‘Todos os Mortos’ em San Sebastián

‘Todos os Mortos’ em San Sebastián

Rodrigo Fonseca

21 de agosto de 2020 | 12h36

Rodrigo Fonseca
Indicado ao Urso de Ouro em fevereiro e selecionado esta semana para disputar Kikitos em múltiplas frentes em Gramado, na segunda metade de setembro, “Todos os Mortos”, delicado estudo sobre o ranço escravocrata e sobre o decadentismo da nobreza paulistana, vai buscar holofotes ibéricos, concorrente nos Horizontes Latinos do 68º Festival de San Sebastián. De 18 a 26 de setembro, a cidadezinha do norte espanhol, com 190 mil habitantes, famosa por seus acepipes (os pintxos), vai acolher o que promete ser a mais calorosa seleção competitiva deste 2020 de pandemia – e sem Festival de Cannes – desde a última Berlinale. E a produção de Sara Silveira (de “Trabalhar Cansa”), dirigida por Caetano Gotardo (“O que se move”) e Marco Dutra (“Quando eu era vivo”), tornou-se uma das (mais imponente) balizas da resiliência brasileira no planisfério cinéfilo neste ano, concorrendo num bonde de latinidades. Neste bonde há títulos inéditos da Argentina (“El Prófugo”, “Las Mil y Una”; “Mamá, Mamá, Mamá”; e “Edición Ilimitada”); do Chile (“La Verónica”; “Visión Nocturna”); e do México (“Selva Trágica” e “Sin Señas”. Em sua passagem pela capital alemã, há seis meses, o drama de época de Gotardo e Dutra dividiu opiniões, mas teve uma aclamação generalizada na avaliação de seu elenco feminino. Fazem parte da trupe Mawusi Tulani (em brilhante forma), Carolina Bianchi, Alaíde Costa, Thaia Perez, Andrea Marquee, Gilda Nomacce e Clarissa Kiste, que está em seu apogeu cênico na tela. Seus realizadores apostaram numa equipe majoritariamente formada por mulheres.
“Nossa equipe é majoritariamente feminina e os meninos sempre tiveram uma escuta muito grande. Todas tivemos escuta no set”, disse Clarissa à Berlinale, sob as loas por seu finíssimo desempenho nas telas, no papel da freira Maria.
Fotografado por Hélène Louvart, “Todos os Mortos” se impõe como uma minuciosa cartografia da exclusão em meio ao esfacelamento de uma aristocracia cafeeira no Brasil do fim dos 1800, início dos 1900. A intolerância religiosa contra os credos de matriz africana é um dos focos, que contou com a consultoria de Salloma Salomão, também autor da trilha sonora. “É possível perceber uma tensão entre as formas musicais que o filme evoca. Há mais diálogos que revelam tensão ao mostrar a forma como a sociedade brasileira lidou com elemento estrangeiros, seja da Europa ou da África”, disse Salloma à Belinale.
O que vemos em “Todos os Mortos” é um microcosmos da São Paulo de 1899, onde os fantasmas do passado ainda caminham entre os vivos, quizilando as mulheres da família Soares. Elas são antigas proprietárias de terra, que tentam se agarrar ao que resta de seus privilégios. Para Iná Nascimento (papel de Mawusi), que viveu durante muito tempo escravizada, a luta para reunir seus entes queridos em um mundo hostil a conduz a um questionamento de suas próprias vontades. Entre o passado conturbado do Brasil e seu presente fraturado, cheio de intolerância, essas mulheres tentam construir um futuro próprio.

“Todos os Mortos” integra os Horizontes Latinos de San Sebastián

Na seara dos Novos Diretores, mais uma de suas seções competitivas paralelas, San Sebastián se abre para o Brasil com “Casa de Antiguidades”, com Antônio Pitanga em uma reflexão sobre o racismo institucionalizado. A direção é de João Paulo Miranda Maria. Na briga pela Concha de Ouro, o evento traz inéditos da japonesa Naomi Kawase (“True Mothers”), do dinamarquês Thomas Vinterberg (“Another Round”) e do francês François Ozon (“Été 85”). Viggo Mortensen será homenageado pelo festival com direito ao prêmio honorário Donostia pelo conjunto de sua obra. E ele exibirá por lá seu primeiro trabalho na direção: “Falling”. Mais atrações serão anunciadas ao longo deste mês.

p.s.: Astro do impecável “O Caminho de Volta”, lançado online no início deste ano, Ben Affleck vai ser visto ano que vem sob o uniforme de Batman, uma vez mais, no material inédito de “Liga da Justiça” (2017) preparado para o “Snyder Cut” da HBO Max e vai estar no longa do Flash. Atualmente, na streaminguesfera, o ator e cineasta tem mobilizado o Globoplay à frente das eletrizantes sequências de ação do thriller “O Contador” (“The Accountant”, 2016). Na versão brasileira desta produção de US$ 44 milhões, cujo faturamento beirou US$ 155 milhões, Jorge Lucas dubla Affleck, em um de seus melhores desempenhos. Sob a direção do nova-iorquino Gavin O’Connor (de “Guerreiro”), o astro vive Christian Wolff, um contador com grande sensibilidade a ruídos e ao convívio social, com sinais de autismo. Apesar da oferta de ir para uma clínica voltada para crianças especiais, seu pai insiste que ele permaneça morando em casa, de forma a se habituar com o mundo que o rodeia. Ao crescer, Christian se torna um ás da contabilidade, extremamente dedicado, graças à facilidade que tem com números. Operando em um escritório de contabilidade, instalado em uma pequena cidade, ele passa a trabalhar para algumas das mais perigosas organizações criminosas do mundo, sem revelar a elas os múltiplos dotes guerreiros que tem. Ao ser contratado para vistoriar os livros contábeis da Living Robotics, Wolff logo descobre uma fraude de dezenas de milhões de dólares, o que coloca em risco sua vida e da colega de trabalho Dana Cummings, vivida por Anna Kendrick. Em novembro, se a pandemia deixar, Affleck será visto em “Deep Water”, releitura da obra de Patricia Highsmith, que marca a volta de Adrian Lyne (“Atração Fatal”) à direção, após um hiato de 18 anos sem filmar.

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