‘Touch me not’: a discórdia de Berlim

‘Touch me not’: a discórdia de Berlim

Rodrigo Fonseca

11 de fevereiro de 2020 | 09h24

Rodrigo Fonseca
Agendada para começar no dia 20 de fevereiro, com a projeção hors-concours de “My Salinger Year”, de Philippe Falardeau, a 70ª Berlinale chega com uma programação de dar inveja a seus irmãos mais velhos (Cannes e Veneza), incluindo o paulista “Todos os mortos” em concurso e mais 18 títulos de DNA brasileiro por suas múltiplas mostras, num pleito de exorcizar erros do passado. A curadoria mudou: a chefia se despediu de Dieter Kosslick, e, no lugar dele, entraram Mariette Rissenbeek e Carlo Chatrian. Mas existe um injusto ataque a Dieter, por seleções anteriores, que apostavam em demasia em narrativas de experimentação sem exuberância. O mais injusto desses ataques se dirige à escolha de “Touch me not” (“Não me toque” foi o nome usado aqui, em sua exibição na Mostra de São Paulo), no gosto do júri presidido pelo cineasta alemão Tom Tykwer, para ser o ganhador do Urso de Ouro de 2018. Trata-se de uma indefinível (e que bom que é assim!) forma audiovisual, entre filme-videoinstalação-performance. Trechos do longa da artista visual romena Adina Pintilie são usados na peça “O Censor”, hoje em cartaz no Rio, num painel de filmes cults dirigidos por mulheres. Mas, injustamente, essa produção, até hoje inédita em circuito comercial no Brasil, é alvo de ódios dos mais diversos.

Curadora do Bucharest International Experimental Film Festival e estudiosa dos novos movimentos da arte contemporânea em instalações ligadas a corpo e imagem, Adina era uma estreante na direção de longas de ficção, com uma trajetória cinematográfica restrita a .docs, em geral, curtos. Sua vitória chocou a muito e encantou outros tantos (o P de Pop inclusive). Em seu filme, a protagonista, Laura Benson, vive (ou é) uma cineasta com dificuldades de se deixar tocar é inglesa.
“E pensar que tudo o que a gente queria com esta experiência cinematográfica cheia de camadas de percepção era abrir diálogos sobre o corpo, sobre a condição humana, sobre os tabus do desejo e da aceitação do que somos e de como estamos”, disse Adina ao Estadão na Berlinale, com o Urso dourado nas mãos, além do troféu de Melhor Longa de Estreia. “Este é um projeto sobre interseções, de corpos e artes”.

Mais acostumada a lidar com pintores e escultores do que com o circo midiático da telona, Adina vive uma dupla relação de amor entre o Cinema e as Artes Visuais há uma década, em que documenta manifestações artísticas em vídeos. Boa parte de seus últimos dez anos de trabalho foram gastos em “Touch me not”. O filme é parte ficção, parte documentário, parte expressão corporal, parte psicanálise. Laura é sua personagem central: seus dilemas pessoais convidam a uma investigação sobre os modos mais variados de se obter o prazer, seja na presença de michês, seja em papos com sexólogos ou terapeutas sexuais. Ela se apresenta em cena como cineasta, mas quem filma suas pesquisas de campo é a própria Adina, por trás das câmeras.

“Não fiz um processo comum de filmagem e sim de vivência. Não existe roteiro neste filme, só anotações de ações e de troca, rascunhos de intenções e sentimentos. Nem houve uma escolha de elenco clássica: eu saí procurando quem quisesse compartilhar sua intimidade comigo e aceitei todo mundo que se mostrasse aberto para conversar. Estamos vivendo tempos em que lidar com o próximo, olhando o outro nos olhos, parece uma tarefa árdua, pela impaciência, pela intolerância. Por isso, eu busquei construir ume estrutura de linguagem que se parecesse com um espelho: quem fala pra minha câmera está falando de si para si mesmo”, disse Adina, que leva para o filme uma stripper trans já sexagenária e se aproxima de um jovem rapaz sem pêlos. “Tenho curiosidade pelas curiosidades dos outros. Respeitar as diferenças me livra da atitude quase inercial de rotular quem está do nosso lado. Cada cena de “Não me toque” deve ser uma experiência sensorial. Uma troca, aberta inclusive ao incômodo”.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: