‘Titane’ tem sobrevida na badalação de Cannes

‘Titane’ tem sobrevida na badalação de Cannes

Rodrigo Fonseca

17 de maio de 2022 | 20h31

DVD de “Titane” tem destaque na livraria Fnac cannoise

RODRIGO FONSECA
Comovida pela homenagem ao ator e diretor Forest Whitaker, na entrega da Palma de Honra de 2022, Cannes está promovendo a 75ª edição de seu festival relembrando sucessos de anos anteriores e tirando onda pela entrevista que conseguiu com o líder ucraniano. Na cerimônia de abertura do evento, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, entrou ao vivo, na telona do Palais dos Festivals, dando uma declaração antibelicista, na qual citou o filme “O Grande Ditador” (1940), de Charles Chaplin (1889-1977). Suas palavras tiveram tradução simultânea em Francês. Numa das salas de exibição do festival, a Debussy, uma bandeira da Ucrânia foi aberta em respeito às vítimas da guerra. Mas em outras latitudes, na Fnac local, na Rue de Antibes, estão à venda livros dedicados a alguns dos concorrentes deste ano, como os irmãos belgas Jean-Luc e Pierre Dardenne (de “Rosetta”) e o canadense David Croneberg (“Crash”) e DVDs de concorrentes dos últimos 30 anos, como “Coração Selvagem” (1990), “Drive My Car” (2021) e a controversa Palma “Titane”, de Julia Ducournau, lançada no Brasil via MUBI.

Vincent Lindon com Agathe Rousselle no longa de Julia Ducournau

Revelada com “Grave” (“Raw”, 2016), a cineasta parisiense enxerga o corpo como um lugar de revelações e de transcendência, a julgar pelo processo revolucionário que suas protagonistas passam a partir de um gatilho de seus organismos vetorizado por pressões externas. Com a entrada de “TITANE” no www.mubi.com (um dispositivo de transmissão de filmes que podem se visto em ambiente doméstico por celular ou por computador), o espectador pode habitar esse sistema biológico e compreender como a realizadora entender o corpo como emissor de verdades, como formulador de conspirações.
Em seu novo longa, uma mulher na casa dos 20 e tantos anos engravida após uma relação sexual sem preservativo. Mas seria difícil encontrar camisinhas que dessem conta de seu parceiro: um… carro. Por cerca de nove meses, após uma transa em que latarias metálicas de agitam, Alexia (Agathe Rousselle, em devastadora atuação) vai expelir um líquido que parece óleo diesel de sua vagina. Por vezes, a secreção é graxa. São imagens que, faladas, soam quase caricatas, soam como piadas. Mas filmadas com elegância e visceralidade, essas imagens produzem o que pode ser considerado “O” filme de 2021. Não por acaso, coube a ele a Palma de Ouro. É a segunda vez na História que a láurea vai para uma realizadora, sendo a neozelandesa Jane Campion a vencedora anterior, laureada em 1993, por “O Piano”.

A badalação em torno de Tom Cruise

Fervendo num ritmo de panela de pressão, “Titane” investe nessa exortação da potência corporal, típica de Julia, mostrando a carcaça humana como um templo de afirmação do livre arbítrio, num estudo sobre identidades performáticas. Cannes premiou-a (graças ao júri presidido por Spike Lee), mas a Croisette dividiu-se num Fla x Flu tipo “Amei” x “Odiei” ao fim de sua projeção. San Sebastián viveu a mesma situação. O Festival do Rio idem. Houve gente saindo das sessões quando Alexia bate o próprio rosto contra uma pia, a fim de deformar seu nariz. Deformar-se é parte da reinvenção pela qual a personagem há de passar quando se assume, sem culpa, como serial killer, dando um ponto final à existência de homens que passam dos limites na aproximação a ela e dando um adeus a mulheres que não reagem a seus carinhos furiosos como ela espera. E ela mata usando um pau de cabelo como arma. Mas é a segunda transformação por que a moça passa. A primeira acontece em sua infância, quando um acidente rodoviário impõe a instalação de uma placa de titânio em sua cabeça. Ali ela vira ciborgue. Ali vem um espírito cronenberguiano desta alegoria sobre a condição maquínica da civilização, nestes tempos em que somos, a cada dia mais, centauros de nossa tecnologia. Antes de Julia lançar essa fábula dark sobre o devir chassi em cada um de nós, a diretora pernambucana Renata Pinheiro já havia tratado do tema em seu vicejante “Carro Rei”, um dos destaques na 25ª Mostra de Tiradentes, atualmente online.
Ambos têm parentela com “Crash: Estranhos Prazeres” (Prêmio do Júri em Cannes, em 1996), do já citado David Cronenberg. Lá, acidentes de carro excitavam pessoas marcadas por cicatrizes. Em “Titane”, Alexia, que também ostenta uma ferida cicatrizada na pele, só tem orgasmos com veículos de quatro rodas, levando consigo o fruto desse prazer. Fruto esse que vai se desenvolver numa assustadora aproximação da narrativa com os códigos do horror. O que dilui o tom sombrio – mas não o clima de bizarrice – é a relação que Alexia estabelece com um bombeiro (Vincent Lindon, em excepcional atuação) que enxerga nela o filho que perdeu. É o germe de um amor paterno que vai descambar para algo sem nome, surpreendente como cada fotograma desta aula de biologia existencialista. A biologia de tempos ciborgues.
Lindon é o presidente do júri deste ano e falou bonito no festejo de abre-alas do evento. Numa polêmica coletiva de imprensa, cheia de perguntas sobre inclusão, o ator declarou seu ímpeto de julgar os filmes “guiado pela emoção, sem juízos prévios.
Na quarta, Tom Cruise vem a Cannes falar sobre sua carreira e promover “Top Gun: Maverick”, que anda deleitando a crítica.

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