Todo o ‘Esplendor’ de Naomi Kawase

Todo o ‘Esplendor’ de Naomi Kawase

Rodrigo Fonseca

31 de março de 2020 | 11h49

Rodrigo Fonseca
Entre os filmes asiáticos mais esperados de 2020, da leva aguardada para os tempos pós 40ena do coronavírus, o novo projeto da japonesa Naomi Kawase é uma das maiores promessas para prêmios: “Comes Morning”. Nele, a realizadora de joias como “Carta De Uma Cerejeira Amarela Em Flor” (2002) e “Sabor da Vida” (2015) regressa a um de seus temas mais caros: maternidade. Na trama, uma mulher adota um bebê sonhando em reinventar sua vida. Mas seu sonho é atropelado pela Realidade quando a suposta mãe biológica da criança volta para reclamá-la de volta a seu colo. Considera-se que Cannes vá escalar Naomi entre seus potenciais concorrentes à Palma de Ouro, assim como “Home”, de Franka Potente; “Tenet”, de Christopher Nolan, “Notturo”, de Gianfranco Rosi; e “Benedetta”, de Paul Verhoeven. Ela é uma das realizadoras mais queridas da Croisette e tem uma história de vitórias por lá, com destaque para o Grande Prêmio do Júri dado ao aclamado “A floresta dos lamentos” (2007). Só seu trabalho mais recente, “Vision”, ficou de fora do balneário francês, tentando a sorte em San Sebastián. Antes, veio o soberbo “Esplendor”, indicado à Palma há três anos.

Vetores políticos e morais muito distintos separam, no tempo, na forma e na ironia (embora não no espaço: um Japão de convenções sociais), o cinema pontiagudo de Nagisa Oshima (1932-2013), realizador de “Furyo – Em nome da honra” (1983) e a estética da delicadeza inerente aos filmes Kawase. Mas diante de “Esplendor”, laureado em Cannes em 2017 com a láurea do Júri Ecumênico, por sua celebração da caridade e da doação a necessitados, é difícil não lembrar da lição deixada por Oshima a seus conterrâneos, e ao mundo: um toque pode ser uma revolução num contexto de esvaziamento das subjetividades. “Hikari” (nome original deste drama de amor, também chamado de “Radiance”) é a potencialização do toque, do afago, do carinho como um idioma de reconfiguração, de recomeços.
Se em “Império dos sentidos” (1976), Oshima reinventa (e poetiza) a penetração numa mirada revolucionária, politizada, aqui, Naomi conduz a carícia a um grau de transcendência capaz de desafiar até os interditos da matéria. É esse o aprendizado pelo qual sua protagonista, Misako (Ayame Misaki), uma cineasta especializada em produzir versões cinematográficas destinadas a deficientes visuais, vai passar diante de uma nova paixão. Numa projeção, ela esbarra com Nakamori (Masatoshi Nagase), fotógrafo fadado a ficar cego. Às vésperas da cegueira, ele tem um acervo de fotografias raro, que erotiza Misako. Mas a erotização maior aqui é a chance de construir uma linguagem nova pelo corpo, pelo abraço. Apoiada na montagem afinada de Tina Baz (de “Olmo e a gaivota”), Naomi esgarça o tempo ao máximo, no enamoramento de Misako pelos olhos de seu amado, gerando sequências de beleza e humanismo.
p.s.: Às 13h20 desta terça, o Telecine Cult exibe “Cópia Fiel” (“Copie Conforme”, 2010), um ensaio semiótico do iraniano Abbas Kiarostami (1940-2016) que deu a Juliette Binoche o prêmio de melhor atriz em Cannes. Na trama, ela vive uma história de amor (?) de múltiplas perspectivas com um escritor (o cantor lírico William Shimell) que conhece na Toscana. Quem perder a sessão na TV a cabo, pode conferir (ou rever) no Globoplay que incluiu o longa num cardápio dividido com a distribuidora Imovision.
p.s. 2: A pedida da “Sessão da Tarde” desta terça é “Imagine Só!” (“Imagine That”, 2009), comédia fantástica na qual Eddie Murphy é um executivo que mergulha no mundo mágico de sua filha. Mario Jorge dubla o astro.

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