‘Todos os Mortos’ nos faróis da Berlinale

‘Todos os Mortos’ nos faróis da Berlinale

Rodrigo Fonseca

14 de setembro de 2020 | 08h28

Rodrigo Fonseca
Indicado ao Urso de Ouro, em fevereiro, e vitaminado por um elenco feminino em estado de graça, “Todos os Mortos”, de Caetano Gotardo e Marco Dutra, vai estar, entre 18 e 26 deste mês, no escopo de dois essenciais festivais com raízes hispânicas: Gramado, aqui mesmo no Brasil, e San Sebastián, no norte da Espanha. Este drama de época centrado na decadência das aristocracias cafeeiras de SP e nas sequelas da violência escravocrata foi um dos maiores achados da Berlinale 2020, que revelou muitas pérolas, como o coreano “Tempo de Caça” (“Time to Hunt”), hoje na Netflix. Mas muitas das excepcionais atrações do evento alemão ainda não correu o mundo, por conta da pandemia. Confira parte das pérolas que as telas germânicas desencavaram.
“Police”, de Anne Fontaine: A diretora de “Marvin” (2017) nos conta aqui uma rascante história sobre três policiais (Virginie Efira, Omar Sy e o surpreendente Grégory Gadebois) empenhados em levar um refugiado (Payman Maadi, de “A Separação”) ao Charles De Gaulle, a fim de deportá-lo para a pátria onde ele sofreu toda a sorte de mazelas.
“Télé Réalité”, de Lucile Desamory, Glodie Mubikay e Gustave Fundi: Um dos destaques do Fórum, esta coprodução entre Bélgica e Congo brinca com a presença do Diabo na Terra a partir de uma celebração dionisíaca do carnaval, parte na Europa, parte na África, criando uma situação memorável: a conversão de um pote de cinzas de um corpo cremado em confete.
“Digger”, de Georgis Grigorakis: Gestada silenciosamente na Grécia, este drama de seiva política tornou-se uma das produções mais elogiadas da seção Panorama. Num pesaroso tom trágico, vitaminado pela montagem reflexiva de Thodoris Karvelas, este drama sobre a solidez que se desmancha no ar – pela ausência de dialéticas sociais – parte de um deslizamento de terra na região onde fica uma pequena propriedade rural… uma cabaninha. Seu dono, Nikita (Vangelis Mourikis) vive agrilhoado à modorra do Tempo, nesse local de lama, até que seu filgo regressa, depois de 20 anos de ausência, para cobrar a herança materna. Mas a situação já tensa entre os dois há de se agravar com a presença de uma construtora que quer se apossar do local. Nesse enredo, Sófocles dá as mãos a Karl Marx em um estudo sobre a erosão dos afetos.
“Wildland” (“Kod & Blod”), de Jeanette Nordahl: Neste thriller escandinavo de alta tensão nos diálogos uma adolescente órfã de mãe vai morar com os primos e uma perigosa tia, numa casa que encara o crime como um passaporte para uma vida confortável. Seu roteiro é um estudo sobre lealdade, fincado nas angústias de uma jovem em relação a uma ideia nada saudável de convivência familiar.
“Black Milk”, de Uisenma Borchu: Taí um filme que só fez crescer no boca a boca da cidade. Neste melodrama egresso da Mongólia, pilotado por uma diretora de teatro de excelente reputação nos palcos, duas irmãs se reencontram para um acerto de contas acerca das tradições de sua terra natal.
“The Roads Not Taken”, de Sally Potter: Confeccionado nos tecidos de uma mortalha familiar da diretora de “Orlando, uma mulher imortal” (1992), ligada a uma degeneração mental de um irmão da realizadora, este melodrama entrega uma atuação avassaladora de Elle Fanning e de Salma Hayek. A primeira vive Molly, uma jovem cujo pai, o escritor Leo (Javier Bardem, em mais uma impecável atuação), vive em um estado de demência, perdendo a lucidez. Salma é um amor de seu passado, que flana por sua fraturada consciência.
“Undine”, de Christian Petzold: Dois anos depois de “Em Trânsito”, o maior cineasta alemão dos dias atuais esbanja domínio na direção ao narrar uma história de amor que evoca a mitologia das sereias. Não por acaso, deixou Berlim com o Prêmio da Crítica, votado pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci). Na trama, a historiadora Undine (Paula Beer) começa um romance com o escafandrista Christoph (Franz Rogowski) depois de sofrer uma desilusão amorosa. Mas vai arrastar seu passado consigo, afogando o rapaz em memórias que fazem um paralelo com a História da própria capital da Alemanha. Este filmaço ainda rendeu a Paula um Urso de Prata, por sua memorável atuação.

p.s.: Tem Mira Nair esta noite na TV aberta, na “Tela Quente” da TV Globo. Às 22h50, rola “Rainha de Katwe” (2016), no qual a cineasta indiana revive a história real de Phiona Mutesi (papel da jovem Madina Nalwanga), uma menina de Uganda que reinventa sua vida ao ser apresentada a um tabuleiro de xadrez. Ela vai marcar época no jogo estratégica com sua inteligência invejável. A oscarizada Lupita Nyong’o interpreta sua mãe, Nakku. Na versão brasileira, Angélica Borges dubla Lupita.

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