Hoje trash, Nicolas Cage faz 40 anos de cinema

Hoje trash, Nicolas Cage faz 40 anos de cinema

Rodrigo Fonseca

17 de fevereiro de 2021 | 11h45

Nicolas Cage em “Willy’s Wonderland”: um thriller trash de tintas sobrenaturais

RODRIGO FONSECA
Bancando Sérgio Chapelin na Netflix, como apresentador da série “A História do Palavrão” na Netflix, e ligado a uma leva de filmes feitos em fundo de quintal, todos bem aquém de seu talento GG, Nicolas Cage, sobrinho de Francis Ford Coppola, aspirante a Homem de Aço (num projeto jamais filmado) e candidato ao posto de pior administrador de carreira da História do Cinema, deveria estar comemorando seus 40 anos de profissão. Deveria ainda celebrar os 25 anos de sua consagração com o Oscar. A estatueta mais cobiçada do entretenimento foi para as mãos dele em 25 de março de 1996, por sua brilhante atuação como o roteirista alcoólatra Ben Sanderson em “Despedida em Las Vegas” (1995), de Mike Figgis. Ali, uma trajetória profissional singular, que começou em 1981, ganhou voos de prestígio definitivo, ao mesmo tempo em que ele acenou com uma fase blockbuster. Antes de ser Sanderson, ele brilhou em cults como “Rumble Fish – O Selvagem da Motocicleta” (1983), “Birdy – Asas da Liberdade” (1984), “O Feitiço da Lua” (1987) e o seminal “Coração Selvagem”, Palma de Ouro de 1990. Mas o potencial de dor que alcançou sob a direção de Figgis, guiado pela percepção de que uns perdem tudo a prazo e outros perdem tudo à vista, foi um divisor de águas nos métodos de representação dos anos 1990, quando ele, após ser oscarizado, foi protagonizar superproduções. “A Rocha” (1996) foi a primeira, seguida por “Con Air – A Rota da Fuga” (1997) e pela obra-prima “A Outra Face” (1997), que será refilmada sem ele. “Olhos de Serpente” (1998), rascunho de “Rashomon” feito por Brian De Palma, foi sua primeira derrapada, logo compensada com “Cidade dos Anjos” (1998), na qual testava o sexo dos anjos com Meg Ryan, ao som de Alanis Morissette. No comecinho dos anos 2000, Cage já não era mais infalível para faturar milhões, mas ainda fez bonito no drama “Um Homem de Família” e no thriller “60 Segundos”. Pouco depois, veio “Adaptação” (2002), no qual vivia gêmeos, e teve a chance de ser indicado a mais um Oscar, merecidamente. Nos tempos turbulentos que vieram depois – regados a separações, faniquitos em público, prisões rápidas por tumulto e calotes no imposto de renda – em sua vida, Cage ainda mostrou ser capaz de abrir a jaula de sua fúria em “A Lenda do Tesouro Perdido” (um fenômeno de bilheteria da Disney, em 2004), no seminal “O Senhor das Armas” (2005), “Motoqueiro Fantasma” (2007) e em “Presságio”, de 2009, ano em que fez seu mais visceral trabalho desde Sanderson: o trincado “Vício Frenético”, com direção de Werner Herzog. Mas no que a década de 2010 chegou, as dívidas de Cage só fizeram se agravar e ele não teve outra opção que não dizer “Sim!” a qualquer projeto que caia em seu colo. A quantidade de lixo que lhe ofereciam era tão grande que ele acabou assumindo o chamado “método xamânico” de atuar, ou seja, sua interpretação mais caricata, e investiu na linha B. Fez, sim, coisa boa entre 2011 e 2020, como “Joe” (2013), “Cães Selvagens” (2016), uma ponta no “Snowden” (2016) de Oliver Stone e o trash “Mandy”, que arrancou aplausos na Quinzena dos Realizadores de Cannes, em 2018. Mas teve muita coisa de causar azia em seu menu fast food, como “Jiu Jitsu” (2020) e “Primal” (2019). Atualmente, a web se refestela com um recém-lançado trabalho dele: “Willy’s Wonderland”, algo que de tão ruim fica bom. Trata-se de uma espécie de “Pague Para Entrar, Reze Para Sair”: sem dizer uma palavra, Cage é um motorista que, para poder consertar seu carango, aceita trabalhar em um parque de diversões assombrado, onde os espíritos de psicopatas vivem encarnados em bonecos de metal e resina. A cena dele brigando um com avestruz de plástico usando um cabo de vassoura como arma é antológica. O mesmo vale para a luta com um robô gorila em uma privada. Mas em meio a uma indisfarçável tosquice, o longa de Kevin Lewis tem lá um charme gore, vitaminado por um carisma que Cage tentou perder, mas não conseguiu, por ser bom demais pra isso. Em breve, ele será visto em uma série da Amazon Prime, ainda sem nome. Aguardemos.

p.s.: Mais de 30 atores participaram neste fim de semana da gravação do primeiro episódio da série “I.R.M.A. – Invasão Russa na Mata Atlântica”, de Celina Sodré e Clara Choveaux. O processo de filmagem se passa dentro de uma floresta, na serra carioca, em Nova Friburgo (RJ). A trama se desenvolve na Mata Atlântica, com personagens russos, questões ambientais e literatura. É a estreia da novíssima Companhia de Cinema IRMA e o projeto ganhou, em dezembro de 2020, fomento do Edital Aldir Blanc, da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro . O episódio “Murundu de Livros” tem a participação de 32 atores, como Célia Maracajá e Henrique Gusmão (nos personagens principais “indígena contemporânea” e “homem branco”), Bruce Gomlevsky, Jefferson Schroeder e Miwa Yanagizawa. Entre árvores e em volta de uma fogueira, surgem personalidades como Clarice Lispector, Dostoiévski e Tolstói. O material entra em edição nos próximos dias. A produção de “I.R.M.A – Invasão Russa na Mata Atlântica”, com quatro episódios, faz parte das comemorações dos 30 anos do Studio Stanislavski no Rio de Janeiro.

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