‘Transversais’: aulaça de inclusão e de cinema

‘Transversais’: aulaça de inclusão e de cinema

Rodrigo Fonseca

24 de fevereiro de 2022 | 14h23

RODRIGO FONSECA
Em tempos de “Licorice Pizza” e de “Summer of Soul (…ou, Quando A Revolução Não Pode Ser Televisionada)”, o que não falta é beleza nas telonas, mas a experiência mais lírica em nosso circuito, neste momento é “Transversais”, de Émerson Maranhão, que merece ser visto na telona de todo (e qualquer) jeito. Aqui no Rio de Janeiro, tem sessão dele às 17h20, no Espaço Itaú. Exibido na Mostra de São Paulo e laureado com uma menção honrosa no 16º Fest Aruanda, esse delicado longa-metragem investiga a luta contra o preconceito das populações trans do Ceará, a partir de um grupo de personagens e seus satélites afetivos. Érikah é professora. Samilla é funcionária pública. Caio José é paramédico. Kaio Lemos é pesquisador acadêmico. Mara é jornalista e mãe de uma adolescente. Os cinco têm origens, formações e classes sociais diferentes. Em comum, têm o fato de terem suas vidas atravessadas pela transexualidade. Sua projeção no Aruanda foi de um arrebatamento dos mais comoventes. Mas não é um .doc que contagia só pela urgência de sua causa ou pela beleza de sua peleja ética. Émerson construiu o que se chama de “filme de cinema”, com uma potência plástica singular em seu arranjo de montagem, assinado por Natara Ney.
“A gente percorreu um perímetro que inclui Fortaleza, Pacatuba e Maracanaú, indo atrás do Caio em Quixeramobim, para contar histórias fora do comum de pessoas comuns, que se comunicassem em pontos como a relação com a família e a importância da educação”, disse Émerson ao P de Pop em Aruanda, em dezembro, explicando que filmou em quatro semanas, ao longo de fevereiro de 2021, antes de embarcar em uma epopeia de edição de março a junho do ano passado, abrindo espaço para Natara subverter qualquer lógica do material filmado. “Contamos com o aporte da atriz e diretora Julia Katharine para o roteiro. Eu precisava de um ponto de vista trans no coração do filme. Mas ela me deu mais do que essa vivência, pois é uma artista muito capacitada tecnicamente”.
Nascido em Alagoas, mas formado em Cinema pelo Instituto Dragão do Mar, no Ceará, onde filmou seu longa, Émerson atraiu os holofotes do cinema para seu olhar afetuoso com o curta “Aqueles Dois” (2018). Mas há mais do que delicadeza em “Transversais”: há uma mirada investigativa capaz de envolver a plateia a partir da triagem das micro violências que cerca o cotidiano de quem está transicionando. Ele registra ainda brutalidades estruturais contra os arranjos familiares que aceitam parentes trans sem rejeições. É o que se vê no caso de uma mãe que é excluída de um grupo religioso por não ser mais uma representante do conceito de “família tradicional”.
“Tentei fazer um filme que pudesse levar os espectadores a conhecer as pessoas que filmei por um olhar carinhoso, que aproximasse. Nesse momento de ódio no país, só o carinho pode ser uma saída”, disse Émerson, em meio à ovação da plateia do Aruanda.

p.s.: Às 22h30, a TV Brasil exibe um dos melhores filmes de Roberto Farias (1932-2018): “Um Candango na Belacap” (1961), com um show de Ankito cantando “dizem que pensam que penso que sou Napoleão, mas eu não sou não”.

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