‘Toy Story 4’ faz Caboom na concorrência

‘Toy Story 4’ faz Caboom na concorrência

Rodrigo Fonseca

08 de julho de 2019 | 19h43

Rodrigo Fonseca
Visto por 5,1 milhões de pagantes no Brasil, “Toy Story 4” já contabilizou US$ 651 milhões nas bilheterias internacionais, consagrando-se como um dos maiores sucessos da temporada. E há algo em comum entre a quarta aventura da franquia aberta em 1995 e o cult “Matrix”. Algo de divertido. Existe um mundo virtual que os olhos não alcançam, mas corações sentem onde a vida “é” e não “está”, como acontece conosco, na nossa percepção consciente dos ritos da vida… mundo esse regido por seres que não são de carne e osso, mas dependem do nosso entorpecimento… mundo esse onde Keanu Reeves é a nossa ponte com a transcendência. Se você pensou no cult “Matrix” (1999), errou, pois, apesar da semelhança, estamos falando de uma fantasia pautada pela doçura e não uma ficção científica repleta de fios: o assunto aqui é “Toy Story 4”. Em solo nacional, não se ouve a voz de Keanu, e sim a de Mauro Horta, que dubla o ascendente John Wick na impecável versão brasileira do filme. Mas, não faz diferença, até porque, o trabalho de Horta é exemplar. Um trabalho que dá relevo a uma geografia sensorial que Keanu esculpe com o cinzel da delicadeza no papel (feito apenas com um desempenho vocal) do motoqueiro Duke Caboom. Canadense radicado num antiquário, onde usará seus dotes ao volante a fim de ajudar o xerife Woody (Tom Hanks lá fora/ Marco Ribeiro aqui), Caboom é um dos muitos personagens novos que se juntam aos heróis de computação gráfica criados pela Pixar em 1995, quando surgiu a mais festejada das franquias animadas do universo infantil dos últimos 25 anos. Franquia que faturou US$ 1,9 bilhão nas bilheterias e que alcança aqui seu pico de excelência tanto no grafismo quanto na dramaturgia. Estamos diante do melhor dos tomos de toda a cinessérie (disparadamente), com um roteiro hilariante, que bota muita comédia no bolso, sem abrir mão da fofura ou da aventura em sua discussão sobre renúncia e sobre a arte da resiliência. É uma narrativa febril que bota o traumático longa-metragem anterior, com o pavoroso urso roxo Lotso, no chinelo. Aqui, sob a direção do estreante Josh Cooley, o universo mais bem demarcado dos estúdios Disney troca sua recorrente aposta na submissão às dores do amadurecer por uma esperançosa discussão sobre reinvenção, na troca de rotinas em nome do amor e não do dever. Na trama, Woody (protagonista absoluto) tenta ajudar sua dona, uma menininha, a recuperar um brinquedo que construiu com um talher de plástico, o Garfinho, que tem obsessão pelo lixo. Uma série de perigos, numa estrutura de peripécias, vai afasta o tal talher do caubói de pano e de sua dona. Mas alguém que cavalgou Bala no Alvo por anos a fio não vai desistir até encontrar o que deseja, reencontrando sua velha paixão do passado em sua marcha para o Oeste, assim como novos amigos. Caboom é um deles, o mais divertido e o mais essencial ao desvendamento desta Matrix de sonhos de criança.

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