‘Tô Ryca 2’: a grife Pedro Antonio de humor

‘Tô Ryca 2’: a grife Pedro Antonio de humor

Rodrigo Fonseca

08 de fevereiro de 2022 | 14h43

Filho da produtora Glaucia Camargos e do diretor Paulo Thiago, o cineasta Pedro Antonio arrebata o público com a deliciosa comédia “Tô Ryca 2”, um fidelíssimo retrato da picardia suburbana, divertido do começo ao fim… e bom de bilheteria, com 154.365 mil pagantes em sua arrancada

RODRIGO FONSECA
Com 154.365 mil ingressos vendidos em seu primeiro fim de semana em cartaz, “Tô Ryca 2” dá todas as evidências de que, respeitando os protocolos de segurança contra a covid-19 e suas derivadas, a comédia popular brasileira vai muito – muito – bem, e ainda é capaz de lapidar a carreira de um diretor que, filme a filme, revela-se um dínamo das crônicas de costume: Pedro Antonio. Um ano depois de ter brilhado com “Um Tio Quase Perfeito 2”, ele volta à seara do riso, agora acompanhado por uma Samantha Schmütz em estado de graça. As voltas aventuras da herdeira Selminha – que, agora, perde tudo para uma xará vivida por Evelyn Castro – periga ser um dos retratos mais fiéis que o cinema nacional já tirou da alma suburbana carioca. Aos 41 anos, o cineasta – filho do saudoso diretor Paulo Thiago e da produtora Glaucia Camargos – tem uma carreira prolífica, que contabiliza dez longas. Tem por vir um filme de Natal da Netflix por vir, tem uma adaptação de um best-seller de Paula Pimenta (“Fazendo Meu Filme”); e tem “Uma Pitada de Sorte”, com Fabiana Karla. Vale muito a pena conferir – na telona – as mil e uma peripécias de Selminha, escritas por Fil Braz em plena sintonia com as agruras da periferia.

