Tom & Jerry não desanimam

Tom & Jerry não desanimam

Rodrigo Fonseca

13 de fevereiro de 2021 | 13h36

RODRIGO FONSECA
Alvoroçado pela reprodutibilidade técnica da obra de arte, Walter Benjamin (1892-1940) via a animação como sendo uma espécie de anticorpo para o cabresto capitalista da técnica sobre a aura de univocidade da arte, com suas prosopopeias em forma de camundongos marinheiros ou de bigornas que caem no infinito. Essa capacidade que os filmes animados têm de desafiar a burocracia do processo industrial do fazer artístico se faz notar agora, no embate de Tom & Jerry contra o politicamente correto. Ameaçados de despejo pelos canais de TV, por serem encarados como uma deformação ao processo educativo dos jovens espectadores, por uma aparente violência, os personagens criados em 1940 por William Hanna (1910-2001) e Joseph Barbera (1911-2006) têm agora uma chance de reagir ao cancelamento anunciado, com a chegada de um divertidíssimo longa-metragem dirigido por Tim Story (de “Quarteto Fantástico”). Esse prolífico realizador de clipes para estrelas do hip hop e do rap investe nos códigos estabelecidos entre o início da década de 1940 e 1958, quando Hanna & Barbera pilotaram 114 desenhos do gato apatetado e do rato saltitante para a MGM, transformando-os em hits das matinês. Em 1975 e em 1980, a dupla ganhou novas e icônicas temporadas, agora na TV, como seriado animado, indo e voltando para a televisão nos anos seguintes. O longa de Story é uma espécie de “Uma Cilada Para Roger Rabbit” (1988), mesclando live action com figuras animadas. Embora exista uma bússola infantil na narrativa, investindo no improvável padrão Acme de se desafiar a gravidade e a verossimilhança, a trama parece mais talhada para as/os baixinhas/os de outrora, que viam Tom caçar Jerry com a Graça da mãe. O enredo que impulsiona os atores de carne e osso assume uma Chloë Grace Moretz inusitadamente carismática no papel de Kayla, uma aspirante a gerente de hotel de luxo. No filme, ela se encontra às voltas com um casamento de aristocratas, com elefantes carregando a noiva e tudo. Eis que Jerry descobre o lugar e encasqueta de ir morar lá. É quando Tom, magoado pela perda de seu teclado (sim, ele agora é músico), é escalado por Kayla para exterminar Tom. Mas a prepotência de um gerente com empáfia de Pafúncio, Terence (Michael Peña, impecável), vai ameaçar o casório, o futuro profissional de Kayla e a amicíssima inimizade entre os protagonistas. A montagem dá umas derrapadas e deixa umas barriguinhas de ritmo prejudicarem o andamento do projeto estético armado por Story, mas a inteligência cênica de Chloë instiga nossa reflexão e as peripécias loucas de Tom para deter Jerry são hilárias. E é emocionante ver a aparição das versões anjinho e diabinho de Tom em cena, dando ao longa um gosto de tarde animada na TV.

p.s.: Às 14h deste sábado a Globo exibe “O Máskara” (1994), com Jim Carrey no auge de sua mocidade.

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