‘Touro Ferdinando’ é a obra-prima de Carlos Saldanha

‘Touro Ferdinando’ é a obra-prima de Carlos Saldanha

Rodrigo Fonseca

17 Dezembro 2017 | 10h56

O touro Ferdinando aprende com a cabra Lupe como se portar numa tourada: as lições injetam riso à nova animação de Carlos Saldanha

Rodrigo Fonseca
Leitura de cabeceira de gerações e gerações de americanos em formação escolar fundamental desde 1936, quando chegou às livrarias, The Story of Ferdinand, de Munro Leaf (texto) e Robert Lawson (ilustração), gerou controvérsia à sua época por trazer um herói da não agressão, que faz da paz sua bandeira e carrega, no modo de ser, a certeza do que é – algo incompatível com o conservadorismo. Em meio ao credo da intolerância de se espalha como epidemia pelos Estados Unidos, tendo em Donald Trump o motor do ódio, o regresso do personagem, em forma de um longa-metragem animado, é um gesto político… um gesto de coragem. E como ética e estética têm um casamento indissolúvel, o teor político das peripécias desse Muhammad Ali bovino se manifesta com elegância e sutil ironia, encapada sob uma narrativa de autoafirmação que põe o cineasta carioca Carlos Saldanha n’outro patamar. O patamar dos autores cinematográficos que emplacam uma obra-prima. Não há outro termo para definir o que O Touro Ferdinando, já em cartaz nos EUA, representa na filmografia do animador e no atual cenário das animações infanto-juvenis, tanto pela ousadia temática, quanto pelo requinte formal. Detalhe: é difícil apontar, entre os lançamentos de 2017, uma trilha sonora original mais tocante do que a de John Powell.

Um show de cores, sendo o rojo a coloração mais imponente, caracteriza a fotografia delineada pelo gaúcho Renato Falcão (diretor de Festa de Margarette) para traduzir a Espanha rural e uma Madri de touradas. O traço dos rostos dos personagens humanos também espelha dos perfis (sobretudo nos penteados) dos espanhóis, valorizando distintas faixas etárias. A geometria dos cenários, e suas paisagens, são valorizadas na aposta em planos médios e planos abertos na gramática da direção, o que ressalta os detalhes dos locais, de forma ainda mais cuidadosa do que se dava em Rio (2011), até então o melhor trabalho de Saldanha. Ali, ficava mais claro seu traço de autoria, que nasceu em 2002 com A Era do Gelo (e melhorou sobretudo no II, de 2006), seguiu por Robôs (2005) e perfumou a experiência em live action do diretor em Rio, Eu Te Amo (2014), com Rodrigo Santoro: ele é um cronista de travessias, de jornadas nas quais um efeito externo obriga os protagonistas a sair de seu lugar de conforto e migrar. Há algo disso em O Touro Ferdinando, no deslocamento do personagem-título do bosque onde adolesceu para um pasto onde será selecionado para tourear. Mas a jornada que se passa dentro dele é menor do que as da fauna habitual de Saldanha. Ferdinando já sabe o que é (alguém que prefere cheirar flores a lutar) desde o começo, sem nunca ter tido dúvidas de seu eu. E é isso o que faz dele um herói de exceção… um herói do Contemporâneo. Um herói que fará Trump corar.      

Esse espírito resistente já se fazia presente na incursão anterior de Ferdinando nos cinemas: um curta-mertragem animado de 1938, dirigido por Dick Rickard, para a Disney. Mas a versão de Saldanha potencializa as escolhas do personagem, ao som de Pitbull e da Macarena.  

O tourão na versão dos anos 1930

É corajoso também o fato de não haver um vilão clássico na trama. Existe vilania na figura de El Primero, toureiro assassino que será um adversário de Ferdinando. Mas não é ele o adversário principal do personagem e sim o próprio teatro da vida, que outorga a cada um de nós papéis que nem sempre queremos desempenhar. O papel de besta enfurecida, geneticamente imposto a Ferdinando, é um arquétipo que ele rejeita. Sua travessia heróica no filme será convencer os demais disso. E, de quebra, propor uma reflexão sobre a brutalidade da prática da tourada, mas sem desrespeitar a importância que essa prática tem na cultura da Espanha. Não há lugar para nenhuma forma de desrespeito neste filme.

Seu posicionamento autoafirmativo se desenha na telona sem bandeiras. É um filme de celebração da vida, de correrias, desafios, gargalhadas… muitas, aliás, pois se trata do maior acerto cômico de Saldanha, sobretudo pela sazonal aparição de um coelhinho rosa (um candidato a Scrat, aquele esquilo-rato de A Era do Gelo). Os risos mugem dos outros touros que cercam Ferdinando e berram sempre que a cabra Lupe mostra os chifres. Ela é a treinadora do tourão quando este se vê obrigado a encarar uma arena. Lá fora, em língua inglesa, Lupe ganha a voz da comediante mais genial da atualidade, a belíssima Kate McKinnon (única razão de ser do vergonhoso remake de Os Caça-Fantasmas). Por aqui, na versão brasileira, entra a igualmente brilhante e bela Talitha Carauta, que valoriza, nas rubricas, todas as deixas de humor do roteiro original. Tem ainda Maisa e Otaviano Costa no elenco de vozes. A pequena dubla Nina, garotinha que cuida de Ferdinando, e Otaviano empresta o gogó ao cavalo Hans.

 

Duda Ribeiro dubla Ferdinando no Brasil

Como se trata de um filme de evoluções, seja para Saldanha, seja para a cultura de representação em Hollywood, é necessário um aplauso, ainda na seara da versão brasileira (dirigida por Manolo Rey), à interpretação de Duda Ribeiro, dublador de Ferdinando. Em inglês, o touro é John Cena, ás da luta livre que está em cartaz no Brasil em Pai em Dose Dupla 2. E Duda entendeu bem as características de interpretação desse ex-atleta que virou astro. Um dos atores em dublagem mais elogiados do país, em destaque na TV por seu trabalho como a voz do Arqueiro Verde na série Arrow, ele galga um novo e mais próspero horizonte ao sublinhar, com delicadeza, toda a inquietação embargada nos mugidos de Ferdinando.

  Com estreia no Brasil marcada para 11 de janeiro, O Touro Ferdinando concorre ao Globo de Ouro de melhor animação e de melhor canção original (Home). Merece mais. Saldanha merece… Diretor brasileiro de maior visibilidade no mundo, ele chega aqui à sua maturidade, como artista, como alguém que pensa sobre as transformações deste nosso mundo… como alguém que anima a vida.