Trace Brazuca: Sabrina Fidalgo, ‘Rainha’ nas telas

Trace Brazuca: Sabrina Fidalgo, ‘Rainha’ nas telas

Rodrigo Fonseca

24 de julho de 2020 | 13h33

Laureada com o prêmio de melhor direção em Brasília com “Alfazema”, a carioca Sabrina Fidalgo é hoje uma das mais ativas realizadoras do país, assinando quinzenalmente uma coluna no Huffpost Brasil

Rodrigo Fonseca
Sábado, 10h, é dia de celebrar uma das mais potentes inciativas do audiovisual na afirmação de identidade das populações negras no país e em todo mundo: nessa hora, neste 25 de julho, estreia a emissora Trace Brazuca. Nela vai ter 24 horas de programação – na Claro, o canal é o 624, na Vivo, o 630 – dedicada à cultura negra, incluindo pilares do cinema como a diretora carioca Sabrina Fidalgo. Seu aclamado filme “Rainha” (2016) será uma das atrações inaugurais. Passa às 19h30 no sabadão, com reprises ao longo da semana. Com Ana Flávia Cavalcanti no elenco, a produção surpreende pela delicada fotografia de Julia Zakia e pela argúcia no roteiro de Sabrina para esmiuçar os melindres dos bastidores do carnaval. Da realizadora, a mesma emissora vai exibir “Personal Vivator”, “Cinema Mundo” e (o brilhante) doc. musical “Rio Encantado”. Com uma obra de forte sinestesia, Sabrina ganhou o prêmio de direção em Brasília, em 2019, com “Alfazema”, seu mais recente curta, também ligado a um universo de confete e serpentina. E desenvolve agora o longa “Karnaval”. Quinzenalmente, a cineasta celebra nossas diversidades de raças e gêneros em uma coluna no HuffPost Brasil, sempre com uma prosa regada a doses fartas de inteligência. Nesta entrevista ao P de Pop, ela aponta a importância ética e estética de uma rede de televisão como o Trace.

“Rainha” levou a estética pontuada de sinestesia de Sabrina Fidalgo às telas do mundo

“Rainha” é um filme imparável, que segue correndo o mundo e telas. Quais foram as descobertas que vieram desse filme, de vida, de arte?
Sabrina Fidalgo:
“Rainha” é um filme que foi um divisor de águas na construção da minha carreira como realizadora, até aqui. É um trabalho que reúne uma certa maturidade artística que eu já vinha almejando em filmes anteriores, como “Black Berlim”, “Cinema Mudo” e “Personal Vivator”, por exemplo. Descobri muitas coisas com esse filme, entre elas a liberdade de se experimentar linguagens e gêneros sem medo de ser feliz. Esse não é um filme triste, no sentido de expor as nossas mazelas, como se só houvesse esse tipo de realidade a ser contada. Mas também não é uma comédia. É um filme muito maduro, no sentido de se aceitar como um filme melancólico de uma heroína que busca até o fim. Muitas pessoas me questionam a razão do “final triste”, mas eu nunca entendi o final desse filme como sendo triste e sim libertador. Pra mim, a Rita, a grande heroína do filme, liberta-se das amarras impostas pela sociedade e por ela mesma. Ali ela se entende como uma rainha de verdade, mas para isso ela precisou passar por uma via-crúcis pessoal. A ficha dela poderia ter caído antes? Poderia. Mas normalmente não é assim que acontece na vida, né? Além do mais ela tem vários atravessamentos que só as mulheres negras entenderão nas entrelinhas. É um filme que perpassa muitos temas importantes de forma metafórica, como racismo, feminismo, união nas comunidades, universo do samba e do carnaval, machismo, misoginia. Mas jamais o filme é didático ou panfletário. Nesse trabalho descobri que é possível falar sobre temas pesados de uma forma lírica e poética. É um filme/linguagem. O meu ensaio de “filme de artista”.
Que oportunidades um canal como o Trace abre para diretoras e diretores negras/os?
Sabrina Fidalgo:
A chegada do Trace Brazuca é fundamental para cineastas negros como um todo. É uma janela poderosa porque é voltado para o público preto, esses 56% da população que é ignorado por 99,9% dos outros canais. E, como é uma plataforma gigante e internacional, trará muito mais visibilidade do que os outros canais brasileiros, porque será exibido simultaneamente em territórios como a França, Portugal, Angola e África do Sul, por exemplo. A cultura brasileira desperta muito interesse no mundo e falo isso com total conhecimento de causa. As pessoas na Europa, América Latina, Ásia e EUA amam a música e a cultura brasileira. E, curiosamente, pero no mucho, o que mais nos representa enquanto cultura no mundo é a cultura negra. Mas aqui dentro somos ignorados. Basta ver as programações de TV, as curadorias de cinema, música, artes plásticas que temos aqui. Tudo embranquecido e eurocentrado. Agora acabou essa palhaçada.
Que novidades teremos em sua obra este ano? Quais os planos para o segundo semestre?
Sabrina Fidalgo:
Meus planos são de desenvolvimento de projetos que não são poucos. Esse está sendo o ano de semeadura. O ano que vem será o da colheita. Estou trabalhando duro com equipes maravilhosas, pessoas talentosas, amigas, parceiras, incríveis e engajadas em diferentes projetos pessoais. E ainda tem o “Alfazema”, meu curta mais recente, que após ganhar os prêmios de Júri Popular no Curta Cinema e Direção e Som no Festival de Brasília, acabou sendo surpreendido pela onda do COVID-19. Agora, com a adequação para as plataformas digitais dos festivais de cinema, ele segue sua trajetória. A próxima parada será no Curta Kinoforum – Festival Internacional de Curtas de São Paulo, que acontecerá entre 20 e 30 de agosto.

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