‘TOC’ é um manifesto libertário para a comédia nacional

‘TOC’ é um manifesto libertário para a comédia nacional

Rodrigo Fonseca

06 de fevereiro de 2017 | 03h39

Tatá Werneck tem atuação primorosa em

Tatá Werneck tem uma atuação primorosa na aula de anarquia “TOC: Transtornada Obsessiva Compulsiva”: melhor exemplar do millennial besteirol

RODRIGO FONSECA
Fosse TOC: Transtornada Obsessiva Compulsiva um drama, sua protagonista, Tatá Werneck – ás do humor brasileiro, com ares de Marisa Tomei em seus tempos de Meu Primo Vinny – seria, indubitavelmente, incensada ao mesmo rol onde estão Leandra Leal, Karine Teles ou Alice Braga: o das maiores jovens atrizes do país hoje em atividade. Rir com Tatá é lugar comum. E, no anárquico filme de Paulinho Caruso e Teodoro Poppovic, em cartaz desde quinta, gargalha-se aos quilos com a moça. Mas não é só, pois, diluída numa (auto)crítica aos vícios do filão neochanchada e à cultura das celebridades (sobretudo as da web), existe a refinada construção de uma psiquê fraturada pela superexposição… e pela solidão. O ataque ao culto dos astros instantâneos ganha ainda mais pólvora com o onanista Caio (Bruno Gagliasso), um ator viciado em masturbação que acossa Tatá. Mas, não, TOC não é um drama e sim a mais abusada, explosiva e suicida comédia brasileira de largo alcance da década, só ombreada – em parâmetros mais adultos, igualmente cítricos e cínicos – ao borracho O Roubo da Taça, de Caito Ortiz. Sua conexão com o riso dificulta – dado o preconceito contra o ethos cômico – seu reconhecimento. Mas é difícil pensar em algum longa-metragem nacional popular que se ponha tanto à prova e que arrisque tanto na dramaturgia, sem descuidar da plasticidade, desafiando as convenções (sobretudo as sociais) de personagens femininos do país na tela grande.

Tem influência de Michel Gondry e um cheirinho do seminal Como Se Fosse a Primeira Vez (2004), com Adam Sandler, nesta trama sobre Kika (Tatá), atriz em ascensão na TV, na publicidade e também na www, que, ao lançar um livro, às vésperas de sua escalação para um posto central na próxima novela das 21h, entra numa espiral de derrotas. Até bater de frente com a atriz cômica principal do cinema verde e amarelo, Ingrid Guimarães (numa delícia de metalinguagem), ela bate – e sem freio. Cada trombada com a vida leva a jovem a repensar sua própria condição, salpicando o roteiro de existencialismo e dando a Tatá uma personagem que é uma cordilheira de camadas de sentidos. Só sua passagem por um programa de variedades, ao lado de um macaco prego, apresentado por uma aspirante a Luciana Gimenez (vivido pela espoleta Luciana Paes) já valeria cada trocado do ingresso. Mas o enredo evoluirá além da comicidade, trafegando por veredas do suspense investigativo e do amor.

Daniel Furlan com Tatá: par romântico

Daniel Furlan com Tatá: par romântico

Entra lá pelas tantas uma construção de par romântico – desromantizada – na figura do livreiro Vladimir (Daniel Furlan, ótimo), capaz de evocar a paixonite entre Scarlett Johansson e Bill Murray no sacrossanto Encontros e Desencontros (2003). Escorre mel quando só se espera fel ou trapalhada, pois, tudo, tudo, na construção de Caruso e Poppovic se pauta pelo inusitado, com o cuidado de plastificar seus protagonistas e também os seus coadjuvantes com uma resina pós-moderna, sintonizada com as inquietações morais dos jovens de hoje. Seu faro mira o cheiro digital de uma nova plateia, que não se vê representada na neochanchada, cujo foco não é geracional e sim sociológico e econômico, de olho nas classes C e D, que, sob a bolha de crédito da Era Lula e Dilma, tiveram chance de inclusão cartesiana, na mecânica do “consumo, logo existo”. Para os adolescentes com quem Tatá deseja falar, o conflito vai além do bolso – embora este também lhes doa. Há preocupações amorosas, há questões de aceitação, há as novas modalidades do exercício da individualidade, mas tudo isso aparece em cena consolidado sob parâmetros do mi-mi-mi nietzschiano dos millennials, a dita Geração Y, aquela alfabetizada pela internet.

Na mesma canoa onde Caruso e Poppovic remam contra o clichê da comédia nativa, movendo as ondas do que poderia ser chamado de millennial besteirol, estão Julia Rezende (da franquia Meu Passado me Condena), Pedro Amorim (de Mato Sem Cachorro), Ian SBF (com o genial Entre Abelhas), Matheus Souza (de Apenas o Fim) e a dupla Rilson Baco e Felipe Bretas (de O Último Virgem). Protegidos sob um guarda-chuva de “cinema de gênero” ensopado de referências de Judd Apatow (Ligeiramente Grávidos), todos eles, os millennials, estão oxigenando um terreno sufocado de chavões, trazendo referências da Era Ploc e dos anos 2000, de Chaves Freaks and Geeks, para agregar novas audiências.

Julia lançará este ano o que pode ser seu melhor filme: a adaptação para as telas da obra-prima teatral (sabor Coen brothers) de Fernando Ceylão, a peça Como é Cruel Viver Assim. Vem de Amorim o esperado Divórcio 190, no qual Murilo Benício Camila Morgado recriam em português um clima à la A Guerra dos Roses. Já Matheus foi elogiado em Gramado por sua agridoce pensata sobre ser solteiro no mundo de hoje: Tamo Junto, com Leandro Soares em estado de graça.

Em geral, desde o início dos anos 2000, quando Daniel Filho ensinou a Retomada a fazer comédia blockbuster, com A Partilha (2001), reclama-se muito do descuido dos nossos bardos da gargalhada com o visual, com a plástica dos longas-metragens, num sinal de que o apuro verbal é maior do que o capricho cenotécnico e fotográfico. Mas nos novos dínamos do gênero, a coisa é diferente: tudo é mais “cinemático”, sendo que Amorim costumava ser encarado como o mais atento ao arranjo formal. Mas, agora, Caruso e Poppovic também merecem esse elogio, pela força plástica de TOC (cuja montagem é um vulcão que lhe incrementa o timbre pop). Temos com ele, talvez, a mais subversiva das comédias com disposição para fazer milhões. Que essa vocação se cumpra, pois Tatá merece.