‘Transversais’ inunda Aruanda de inclusão

‘Transversais’ inunda Aruanda de inclusão

Rodrigo Fonseca

16 de dezembro de 2021 | 09h25

Histórias de resiliência tornam “Transversais” um painel de inclusões e afetos

RODRIGO FONSECA
Ao fim da sessão do delirante “Ney, À Flor da Pele”, filme-jukebox sobre Ney Matogrosso, o Fest Aruanda, em João Pessoa, anunciou os vencedores de sua 16ª edição, consagrando o suntuoso “Capitu e o Capítulo”, de Júlio Bressane, em sua competição principal, e agraciando joias de sua região na mostra Sob o Céu Nordestino, onde um delicadíssimo documentário com foco na inclusão saiu coroado com a menção honrosa de seu júri: “Transversais”, de Émerson Maranhão. Exibida na Mostra de São Paulo, o longa promove uma investigação da luta contra o preconceito das populações trans do Ceará, a partir de um grupo de personagens e seus satélites afetivos. Érikah é professora. Samilla é funcionária pública. Caio José é paramédico. Kaio Lemos é pesquisador acadêmico. Mara é jornalista e mãe de uma adolescente. Os cinco têm origens, formações e classes sociais diferentes. Em comum, têm o fato de terem suas vidas atravessadas pela transexualidade. Sua projeção no Aruanda foi de um arrebatamento dos mais comoventes. Mas não é um .doc que contagia só pela urgência de sua causa ou pela beleza de sua peleja ética. Émerson construiu o que se chama de “filme de cinema”, com uma potência plástica singular em seu arranjo de montagem, assinado por Natara Ney.
“A gente percorreu um perímetro que inclui Fortaleza, Pacatuba e Maracanaú, indo atrás do Caio em Quixeramobim, para contar histórias fora do comum de pessoas comuns, que se comunicassem em pontos como a relação com a família e a importância da educação”, disse Émerson, que filmou em quatro semanas, ao longo de fevereiro, antes de embarcar em uma epopeia de edição de março a junho, abrindo espaço para Natara subverter qualquer lógica do material filmado. “Contamos com o aporte da atriz e diretora Julia Katharine para o roteiro. Eu precisava de um ponto de vista trans no coração do filme. Mas ela me deu mais do que essa vivência, pois é uma artista muito capacitada tecnicamente”.
Nascido em Alagoas, mas formado em Cinema pelo Instituto Dragão do Mar, no Ceará, onde filmou seu longa, Émerson atraiu os holofotes do cinema para seu olhar afetuoso com o curta “Aqueles Dois” (2018). Mas há mais do que delicadeza em “Transversais”: há uma mirada investigativa capaz de envolver a plateia a partir da triagem das micro violências que cerca o cotidiano de quem está transicionando. Ele registra ainda brutalidades estruturais contra os arranjos familiares que aceitam parentes trans sem rejeições. É o que se vê no caso de uma mãe que é excluída de um grupo religioso por não ser mais uma representante do conceito de “família tradicional”.
“Tentei fazer um filme que pudesse levar os espectadores a conhecer as pessoas que filmei por um olhar carinhoso, que aproximasse. Nesse momento de ódio no país, só o carinho pode ser uma saída”, disse Émerson, em meio à ovação da plateia do Aruanda.

“BR Trans” concorre ao troféu Redentor

Muitas questões abordadas pelo filmaço de Émerson vão invadir o 23º Festival do Rio, esta noite, na forma de um outro (e esperadíssimo) filme: “BR Trans”, de Tatiana Issa e Raphael Alvarez. Trata-se de um documentário que aborda a marginalização e o assassinato de populações trans no Brasil de hoje. Por meio da justaposição de uma peça de teatro protagonizada por Silvero Pereira (o Lunga de “Bacurau”), histórias reais e elementos de ficção se misturam em busca de sentimentos como o afeto e empatia. A sessão será às 18h, no Cinépolis Lagoon. Antes passa o obrigatório “VIVXS!”, de Claudia Schapira, Roberta Estrela D’Alva e Tatiana Lohmann. Eis um ímã de troféus, na seara das curtas, derivado de um dos eventos brasileiros de maior relevância internacional na luta pela inclusão social: a Festa Literária das Periferias (FLUP). A partir das inquietações debatidas nesse festival de poesia, prosa e ensaio nasceu esta metafísica da ocupação de uma cidade assombrada pelo racismo. Em um encontro diaspórico, poetas de diferentes partes do mundo se reúnem no Cais do Valongo, o maior porto de escravizados da História da Humanidade. Na companhia de ancestrais guardiões, com um visual de Exu e de pombajira, interpretados por Estrela D’Alva e Saul Williams, prestam homenagens aos povos da rua e proclamam mais uma vez que as vidas e a vozes negras importam. Lohmann assina a vertiginosa montagem do filme.

p.s.: Ainda sobre a Première Brasil… Esta noite, na competição pelo troféu Redentor 2021, o Festival do Rio confere “Medusa”, de Anita Rocha da Silveira, em sessão às 20h30 no Cinepolis Lagoon 6. Foi o único longa brasileiro de ficção a ser projetado na Quinzena dos Realizadores de Cannes este ano. A fotografia de João Atala tinge o Rio com um colorido inusitado nessa investigação sobre um mito da potência feminina em meio a um rito fundamentalista evangélico que pune mulheres que exercitam o desejo fora dos desígnios de uma moral religiosa. Marilia Moraes assina a montagem.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.