Todo o ‘Amor’ de Haneke no streaming

Todo o ‘Amor’ de Haneke no streaming

Rodrigo Fonseca

25 de dezembro de 2020 | 09h29

Michael Haneke tem duas Palmas de Ouro em seu currículo

Rodrigo Fonseca
Laureado com o Oscar de melhor filme estrangeiro e indicado ainda às estatuetas de melhor filme, direção, roteiro e atriz (Emmanuelle Riva), “AMOR” (2012), orçado em US$ 8,9 milhões e contemplado com uma bilheteria de US$ 29 milhões, agora integra a grade do Globoplay, levando a estética do austríaco Michael Haneke, de 78 anos, a uma multidão de assinantes. Cannes foi o ponto de partida para a carreira dessa reflexão sobre finitude e intolerância, que saiu da Croisette com a Palma de Ouro dada por um júri presidido por Nanni Moretti. Foi a segunda Palma de Haneke, agraciado com o troféu cannoise em 2009, por “A Fita Branca”. Lá, ele cartografou as centelhas de violência entre uma juventude que, a partir dos anos 1920, viria a formar a célula nazista, manifestando seu ódio a partir de pequenos atentados. Já em “Amour”, ele reflete sobre a longevidade de uma relação a dois a partir da relação de um casal de músicos já anciãos: Emmanuelle e o mito Jean-Louis Trintignant. Depois desse sucesso mundial, Haneke só dirigiu mais um longa: “Happy End”, uma produção de US$ 13 milhões. Na França, onde estreou em outubro de 2017, o longa vendeu 50 mil ingressos já na largada, com um número pequeno de cópias. Nunca lançado em circuito no Brasil, onde passou somente em streamings, esta cartografia das patologias europeias tem foco numa aristocrática família francesa. Trintignant (de cults como “Z”) volta a trabalhar com o cineasta ali, no papel de Georges, o patriarca do clã dos Laurent, que tem Isabelle Huppert e Mathieu Kassovitz entre seus parentes.

Numa direção cirúrgica, pautada por um clima de tensão econômica crescente, Haneke cria em “Happy End” a crônica da atomização da burguesia no Velho Mundo, a partir da erosão afetiva e financeira dos Laurent, entre tragédias e processos judiciais, ligados à presença ilegal de estrangeiros no Velho Mundo. Já no início, o cineasta monta uma sequência sombria: uma menina filma num i-Phone um jogo cruel com um hamster alimentado com comprimidos de dormir. É uma metáfora para a opressão dos pobres. E essa tensão se processo em meio ao casamento da personagem de Isabelle com um empresário inglês, vivido por Toby Jones.
“Não concordo com a ideia de que eu seja descrente na humanidade, mas existe um olhar de total ingenuidade em relação às tensões econômicas à nossa volta. A pobreza gera ódio sob a total inadimplência do Estado em relação aos afetos alheios”, diz Haneke. “Famílias como o clã Laurent estão por aí ao nosso lado exercendo controles. O suspense que eu gero ao falar deles, assim como em ‘Amour’, baseia-se na observação”.

p.s.: O canal Megapix preparou um especial com todos os filmes da franquia Rocky, com Sylvester Stallone dublado por André Filho e Luiz Feier Motta, para o dia de Natal, sexta (25). Serão exibidos os oito títulos em sequência começando com o clássico de 1976, “Rocky – Um Lutador”, até “Creed II”, às 22h30, como atração natalina da Sessão Megapix. No domingo (27), começando às 7h, o público terá mais uma oportunidade de assistir a maratona, agora sem intervalos. É um super presente do canal para os fãs de Balboa.

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