Qual é o conceito de subúrbio que rege o universo de “Tô Ryca 2”, ou seja, que mundo periférico é aquele, onde a lealdade é o foco contínuo da sua narrativa?
Pedro Antonio:
O conceito que rege o “Tô Ryca”, desde o 1º, é o de que as pessoas periféricas não são ignorantes, muito menos burras. O fato de elas não terem acesso a uma série de coisas não as cega para o país que elas vivem, pelo contrário, elas são as que mais sabem. E, também, pela própria dificuldade a que estão sujeitas, aproximam-se de valores essenciais como solidariedade, lealdade, generosidade, espírito coletivo, capacidade de superação. E existe uma tradição do audiovisual brasileiro em retratar as características dos subúrbios. Diversos filmes, com diferentes propostas, já aterrizaram sobre essa geografia política, por assim dizer. No caso do “Tô Ryca”, a minha preocupação era não retratar o subúrbio carioca de forma caricata. Eu queria um tratamento realista, capaz de gerar um espelho de identificação com o público que vive ali. Não queria que o gênero da comédia fosse usado como ferramenta para exagerar as cores e os tons do subúrbio. Porém, sempre tive em mente que o aspecto pulsante, a característica fora da curva, fosse justamente a Selminha, uma vez que ela era o epicentro cômico. Selminha precisava ter um tom acima (sem perder o realismo), já que condensa, em si, uma visão de mundo brasileira. Ela é a voz múltipla, rascante, desafiadora, consciente, verborrágica e hilária do povo… Como ela mesmo diz, ao escolher as cantoras Maiara e Maraísa pra sua feijoada: “mas eu sou o povo”. Agora, se tudo tivesse um tom “Selminha”, talvez não desfrutaríamos tão bem o que ela fala e como ela fala… O exagero e o contraste são elementos cômicos que Selminha usa no seu cotidiano. É justamente pra eles serem exacerbados a serviço da comédia, que o entorno precisa estar em outro registro, no caso um registro mais calmo e realista.
O que uma comediante como Samantha Schmütz guarda de semelhança com a tradição de ícones da chanchada dos anos 1930, 40 e 50 na construção de um humor mais popular?
Pedro Antonio:
A Samantha tem uma entrega total e sem pudores pro humor. Ela se joga mesmo. Faz careta e se contorce, usa o corpo todo em cena, sem medo do ridículo, sem vaidade alguma. A Samantha desaparece completamente pra que a Selminha surja, fazendo as maluquices dela. É uma atriz muito estudiosa, que sempre procura a extensão máxima que a corda da comédia é capaz atingir. Nós temos uma tradição cênica que se origina muito do circo. Ícones como Procópio Ferreira, Oscarito, Grande Otelo vieram desse universo. A dupla Oscarito-Grande Otelo conseguia uma conexão com o público fortíssima. A chanchada dos anos 30/ 40/ 50 é um retrato fiel de como o comediante nacional é capaz de arrastar multidões e se tornar um patrimônio histórico da nossa cultura. O culto aos grandes comediantes nos faz lembrar o quão somos potentes. Ao se revelaram no humor, eles revelam muito do que nós pensamos e muitas vezes não dizemos. Samantha, pra além do seu talento, tem essa chave capaz de acessar o nosso imaginário cômico. Ela sempre pensa em características, trejeitos, formas de falar que tenham um chamariz cômico. Selminha tem, por exemplo, os lábios inferiores mais soltos, dando a ela uma certa malemolência e deboche. Isso é pensado por Samantha, ou seja, é uma comediante que faz suas escolhas para o público, mirando nele. Por último, vale dizer que há em todos os trabalhos de Samantha a sua persona cômica, algo comum aos ícones da chanchada por exemplo.
De que maneira esse filme atualiza o conceito da neochanchada, que pressupõe a crônica da inclusão social das classes C, D e E? De que maneira ele aponta um projeto de cinema pra você trilhar em seu corpo a corpo com o humor?
Pedro Antonio:
Essa pergunta me remete novamente a ideia de que o pobre já foi muito retratado como aquele que não sabe (não sabe comer, não sabe se portar, não sabe votar, não sabe se expressar). Em “Tô Ryca” não há isso. A gente expurga essa ideia. Vemos pessoas conscientes, críticas, sem intenção de se sujeitar, com capacidade de organização, buscando saídas por elas mesmas. A inclusão social se dá pela interação e capacidade reflexão, há um olhar mais profundo sobre a extensão do comportamento das classes mais humildes. E isso é um terreno fértil de criatividade e – por que não? – de humor. Eu gosto de retratar o real, e tirar dele o humor. Tive uma grande mestre, Ana Achcar, que sempre colocava um conceito de que “humor é uma descoberta” e é com esse olhar que eu aponto meu futuro, a minha trilha é de descobrir e desvendar o real, pra que ele sirva de matéria prima para a ficção.

p.s.: A fofura de musical “Pimentinha – Elis Regina para Crianças”, novo espetáculo do premiado projeto ‘Grandes Músicos para Pequenos’, encerra temporada, neste domingo (13/02), no Teatro Clara Nunes, no Shopping da Gávea. Com direção de Diego Morais, direção musical de Guilherme Borges e texto de Pedro Henrique Lopes, o espetáculo mostra a importância da autoestima, e questiona os padrões de beleza impostos às mulheres, em uma grande homenagem a Elis Regina. O projeto tem uma trajetória de sucesso ao apresentar os grandes nomes da MPB para as novas gerações, em espetáculos que reúnem toda a família. Depois de Luiz Gonzaga, Braguinha, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Raul Seixas, a homenageada da vez é uma das maiores cantoras brasileiras. “Buscamos inspiração na história de Elis Regina, em seus primeiros passos como artista, para trazer ao palco a importância de assumir sua personalidade desde cedo”, comenta o autor Pedro Henrique Lopes. Sessões no sábado e no domingo, às 16h

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