‘Titane’, o êxtase do corpo… e da tela

‘Titane’, o êxtase do corpo… e da tela

Rodrigo Fonseca

17 de setembro de 2021 | 21h18

Rodrigo Fonseca
Celebração do corpo como um templo de afirmação do livre arbítrio, num estudo sobre identidades performática, “Titane”, da diretora Julia Ducournau, é a experiência fílmica mais potente – e livre – de 2021, até aqui, como sugeriu sua vitória em Cannes, com a conquista da Palma de Ouro. É um soco na cara do que o cinema francês tem de mais fedido a naftalina. Um soco sem medo de ser pop. E com argúcia para ser refinado na forma… e na análise das neuroses contemporâneas em relação ao desejo, ao prazer físico, à materialidade do querer. Exibido nesta sexta em San Sebastián, como fim de festa para a noite de abertura do festival espanhol, a produção que mais desarmonia gerou na Croisette, em 2021, repetiu o feito em telas ibéricas, rachando opiniões. Houve gente saindo quando Alexia, sua protagonista, vivida com esplendor, som e fúria por
Agathe Rousselle, bate o próprio rosto contra uma pia, a fim de deformar seu nariz. É uma atitude que reforça o espírito cronenberguiano de uma alegoria sobre a condição ciborgue destes tempos em que somos, a cada dia mais, centauros de nossa tecnologia. Antes de Julia lançar essa fábula dark sobre o devir chassi em cada um de nós, Renata Pinheiro já havia tratado do tem em seu vicejante “Carro Rei”, eleito o melhor filme de Gramado, em agosto.

Ambos têm parentela no “Crash: Estranhos Prazeres” (Prêmio do Júri em Cannes, em 1996), do já citado David Cronenberg. Lá, acidentes de carro excitavam um grupo de pessoas marcadas por cicatrizes. Em “Titane”, Alexia também carrega a marca de uma cirurgia em sua cabeça. É a flâmula do descaso paterno, inerente a um acidente que sofreu com seu pai (vivido pelo cineasta Bertrand Bonello, de “Zombi Child”), por ele estar sonolento ao volante). Ao crescer, e ganhar a vida como dançarina, num balé erótico, sobre automóveis, a protagonista sente a placa de titânio – que puseram em seu crânio, após uma batida – dar tilte em seu sistema, levando a moça a ter tesão por carros. Ela literalmente transa com um, depois de fugir da cena de um crime que cometeu – ela mata, com um pau de cabelo, quem abusa dela. Da transa vem uma gravidez. Mas é uma gravidez maquínica, cujo sinal é ela verter óleo diesel por sua pele afora.
Para escapar do veto da família, demonstrando nítido incômodo com a figura paterna de Bonello, Alexia corta o cabelo, prende os seios com uma fita, esconde a barriga de futura mamãe e se faz passar por menino. Mas não qualquer menino: ela finge ser o filho há muito desaparecido de um oficial dos bombeiros, vivido por um mastodonte da boa atuação chamado Vincent Lindon. O soldado do fogo abraça aquele ser andrógino sem julgar, numa relação de mútua performance. Ele – que injeta testosterona na veia pra manter os músculos imunes às velhice – vai fingir ser o pai de alguém. Um alguém que finge ser outrém. Esse jogo de fingir alimenta uma anatomia do “vir a ser”, do pretender, do fazer de conta, do encenar. Mas é uma anatomia em que Julia, estabelecendo uma linha autoral com seu aclamado “Grave” (“Raw”, 2016), disseca as potências da carne. Potências que transcendem nossa consciência, apontando desmesuras de humanidade em uma narrativa que Ruben Impens fotografa com saturação – e arrebatamento.
No Brasil, “Titane” vai ser lançado pela plataforma digital MUBI até o fim do ano.

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