Quarto do Filho” (2001), baseado na prosa de Eshkol Nevo

RODRIGO FONSECA
Lar pra algumas das mais tonitruantes vozes autorais da indústria audiovisual, de Lucia Murat a Abderrahmane Sissako, passando por Naomi Kawase e Pablo Trapero, a Imovision vai agitar o primeiro trimestre cinéfilo do Brasil lançando iguarias (de sabor rascante pra alguns, mas de um gostinho irrecusável para outros) de alguns dos mais aclamados realizadores do Velho Mundo em circuito. Fora o já badalado lançamento de “Benedetta”, de Paul Verhoeven, na quinta que vem, Jean Thomas Bernardini, distribuidor responsável por esse sele de excelência no circuito brasileiro, agendou para o fim do mês, no dia 27, a estreia do avassalador “Tre Piani”. É uma incursão de Nanni Moretti nas veredas do melodrama, despida de sua ironia habitual, mas tonificada por uma mirada singular sobre o desmantelo das relações familiares nos novos tempos. Foi um dos títulos mais polêmicos da disputa de Cannes em 2021.
Duas décadas se passaram desde “O Quarto do Filho”, filme que deu à Itália sua única Palma de Ouro neste século. E, agora, 21 anos depois, seu realizador retorna aos cinemas atrás e à frente das câmeras de seu filme de maior verve melodramática. O enredo, centrado no romance do israelense Eshkol Nevo, é um ímã de lágrimas. Na trama, três famílias que vivem em andares diferentes de um mesmo apartamento e sofrem abalos afetivos ligados a parentes ou amigos. Monica (Alba Rohrwacher), que acaba de ter um bebê, tem que lidar com o cunhado acusado de corrupção; Lucio (Riccardo Scamarcio, impecável em cena) é consumido pela dúvida acerca de uma possível violência sexual contra sua filha; e Dora (a ótima atriz Margherita Buy) e seu marido juiz (papel de Moretti) precisam lidar com a condenação de seu filho, por atropelamento. E cada eixo dramático desse se cruza com elegância. É difícil reter as lágrimas. E os aplausos para um diretor inquieto, que já prepara um novo filme: “Il Sol Dell’Avvenire”.

Aliás, no Reserva Imovision, o streaming que Jean Thomas montou na pandemia, tem Moretti a rodo. Por lá é possível encontrar: “Eu Sou Autossuficiente” (1976), “Ecce Bombo” (1981), “Sonhos de Ouro” (1983) e “A Coisa” (1990). Passear por essas joias é excursionar por um dos derradeiros períodos gloriosos do cinema italiano moderno, ceifado por Silvio Berlusconi em meados dos anos 1980 e repaginado, já com resquícios de pós-modernidade, em 2008, com as vitórias de “Il Divo” e “Gomorra” em Cannes.
Em 2019, a revista “Cahiers du Cinéma” incluiu “Minha Mãe” (“Mia Madre”, 2015), de Moretti, entre os 10 Mais da Década, polemizando com essa (e outras) escolhas. Este comovente longa-metragem ganhou o prêmio do Júri Ecumênico de Cannes (embora merecesse mais) por seu olhar sobre conciliações (de família e de arranjos governamentais) que se mostram urgentes para a manutenção dos pulmões europeus se oxigenarem com ventos novos. Tudo é apresentado numa mescla de riso e pranto por trás da saga de uma cineasta (a já citada e sempre ótima Margherita Buy) às voltas com a doença terminal de sua mãe (Giulia Lazzarini, mito do teatro europeu). A diretora, também chamada Margherita, está no processo de filmagem de um longa politizado sobre conflitos entre operários e donos de fábrica. Para complicar sua vida, o tal projeto tem como astro um ator hollywoodiano de vaidade GG e talento tamanho PP: Barry Huggings, vivido por Turturro. Em todas as projeções do longa pelo mundo, o ator assalta o riso da plateia.

Prazer é um benefício inerente aos filmes de Moretti, ao longo de seus 49 anos de carreira. Mas aqui há algo mais do que satisfação em se comover e rir. O que há de mais encantador em “Mia Madre” – e que mostra o quanto Moretti é essencial para o cinema da Itália se proteger da letargia- é a habilidade com que o realizador se apropria de um quiprocó afetivo (a situação de uma mãe convalescente) como metáfora para a situação de anemia social, econômica e política em que a Europa se encontra. A palavra “Amanhã” frisada num diálogo do climax ilustra a (psico)análise social proposta pelo longa.

Moretti dedicou 49 de seus 68 anos de vida ao cinema e já tem um filme novo, “Il Sol Dell’Avvenire”, a caminho

Há três anos, Moretti retornou às telas brasileiras por vias documentais. Em meio a um embate com uma figura conservadora do Chile, avessa a entrevistas, em um dos mais tensos momentos do documentário “Santiago, Itália”, o cineasta italiano escuta “Só abri uma exceção de falar com o senhor porque me disseram de sua imparcialidade” do arredio entrevistado, sendo forçado a extrair uma suposta “neutralidade” de onde ela não existe. Na mesma hora, o veterano diretor retruca: “Eu não sou imparcial”. É uma forma de afirmar a linha política que vai guiar a colheita de depoimentos de uma experiência documental acerca do trauma causado pelo fim do governo de Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973.
Só que esse memorialismo chega ancorado numa linha autoral típica de Moretti, consagrado por longas-metragens como “Caro diário” (1993) e “Aprile” (1998). Existe um esporte definido por ele como um “passatempo tipicamente italiano” que é a lamentação: “Venho de uma pátria onde as pessoas reclamam e se fazem de vítimas para não encarar os erros que cometem em relação à política, em uma atitude de total descaso com o próximo”, disse o diretor de “Ter Piani” ao P de Pop, na França, enquanto começava as penosas filmagens do documentário “Santiago, Itália”.

O projeto é uma viagem pelo passado do Chile, com base no golpe militar que depôs Allende e a utopia de um regime de tons socialistas na América Latina. Moretti colhe diferentes depoimentos – de artistas, de líderes operários, de professores e dos cineastas Miguel Littín e Patricio Guzmán – a fim de construir um mosaico de vozes acerca do trauma da perda da liberdade democrática. A intervenção totalitária, assunto que inspirou o .doc do realizador de “O Crocodilo” (2006), é recorrente em sua obra autoralíssima.
“Não diria que sou um cineasta político, mas sim alguém que se interessa pelos conflitos que chegam à minha porta, mesmo que eu não saia à procura deles. A realidade vem e se faz notar em suas mazelas sociais, em seus desrespeitos ao bem alheio. Mesmo quando eu filmo algo que se passa em outra realidade, outro mundo, é da Itália que eu estou falando, com todas as contradições que a acomodação moral nos causou”, explica o cineasta, que lançou o longa sobre a História chilena no Festival de Turim, em dezembro, em uma entressafra de projetos ficcionais. “Desde a minha estreia, em 1973, eu sou um ator que dirige, para ter plena liberdade de buscar uma voz própria, que surpreenda o espectador”.
“Santiago, Itália” foi elencado pela “Cahiers du Cinéma”, tiete de Nanni, como um dos filmes mais importantes de 2019, sobretudo pela forma como o cineasta recria memórias sobre a tortura no governo militar que depôs Allende. Há uma série de depoimentos sobre crimes de Estado, com destaque para o depoimento de uma jornalista que fala sobre como sua torturadora, uma militar grávida, obrigava-a a costurar um casaco para seu bebê.

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