‘Touch Me Not’: Romênia pode levar o Alfred Bauer na Berlinale

‘Touch Me Not’: Romênia pode levar o Alfred Bauer na Berlinale

Rodrigo Fonseca

23 de fevereiro de 2018 | 04h02

Laura bate papo com uma sábia “trans-mulher” em “Touch Me Not”, da Romênia

Rodrigo Fonseca
Pintou por aqui um filme romeno em competição que nada tem a ver com a brilhante linha de reflexão moral e fábula política característica daquele país (prolífico em cults) nas telas: chama-se Touch Me Not, e está na briga pelo Urso de Ouro. É o trabalho mais experimental entre os concorrentes e assume sua condição de filme-pesquisa numa boa, valorizando um elemento que vem se desmanchando no ar na retórica da virtualidade de nossos tempos: o corpo. Tem documentário, ficção e instalação dentro dele, numa proposta de linguagem comum à videoarte, mas pouco explorada no perfil longa-metragem. A diretora Adina Pintilie parte dos interditos existenciais de sua protagonista, Laura (vivida por Laura Benson), para mostrar a busca por alívio ou até de (auto)aceitação de uma mulher que não consegue se sentir tocada. Ela olha, isso sim, e com lascívia: contrata um garoto de programa para se masturbar para ela sem se deixar tocar. E mais, convoca uma mulher trans (uma deliciosa personagem, com tiradas filosóficas sobre o prazer) para se expor em strip-tease para ela, brincando com o fato de ter uma barriguinha avantajada em seu “visual de ninfa”. Em paralelo, Adina mostra outros corpos com design peculiar, entre eles um rapaz glabro com alopecia e um portador de deficiência (de uma doçura singular) que tem incontinência salivar e dentes tortíssimos. Essa ciranda de gente(s) oferece à cineasta a chance de compor um ensaio arquitetônico sobre a corporalidade, transcendendo ideais de beleza helênica ou de qualquer outra beleza num esforço de entendimento das neuroses de rejeição de si e do outro. A medida da alteridade está no uso de uma filmagem documental, com Laura na câmera, que deixa evidente a meta de desvelamento do filme.

Experimentação no erotismo

O dispositivo é bem urdido e os resultados plásticos e teóricos riquíssimos, mas fica-se no experimento e não no plano de um cinema narrativo de jornada, o que exige de quem assiste uma entrega e uma paciência radicais. Temos algo talhado para ganhar o troféu Alfred Bauer, dedicado a pesquisas de linguagem, mas não mais do que isso. É um experimento muito fora de lugar na chamada Primavera Romena, a estética de tom político e humor nigérrimo nascida naquela terra em 2005 com A Morte do Sr. Lazarescu. Aqui, o movimento dos romenos foi melhor representado por Lemonade e pelo .doc Infinite Football.

Faltam dois filmes para encerrar a seleta da mostra competitiva da Berlinale 2018, e ambos estão agendados para esta sexta: Mug, de Malgorzata Szumowska (Polônia), e In The Aisles, de Thomas Stuber (Alemanha), que tem como protagonista “a” estrela germânica do momento, Sandra Huller, de Toni Erdmann (2016). A entrega do Urso de Ouro será realizada neste sábado, pelas mãos do júri presidido pelo cineasta Tom Tykwer, fechando o festival, sendo que uma das premiações paralelas, o Prêmio da Crítica, votado pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci) será presidida por um brasileiro, o jornalista Mario Abbade. Fora da competição, esta sexta no festival vai ser sacudida pelo documentário musical Songwriter, do inglês Murray Cummings, que trará o cantor e compositor Ed Sheeran à cidade.

 

Dilma Rousseff é o epicentro da narrativa de O Processo, uma aula de montagem

Na reta final da Berlinale, continua firme, forte e fiel o boca aboca em torno de Bixa Travesti, .doc de Cláudia Priscilla e Kiko Goiffman centrado no debate de identidade de gênero aberto pela cantora trans Linn da Quebrada. E há discussões por todo lado do evento, sobretudo nos bares com rodinhas de brasileiros, sobre o monumento documental O Processo, de Maria Augusta Ramos, que trança 400 horas de filmagem sobre o Impeachment de Dilma Rousseff para construir o atestado de óbito de nossa democracia. Sua montagem, assinada por Karen Akerman, é um marco na linhagem nacional da edição. Na seara da América Latina, pintou ontem aqui um raio x da brutalidade nas periferias do México: Los Débiles, de Eduardo Giralt e Raul Rico, um retrato da impunidade em relação tanto às gangues quanto ao estado armado de exceção criado em resistência a elas.

Tendências: