Toni Venturi no palco da resistência

Toni Venturi no palco da resistência

Rodrigo Fonseca

23 de julho de 2020 | 14h48

Laureado com o troféu Candango de melhor direção em 2004, por “Cabra-Cega”, o cineasta Toni Venturi lança nesta quinta-feira, às 23h, na Sesc TV, a série “Cena Inquieta”

Rodrigo Fonseca
Respeitado pela crítica por suas reflexões políticas e seus debates sociais, como “Cabra-Cega” (2004) e “O Velho” (1997), o paulistano Toni Venturi vai mergulhar nos bastidores dos teatros de grupo do Brasil esta noite e nas próximas 25 quintas-feiras, na Sesc TV. A televisão vai funcionar como circuito para sua “Cena Inquieta”, uma série documental com 26 episódios de 55 minutos, a ser exibida sempre às 23h. O projeto abre ribalta para trupes que abraçam a diversidade como instância de poesia. Em um périplo pelo país, guiado pela curadoria da pesquisadora Silvana Garcia, o realizador do premiado “Estamos Juntos” (2011) registrou expressões estéticas de inclusão em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e Recife. Foram documentados 48 grupos de teatro e dez artistas que estão desenvolvendo trabalhos de experimentação de linguagem cênica nos eixos do teatro negro, de comunidade e de gênero. No episódio 1, o diretor dá voz ao Grupo Clariô de Teatro e à Capulanas Cia de Arte Negra. Na semana que vem, o Coletivo Estopô Balaio e a Trupe Sinhá Zózima falam de seu cotidiano de invenção.

O grupo Estopô Balaio no episódio de 30 de julho

Qual é o maior desafio que a linguagem da TV impõe na mímese ou no registro documental da representação teatral?
Toni Venturi:
Quando se trata do registro das peças, trabalhamos na montagem com trechos curtos porque fazer plano geral do teatro é chato e pobre per si. E como estávamos em contato direto com os grupos, reencenamos fragmentos das peças, ensaios, laboratórios e trabalhos de preparação dos atores que foram feitos exclusivamente para nós. Então, pudemos nos aproximar, fazer closes, decupar as cenas na linguagem dinâmica do audiovisual. Levamos em nossa equipe dois fotógrafos especiais: a Ana Paula Mathias, uma videoartista negra, e Otavio Pupo, que vem do cinema. Eles imprimiram uma cara cinematográfica aos documentários.

Seu “Latitude Zero” caminha para os 20 anos. O que esse filme ainda revela sobre sua estética e sobre o projeto de país que você encontra e o que você almeja?
Toni Venturi:
Uau. Revela a inquietude de uma alma apaixonada pelo seu povo. Tenho como centro a reflexão da realidade da população carente e a questão da mulher sempre no coração da minha obra. Estou entre os que sonham a utopia de um país menos egoísta e mais acessível a todos. É meio triste constatar que quase 20 anos depois estamos voltando ao que éramos, ou seja, o país está andando para trás e jogando brasileiros contra brasileiros, numa dialética de guerra e dor parecida com a da personagem Lena (dona do bar em “Latitude Zero”) e do Vilela (o policial militar foragido). Garimpo, exploração predatória da natureza, pobreza, violência contra a mulher e injustiça social. Não mudamos muito, né?

Capulanas Cia de Arte Negra

Quais são seus novos projetos de ficção para as telas? Projetos de doc?
Toni Venturi:
Muito em breve, vamos lançar um .doc bem potente: “Dentro da Minha Pele”. É um projeto que fiz junto com a socióloga-documentarista negra Val Gomes sobre o racismo estrutural brasileiro. Vem uma bomba aí para mexer com o lugar de conforto da branquitude e de seus privilégios ancestrais. Vai ser porrada. Já os projetos de ficção estão engavetados, esperando tempos melhores. Estava trabalhando num belíssimo texto com o Kiko Marques, autor de “Sinthia”. Imagina um filme sobre um maestro branco de meia idade que se apaixona por seu jovem pupilo negro e se dedica a cuidar de sua mãe, a viúva de uma capitão do exército, ex-torturador da ditadura militar. É um filme impossível de se viabilizar em tempo de trevas.

Seu cinema tem um escopo de linguagens e de estilos amplos, mas sempre cortado por uma parceria com medalhões de nossos palcos (Débora Duboc, Fernando Bonassi) e por uma reflexão política. Qual é o eixo narrativo desses diálogos com o teatro e com as práticas de poder?
Toni Venturi:
O teatro e as parecerias alimentam a minha reflexão sobre nós mesmos e a intrínseca relação de poder das pessoas na sociedade. A procura de uma voz para os que não tem voz, uma imagem para os invisíveis, um grito para os excluídos. E tudo isso é o poder. O poder do branco. Então, acrescento agora nesse meu universo de inquietudes a questão racial brasileira que bateu forte em minha consciência há 3 anos atrás e agora começamos a ver as obras como a série “Cena Inquieta” e o doc “Dentro da Minha Pele”, que vai pintar na tela logo logo. Espero estar assentando um tijolinho na questão da formação identidade brasileira.

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